Lugar A
D- oi, eu quero este chocolate
M- esta bem. va ao banco e faca um deposito de 150 euros
D- ok.
......
D- oi, eu quero este chocolate. aqui esta o comprovante do deposito.
M- so um minuto... H, esta menina quer este chocolate. aqui esta o comprovante do deposito dela.
H- mas por que ela fez este deposito?
M- porque ela quer o chocolate
H- mas ela nao pode! D, por que vc fez este deposito?
D- Porque quero este chocolate!
H- Mas voce nao pode comprar este chocolate! Ele eh so para estrangeiros!
D- Mas eu sou estrangeira!
H- mas voce tambem eh italiana. Nao pode.
D- Como pego meu dinheiro de volta?
H- Vai no lugar B.
Lugar B
D- blablabla dinheiro de volta
X- nao eh aqui. liga no lugar C e pergunta como vc faz.
Lugar C, por telefone
Y- Senhorita D? Recebi seu fax e email, e investigamos o seu caso. A senhorita deve se dirigir a um lugar chamado A, e pedir o seu dinheiro a um senhor chamado H.
D- Mas ja falei com o senhor H. Ele disse para eu ir pro lugar B, que disse pra eu falar com voces.
Y- Bom, eu nao posso te dar o seu dinheiro. So posso te dizer o que voce deve fazer. E voce deve falar com o senhor H, do lugar A.
D- Mas este senhor H, do lugar A, me mandara ir ao lugar B, que me mandara falar mais uma vez com voce, que me dira para falar com o senhor H... e assim a historia nao acabara nunca.
Y- Eu posso te mandar um email explicando o que ja expliquei. Nao posso fazer nada a mais.
.
.
.
.
bye, bye, 150 euros...
terça-feira, 20 de abril de 2010
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Olha a chuva
Olha a chuva, olha a chuva
Olha o sol
Olha o dia a lançar serpentinas
Serpentinas pelo céu, sete fitas coloridas
Sete vias
Sete vidas, avenidas, prá qualquer lugar (Chico Buarque)
Fica assim, um tempão sem chover. Um tempão assim. Coisa enlouquecedora, atentado à vida.
Mas quando começa a chover, também não para, não para mesmo, de jeito nenhum. E eu não sei o que é mais enlouquecedor, mas com chuva é um enlouquecedor bom demais. Eu me transformo em gota, sem saber muito bem onde vou cair, onde devo cair, quando vou cair, se quero cair, e o que acontecerá comigo no momento em que eu cair. E essas questões vêm, sim, e me deixam pirada, pensativa, reflexiva assim, desse jeito. Mas respondê-las não me importa, ou melhor, eu até tento, mas a resposta é como se nem interessasse, contanto que eu possa continuar assim, sendo gota.
E todas as coisas do mundo começam a aconter meio que ao mesmo tempo, boas e ruins, mas aquela sensaçãozinha que fica é sempre boa. Provas, lições, trabalhos, responsabilidades, imprevistos, falta de tempo, doenças, doenças, doenças...
Nada importa. Eu estou lá, na chuva, ao vento, uma gotinha no céu. Sem nem saber que raios seria um deserto.
Olha o sol
Olha o dia a lançar serpentinas
Serpentinas pelo céu, sete fitas coloridas
Sete vias
Sete vidas, avenidas, prá qualquer lugar (Chico Buarque)
Fica assim, um tempão sem chover. Um tempão assim. Coisa enlouquecedora, atentado à vida.
Mas quando começa a chover, também não para, não para mesmo, de jeito nenhum. E eu não sei o que é mais enlouquecedor, mas com chuva é um enlouquecedor bom demais. Eu me transformo em gota, sem saber muito bem onde vou cair, onde devo cair, quando vou cair, se quero cair, e o que acontecerá comigo no momento em que eu cair. E essas questões vêm, sim, e me deixam pirada, pensativa, reflexiva assim, desse jeito. Mas respondê-las não me importa, ou melhor, eu até tento, mas a resposta é como se nem interessasse, contanto que eu possa continuar assim, sendo gota.
E todas as coisas do mundo começam a aconter meio que ao mesmo tempo, boas e ruins, mas aquela sensaçãozinha que fica é sempre boa. Provas, lições, trabalhos, responsabilidades, imprevistos, falta de tempo, doenças, doenças, doenças...
Nada importa. Eu estou lá, na chuva, ao vento, uma gotinha no céu. Sem nem saber que raios seria um deserto.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
O meu pai (ou: O grande incentivador)
- Pai!
- Hã?
- Ganhei um milhão na loteria!!!
- Oi?
- Ganhei um milhão na loteria!!
- Você jogou na loteria?
- É!!! Ganhei!!
- Quando?
- Ah, semana passada, pai! Mas eu ganhei! To milionário agora!
- E por que você quer tanto ser milionário?
- Ah, sei lá, mas agora eu sou!!
- Mas se você nem sabe o que você quer com um milhão, por que você jogou?
- Porque é bom ter dinheiro, né? Posso viajar, posso comprar um carro...
- Mas você pretendia viajar? Ou comprar um carro?
- Ah... Eu gostaria. E também podemos mudar de apartamento... Você sabe que uma parte do dinheiro vai pra você, né?
- Sei, quero dizer, agora eu sei, mas eu ainda não entendi isso. Da onde surgiu essa loteria, por que você jogou...? Esse dinheiro...?
- Pai: perto e casa tem uma loteria. Eu resolvi tentar essa vez. E funcionou! Aí eu ganhei um milhão. E ter um milhão é bom, porque nossa vida vai ser melhor. Você mesmo não queria comprar uma TV de LCD? Então! Fica feliz!
- É... sei lá. Você é que sabe.
- Ta. Boa noite.
- (Mudando o canal da TV) Ah, tá, boa noite.
- Hã?
- Ganhei um milhão na loteria!!!
- Oi?
- Ganhei um milhão na loteria!!
- Você jogou na loteria?
- É!!! Ganhei!!
- Quando?
- Ah, semana passada, pai! Mas eu ganhei! To milionário agora!
- E por que você quer tanto ser milionário?
- Ah, sei lá, mas agora eu sou!!
- Mas se você nem sabe o que você quer com um milhão, por que você jogou?
- Porque é bom ter dinheiro, né? Posso viajar, posso comprar um carro...
- Mas você pretendia viajar? Ou comprar um carro?
- Ah... Eu gostaria. E também podemos mudar de apartamento... Você sabe que uma parte do dinheiro vai pra você, né?
- Sei, quero dizer, agora eu sei, mas eu ainda não entendi isso. Da onde surgiu essa loteria, por que você jogou...? Esse dinheiro...?
- Pai: perto e casa tem uma loteria. Eu resolvi tentar essa vez. E funcionou! Aí eu ganhei um milhão. E ter um milhão é bom, porque nossa vida vai ser melhor. Você mesmo não queria comprar uma TV de LCD? Então! Fica feliz!
- É... sei lá. Você é que sabe.
- Ta. Boa noite.
- (Mudando o canal da TV) Ah, tá, boa noite.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
O que foi que eu fiz?!
Eu errei. Errei feio. Ganhei leitores e depois perdi assim, rapidinho, como se nem fosse importante.
Enfim, o que posso dizer? Fase nova, rotina nova. Não justifica totalmente. Sou preguiçosa também. agora só posso tentar de novo. E vou! Não todo dia. É impossível (eu consegui todas aquelas optativas que a usp não quis me dar! - ainda existem bons e caridosos professores!) Mas vou tentar escrever. Mais.
(fiquei tão atrapalhada que nem desmudei a descrição do blog. Parecia que gostava mais de apurar do que de escrever.. há! parece...)
Bom, então, já que estou aqui, vou escrever. E já que estou fora da ficção, continuarei assim. Agora. (se bem que ficcionar isso não seria nada mal...)
Este texto se chama:
Recado a jovens estudantes brasileiros do século XXI
A ditadura militar foi um período difícil. Os jovem PRECISAVAM sair às ruas se quisessem mudar alguma coisa. Havia censura, e forte. Havia repressão.
Os estudantes então se organizavam para lutar contra isso. ISSO. A ditadura. Uma coisa. Específica. Todos queriam lutar contra a ditadura. Não tinham, misturado na manifestação, cartazes com "não fumem no xerox", "Viva o MST", "Abaixo o capitalismo".
Sacaram onde quero chegar? Não, não quero dizer que sou a favor do capitalismo e a favor do cigarro no xerox. Quero dizer duas coisas:
1) Não é porque os nossos pais tiveram que ser militantes para mudar o país que é errado nós não sermos! Não acho que tudo esteja perfeito, mas ter que discutir algum problema todo santo dia cansa. E não leva a lugar nenhum.
2) Mesmo que exista algo pelo quê se lutar, não se misturam lutas! E o principal motivo - mas não único - é que não se consegue adesão assim. Quero dizer: querem lutar contra os cortes de verbas das universidades? Beleza. Mas não enfia no meio do movimento um cartaz exigindo a distribuição de terras. Simplesmente não tem a ver! E alguém que for a favor de um e contra o outro? Não vai aderir! Não sei nem quem foi o ser que achou que isso fosse dar certo. Uma coisa é a educação. Outra, a distribuição de terras. Mesmo que, no fundo, bem no fundo, um interfira no outro, não acho que seja adequado debater os dois temas em UMA assembléia de... 3 horas?!
Bom, já foram muitos pontos de exclamação, e eu não curto muito isso de reinvindicação via blog. Só tava entalado mesmo... Prometo que em breve (breve!) escrevo ficção.
Até!
Enfim, o que posso dizer? Fase nova, rotina nova. Não justifica totalmente. Sou preguiçosa também. agora só posso tentar de novo. E vou! Não todo dia. É impossível (eu consegui todas aquelas optativas que a usp não quis me dar! - ainda existem bons e caridosos professores!) Mas vou tentar escrever. Mais.
(fiquei tão atrapalhada que nem desmudei a descrição do blog. Parecia que gostava mais de apurar do que de escrever.. há! parece...)
Bom, então, já que estou aqui, vou escrever. E já que estou fora da ficção, continuarei assim. Agora. (se bem que ficcionar isso não seria nada mal...)
Este texto se chama:
Recado a jovens estudantes brasileiros do século XXI
A ditadura militar foi um período difícil. Os jovem PRECISAVAM sair às ruas se quisessem mudar alguma coisa. Havia censura, e forte. Havia repressão.
Os estudantes então se organizavam para lutar contra isso. ISSO. A ditadura. Uma coisa. Específica. Todos queriam lutar contra a ditadura. Não tinham, misturado na manifestação, cartazes com "não fumem no xerox", "Viva o MST", "Abaixo o capitalismo".
Sacaram onde quero chegar? Não, não quero dizer que sou a favor do capitalismo e a favor do cigarro no xerox. Quero dizer duas coisas:
1) Não é porque os nossos pais tiveram que ser militantes para mudar o país que é errado nós não sermos! Não acho que tudo esteja perfeito, mas ter que discutir algum problema todo santo dia cansa. E não leva a lugar nenhum.
2) Mesmo que exista algo pelo quê se lutar, não se misturam lutas! E o principal motivo - mas não único - é que não se consegue adesão assim. Quero dizer: querem lutar contra os cortes de verbas das universidades? Beleza. Mas não enfia no meio do movimento um cartaz exigindo a distribuição de terras. Simplesmente não tem a ver! E alguém que for a favor de um e contra o outro? Não vai aderir! Não sei nem quem foi o ser que achou que isso fosse dar certo. Uma coisa é a educação. Outra, a distribuição de terras. Mesmo que, no fundo, bem no fundo, um interfira no outro, não acho que seja adequado debater os dois temas em UMA assembléia de... 3 horas?!
Bom, já foram muitos pontos de exclamação, e eu não curto muito isso de reinvindicação via blog. Só tava entalado mesmo... Prometo que em breve (breve!) escrevo ficção.
Até!
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Back!
Não exatamente falhei com minha promessa. Disse que retornaria em fevereiro, e aqui estou.
Mas hoje não vou começar com ficção. Começarei com um desabafo sobre como anda minha vida:
- Estou formada em jornalismo
- Estou matriculada em letras
- Não tenho trabalho e nem estou interessada em me desdobrar para encontrar um
- Quero começar uma iniciação científica mas não sei por onde começar e os professores da USP não estão me ajudando
- O sistema de matrícula da USP me ferrou e por causa das minhas péssimas notas de estudante de tripla graduação (jornalismo, português e italiano) não consegui nenhuma das optativas que eu queria
- Ainda não sei o que será do blog. Penso por enquanto que escreverei uma vez por semana. Quero começar a escrever um livro infantil, e talvez me obrigar a usar o tempo do blog no livro seja uma boa idéia.
Por enquanto é só!
Mas hoje não vou começar com ficção. Começarei com um desabafo sobre como anda minha vida:
- Estou formada em jornalismo
- Estou matriculada em letras
- Não tenho trabalho e nem estou interessada em me desdobrar para encontrar um
- Quero começar uma iniciação científica mas não sei por onde começar e os professores da USP não estão me ajudando
- O sistema de matrícula da USP me ferrou e por causa das minhas péssimas notas de estudante de tripla graduação (jornalismo, português e italiano) não consegui nenhuma das optativas que eu queria
- Ainda não sei o que será do blog. Penso por enquanto que escreverei uma vez por semana. Quero começar a escrever um livro infantil, e talvez me obrigar a usar o tempo do blog no livro seja uma boa idéia.
Por enquanto é só!
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Só em São Paulo...
acontece de alguém sair de casa às 19h para a aula das 19h30, andar dois quarteirões com o carro, perceber que não dará tempo de chegar na aula, começar a voltar para casa, abastecer o carro e, mesmo assim, chegar em casa às 20h.
OU...
Só em São Paulo se leva uma hora entre sair de casa, abastecer o carro na esquina, e voltar para casa.
OU...
Só em São Paulo se leva uma hora entre sair de casa, abastecer o carro na esquina, e voltar para casa.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Parabéns para mim!
Nem um 10 compensa todo o estresse que dá um trabalho de conclusão de curso.
Mas a própria conclusão do curso, sim. Aliada então a orgulho dos pais, sorriso dos avaliadores, flores da avó, top pizza, torta de maçã com sorvete de creme e torta de chocolate com calda de frutas vermelhas... Nossa... Aí compensa mesmo!
Daqui a uns quatro anos começa tudo de novo.
Mas um outro dez eu não garanto.
Mas a própria conclusão do curso, sim. Aliada então a orgulho dos pais, sorriso dos avaliadores, flores da avó, top pizza, torta de maçã com sorvete de creme e torta de chocolate com calda de frutas vermelhas... Nossa... Aí compensa mesmo!
Daqui a uns quatro anos começa tudo de novo.
Mas um outro dez eu não garanto.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Nunca a culpa é minha...
Depois de contar exatamente 6 minutos e meio olhando para uma página em branco no word, cheguei à conclusão de que hoje, dia da minha banca de TCC, não conseguirei escrever nada melhor do que exatamente estas quatro linhas. Peço desculpas. Sei que ando em falta, mas estou de mãos atadas.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Testando
Quando há um acidente,
Com ambulâncias, maca
e um monte de gente
você pára para ver o que aconteceu.
Por dó ou curiosidade?
Vou fazer um teste.
(É rápido.)
Me responda apenas isso:
Se pudesse fazer uma pergunta
a um colega do acidentado
- que por ali estivesse -
qual seria?
"O que aconteceu?" ou
"Ele tem família?"
Peço então um favor
no caso de ser a 1a opção.
Just... keep walking
Com ambulâncias, maca
e um monte de gente
você pára para ver o que aconteceu.
Por dó ou curiosidade?
Vou fazer um teste.
(É rápido.)
Me responda apenas isso:
Se pudesse fazer uma pergunta
a um colega do acidentado
- que por ali estivesse -
qual seria?
"O que aconteceu?" ou
"Ele tem família?"
Peço então um favor
no caso de ser a 1a opção.
Just... keep walking
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Is that simple
O problema não é esse
Não se deve
Não se precisa
Não se tem que
O problema não é isso
Trabalhar
Fazer
Acontecer
O problema poderia ser
dinheiro.
Mas não é. Não assim.
O problema é:
estudar ou... estudar.
Isto posto: não tem problema.
Não se deve
Não se precisa
Não se tem que
O problema não é isso
Trabalhar
Fazer
Acontecer
O problema poderia ser
dinheiro.
Mas não é. Não assim.
O problema é:
estudar ou... estudar.
Isto posto: não tem problema.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Diálogo entre uma menina, um livro de matemática e o livro Mrs Dalloway
Acordei e me perguntei se deveria mesmo acordar. Me perguntei. A pergunta foi dirigida a mim. Mas um livro na estante respondeu:
- O que você quer dizer com “deve acordar”?
Achei que, vinda de um livro, a pergunta era um tanto... estúpida. Respondi:
- Quero dizer se devo me levantar ou não.
- Como assim, “deve”? Você tem alguma obrigação em levantar?
Então percebi que a pergunta era um pouco mais profunda do que eu havia pensado, e, neste momento, já me vi entrando em uma profunda discussão sobre os meus deveres.
- Não é que eu tenha obrigação em acordar. Mas tenho outras obrigações, que só conseguirei cumprir se acordar.
- Bom, mas aí a resposta à sua pergunta é bastante óbvia. É evidente que deve acordar.
- Pois então. O que coloco em questão é se é mesmo necessário que eu acorde agora para cumprir com essas obrigações ou se posso dormir mais uma hora, por exemplo.
- E qual é a resposta?
- A resposta é que sim, é possível que eu cumpra com os meus deveres se acordar daqui a uma hora.
- Pronto.
- Não. Na verdade não está pronto. Você é um livro de matemática não é?
- Sou.
- Sabia. Está tudo muito lógico por aqui.
- Lógico.
- O livro ao seu lado é qual?
- Mrs Dalloway
- Perfeito! Você pode fazer o favor de chamá-lo à discussão?
- Não vejo motivo para fazê-lo, mas por que não? Um momento.
- Pois não?
- Livro Mrs Dalloway?
- Eu...
- Essa menina quer bater um papo com você.
- Ãhn? Fala.
- Oi, bom dia. É que assim. Eu tava pensando se preciso levantar agora ou se posso dormir um pouco mais. Porque eu consigo cumprir com as minhas obrigações de hoje dormindo mais, mas ao mesmo tempo eu já dormi dez horas!
- E o que é que tem isso?
- Dez horas é muita coisa pra uma menina da minha idade conseguir dormir hoje em dia. Na maioria dos casos as pessoas não conseguem dormir nem oito!
- Mas se você pode...
- Então acha que devo dormir mais?
- Não sei... Precisaria refletir mais sobre isso. Não existem outros motivos que fariam você ter que acordar? Não sei... de repente, se você acordar agora gasta mais calorias...
- Acho que isso não faz muita diferença. Eu até precisaria arrumar o meu armário, limpar as fotos do computador... Mas acho que se eu levantar agora, não vou querer fazer nada disso.
- Aí já é outra questão, não é, livro de matemática?
- Exato. Aí você não deve pensar se deve acordar agora ou não, mas se deve arrumar o seu armário ou não.
- Está vendo? Você está focando na questão errada.
- Ela estava fazendo isso desde o começo.
- Ah... quer saber? Bom dia para vocês. Estou indo para a sala ver televisão.
- O que você quer dizer com “deve acordar”?
Achei que, vinda de um livro, a pergunta era um tanto... estúpida. Respondi:
- Quero dizer se devo me levantar ou não.
- Como assim, “deve”? Você tem alguma obrigação em levantar?
Então percebi que a pergunta era um pouco mais profunda do que eu havia pensado, e, neste momento, já me vi entrando em uma profunda discussão sobre os meus deveres.
- Não é que eu tenha obrigação em acordar. Mas tenho outras obrigações, que só conseguirei cumprir se acordar.
- Bom, mas aí a resposta à sua pergunta é bastante óbvia. É evidente que deve acordar.
- Pois então. O que coloco em questão é se é mesmo necessário que eu acorde agora para cumprir com essas obrigações ou se posso dormir mais uma hora, por exemplo.
- E qual é a resposta?
- A resposta é que sim, é possível que eu cumpra com os meus deveres se acordar daqui a uma hora.
- Pronto.
- Não. Na verdade não está pronto. Você é um livro de matemática não é?
- Sou.
- Sabia. Está tudo muito lógico por aqui.
- Lógico.
- O livro ao seu lado é qual?
- Mrs Dalloway
- Perfeito! Você pode fazer o favor de chamá-lo à discussão?
- Não vejo motivo para fazê-lo, mas por que não? Um momento.
- Pois não?
- Livro Mrs Dalloway?
- Eu...
- Essa menina quer bater um papo com você.
- Ãhn? Fala.
- Oi, bom dia. É que assim. Eu tava pensando se preciso levantar agora ou se posso dormir um pouco mais. Porque eu consigo cumprir com as minhas obrigações de hoje dormindo mais, mas ao mesmo tempo eu já dormi dez horas!
- E o que é que tem isso?
- Dez horas é muita coisa pra uma menina da minha idade conseguir dormir hoje em dia. Na maioria dos casos as pessoas não conseguem dormir nem oito!
- Mas se você pode...
- Então acha que devo dormir mais?
- Não sei... Precisaria refletir mais sobre isso. Não existem outros motivos que fariam você ter que acordar? Não sei... de repente, se você acordar agora gasta mais calorias...
- Acho que isso não faz muita diferença. Eu até precisaria arrumar o meu armário, limpar as fotos do computador... Mas acho que se eu levantar agora, não vou querer fazer nada disso.
- Aí já é outra questão, não é, livro de matemática?
- Exato. Aí você não deve pensar se deve acordar agora ou não, mas se deve arrumar o seu armário ou não.
- Está vendo? Você está focando na questão errada.
- Ela estava fazendo isso desde o começo.
- Ah... quer saber? Bom dia para vocês. Estou indo para a sala ver televisão.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Uniforme
Era verão, mas a temperatura obrigava os estudantes a vestirem seus casacos. Recém saída do carro, ela ainda estava em dúvida se precisaria ou não colocar a malha azul que sua mãe trouxera de Buenos Aires, e que pegara às pressas antes de sair de casa.
Enquanto se dirigia à biblioteca, indecisa ainda, ouviu de um rapaz que nunca antes havia visto:
- Está esfriando...
Mas que insulto! Quem ele achava que era? Sua mãe? E, além disso, ela tinha uma malha! Como ele não reparara que no meio daqueles três livros havia uma malha? Ela devia tê-lo mostrado. E o que raios ele tema ver com ela passar frio? E se ela não tivesse uma malha, no que esse comentário iria ajudar? Esse era o problema dessas faculdades de humanas... Fica todo o mundo querendo fazer contato, palpitando...
Entrou e saiu da biblioteca com a malha nos braços. Foi só ao entrar na sala de aula e sentar em uma cadeira bem no centro da segunda fileira que, enfim, agasalhou-se.
A sala ainda não estava cheia, e por isso deixou de reparar nos dois fios que pendiam das laterais da malha. Eles deviam ser amarados para trás, formando um laço nas costas. Mas, sem haver quem pudesse reparar na distração da moça, e com tantas preocupações pendentes em sua mente, deixou-se ficar por cerca de vinte minutos assim, mal vestida.
Enquanto esperava a chagada da professora, lia e relia nervosamente o trabalho para ser entregue na semana seguinte. Tão concentrada, que demorou em reparar na figura que se sentou à sua frente.
Era um menino, um rapaz, com um corte de cabelo definitivamente ruim. Talvez cortado por ele mesmo, ou por sua mãe. Devia ter 19 anos. Mas o cabelo era o de menos em seu visual. Ela demorou a acreditar no que os seus olhos viam. Uniforme. Sim, ele usava uniforme. Não de policial, não de oficial, tampouco de funcionário de alguma grande empresa. Ele usava o uniforme do colégio. Uniforme completo: calça de moletom azul marinho desbotada, malha de moletom azul marinho desbotada e, por baixo desta, podia se ver a gola da camiseta, listrada e com uma sigla de quatro letras, provavelmente a do colégio, certamente público.
Que gente esquisita para haver em uma faculdade da universidade mais bem reconhecida da cidade! Coitado do menino! Então não possuía dinheiro para comprar roupas novas. Talvez mesmo o uniforme fosse de segunda mão. Ou eram presentes, brindes!, dos colégios públicos?
Devia ser inteligente, o menino. Esforçado, no mínimo. Entrar nessa faculdade não era tão difícil assim, mas também de fácil não havia nada. E sentava-se na primeira fileira. Como ela, estava só. Lia alguma coisa, mas não conversava com ninguém. Por que? Ela ainda tinha um motivo. Era nova na turma. Mas isso era raro. Seria ele novo na turma? Não... Não parecia... Subjetivamente, digo, simplesmente não parecia.
Mas que roupinha, não? Será que havia mais exemplares do conjunto? Será que ele usava uniforme também para ir ao bar da esquina? Com certeza não voltaria para casa para se trocar... E, falando em casa, onde seria a sua? Teria uma?
A professora chegou. Ela levantou-se de um pulo. Queria tirar uma dúvida antes de a aula começar. Chegou tarde, duas meninas já haviam tomado para si a atenção da professora. Foi só enquanto aguardava, de pé, na frente de todos, que reparou nos fios ainda soltos da malha. Vexou-se. Corou. Olhou para um lado, olhou para o outro. Discretamente, fez o laço por trás, com uma expressão que dizia algo como nada. Algo como “esses meus gestos de me preocuparem com os fios são involuntários”.
Falou com a professora, sentou-se, olhou para o menino de uniforme, e pensou: “Talvez seja algum aluno de colégio público mesmo. Deve ser um programa. Para conhecer a universidade”. Conformou-se. Abriu o caderno, tateou as costas, suspirou aliviada.
Enquanto se dirigia à biblioteca, indecisa ainda, ouviu de um rapaz que nunca antes havia visto:
- Está esfriando...
Mas que insulto! Quem ele achava que era? Sua mãe? E, além disso, ela tinha uma malha! Como ele não reparara que no meio daqueles três livros havia uma malha? Ela devia tê-lo mostrado. E o que raios ele tema ver com ela passar frio? E se ela não tivesse uma malha, no que esse comentário iria ajudar? Esse era o problema dessas faculdades de humanas... Fica todo o mundo querendo fazer contato, palpitando...
Entrou e saiu da biblioteca com a malha nos braços. Foi só ao entrar na sala de aula e sentar em uma cadeira bem no centro da segunda fileira que, enfim, agasalhou-se.
A sala ainda não estava cheia, e por isso deixou de reparar nos dois fios que pendiam das laterais da malha. Eles deviam ser amarados para trás, formando um laço nas costas. Mas, sem haver quem pudesse reparar na distração da moça, e com tantas preocupações pendentes em sua mente, deixou-se ficar por cerca de vinte minutos assim, mal vestida.
Enquanto esperava a chagada da professora, lia e relia nervosamente o trabalho para ser entregue na semana seguinte. Tão concentrada, que demorou em reparar na figura que se sentou à sua frente.
Era um menino, um rapaz, com um corte de cabelo definitivamente ruim. Talvez cortado por ele mesmo, ou por sua mãe. Devia ter 19 anos. Mas o cabelo era o de menos em seu visual. Ela demorou a acreditar no que os seus olhos viam. Uniforme. Sim, ele usava uniforme. Não de policial, não de oficial, tampouco de funcionário de alguma grande empresa. Ele usava o uniforme do colégio. Uniforme completo: calça de moletom azul marinho desbotada, malha de moletom azul marinho desbotada e, por baixo desta, podia se ver a gola da camiseta, listrada e com uma sigla de quatro letras, provavelmente a do colégio, certamente público.
Que gente esquisita para haver em uma faculdade da universidade mais bem reconhecida da cidade! Coitado do menino! Então não possuía dinheiro para comprar roupas novas. Talvez mesmo o uniforme fosse de segunda mão. Ou eram presentes, brindes!, dos colégios públicos?
Devia ser inteligente, o menino. Esforçado, no mínimo. Entrar nessa faculdade não era tão difícil assim, mas também de fácil não havia nada. E sentava-se na primeira fileira. Como ela, estava só. Lia alguma coisa, mas não conversava com ninguém. Por que? Ela ainda tinha um motivo. Era nova na turma. Mas isso era raro. Seria ele novo na turma? Não... Não parecia... Subjetivamente, digo, simplesmente não parecia.
Mas que roupinha, não? Será que havia mais exemplares do conjunto? Será que ele usava uniforme também para ir ao bar da esquina? Com certeza não voltaria para casa para se trocar... E, falando em casa, onde seria a sua? Teria uma?
A professora chegou. Ela levantou-se de um pulo. Queria tirar uma dúvida antes de a aula começar. Chegou tarde, duas meninas já haviam tomado para si a atenção da professora. Foi só enquanto aguardava, de pé, na frente de todos, que reparou nos fios ainda soltos da malha. Vexou-se. Corou. Olhou para um lado, olhou para o outro. Discretamente, fez o laço por trás, com uma expressão que dizia algo como nada. Algo como “esses meus gestos de me preocuparem com os fios são involuntários”.
Falou com a professora, sentou-se, olhou para o menino de uniforme, e pensou: “Talvez seja algum aluno de colégio público mesmo. Deve ser um programa. Para conhecer a universidade”. Conformou-se. Abriu o caderno, tateou as costas, suspirou aliviada.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Como fazer o melhor sanduíche
1º) Pegue dois pães de sua preferência
2º) Acrescente manteiga
3º) Coloque três fatias de queijo
4º) Adicione duas fatias de presunto
Está faltando sabor?
5º) Inclua duas rodelas de tomate, temperadas com azeite e sal
Ainda não?
6º) Coloque uma fatia de mortadela
7º) Mostarda, maionese e ketchup a gosto.
Prove. Está faltando alguma coisa? Sim? Não? Mas não está tão gostoso, não é?
Então:
8º) Retire os molhos, a mortadela, o tomate, o presunto e o queijo.
Agora sim: experimente. Isso. Eu sei, é isso mesmo, só o pão com manteiga. Experimente!
Falta alguma coisa?
Pois é. Trata-se de uma máxima para toda a vida.
2º) Acrescente manteiga
3º) Coloque três fatias de queijo
4º) Adicione duas fatias de presunto
Está faltando sabor?
5º) Inclua duas rodelas de tomate, temperadas com azeite e sal
Ainda não?
6º) Coloque uma fatia de mortadela
7º) Mostarda, maionese e ketchup a gosto.
Prove. Está faltando alguma coisa? Sim? Não? Mas não está tão gostoso, não é?
Então:
8º) Retire os molhos, a mortadela, o tomate, o presunto e o queijo.
Agora sim: experimente. Isso. Eu sei, é isso mesmo, só o pão com manteiga. Experimente!
Falta alguma coisa?
Pois é. Trata-se de uma máxima para toda a vida.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Que Pirandello fale por mim*
Deixem-me dizer só mais uma coisa, e então termino.
Não quero ofendê-los - ou à sua consciência, como vocês dizem. Sei que não querem que ela seja posta em dúvida. Tinha esquecido, me desculpem. Mas reconheço, reconheço que, para si mesmos, dentro de si, vocês são tal como eu, de fora, os vejo. Não por má vontade. Gostaria que ao menos estivessem cnvencidos disso. Vocês se conhecem, se sentem, se apreciam de uma maneira que não é a minha, mas a sua; e ainda acreditam que o seu juízo final seja o correto, e o meu, falso. Deve ser, não nego. Mas a sua maneira pode ser a minha, e vice-versa?
Eis que voltamos ao princípio!
Posso crer em tudo o que me dizem. Acredito. Ofereço-lhes uma cadeira, vocês se sentam, e vamos tentar chegar a um acordo.
Depois de uma boa hora de conversa, nos entendemos perfeitamente.
Amanhã vocês retornam, com o dedo em riste, gritando:
- Como assim? O que você entendeu? Você não me disse isso e aquilo?
Isso e aquilo, perfeitamente. Mas o problema é que vocês, meus caros, nunca entendem; e eu nunca vou poder explicar-lhes como se traduz em mim aquilo qu evocês me dizem. Sei que vocês não falam turco, sei disso. Usamos, eu e vocês, a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos, eu e vocês, se as palavras, em si, são vazias? Vazias, meus caros. E vocês as preenchem com o seu sentido, ao dizê-las a mim; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente as preencho com o meu sentido. Pensamos que nos entendemos, mas não nos entendemos de modo nenhum.
Ah, isso também é uma velha história, todo mundo sabe. E eu não pretendo dizer nada novo. Apenas volto a perguntar-lhes:
- Mas por que então, santo Deus, vocês continuam a fazer como se não soubessem disso? Por que insitem em falar de vocês, se sabem que, para serem para mim aquilo que são para si mesmos, e eu a vocês tal como sou para mim mesmo, seria preciso que eu, dentro de mim, lhes conferisse aquela mesma realidade que vocês conferem a si, e vice-versa. E isso é possível?
Infelizmente, meus caros, por mais que vocês façam, sempre me darão uma realidade a seu modo, mesmo crendo de boa-fé que seja a meu modo. E talvez seja, não digo que não, quem sabe; mas a um "meu modo" que eu desconheço e que jamais poderia conhecer, o qual somente vocês, que me vêem de fora, reconheceriam: portanto, um "meu modo" a seu uso, não um "meu modo" para mim.
Houvesse fora de nós, externa a vocês e a mim, uma senhora realidade minha e uma senhora realidade sua, digo, em si mesma, igual e imutável! Mas não há. Há em mim e para mim uma realidade minha, aquela que eu me dou; e uma realidade sua e de vocês, para vocês, aquela que vocês se dão - as quais nunca serão as mesmas, nem para vocês nem para mim.
E agora?
Agora, meus amigos, é preciso nos consolarmos com isto: que a minha realidade não é mais verdadeira que a sua, e que tanto a minha quanto a sua duram um só momento.
Sua cabeça está girando um pouco? Então... então concluamos.
*Trecho do livro Um, nenhum e cem mil. Tradução de Maurício Santana Dias
Não quero ofendê-los - ou à sua consciência, como vocês dizem. Sei que não querem que ela seja posta em dúvida. Tinha esquecido, me desculpem. Mas reconheço, reconheço que, para si mesmos, dentro de si, vocês são tal como eu, de fora, os vejo. Não por má vontade. Gostaria que ao menos estivessem cnvencidos disso. Vocês se conhecem, se sentem, se apreciam de uma maneira que não é a minha, mas a sua; e ainda acreditam que o seu juízo final seja o correto, e o meu, falso. Deve ser, não nego. Mas a sua maneira pode ser a minha, e vice-versa?
Eis que voltamos ao princípio!
Posso crer em tudo o que me dizem. Acredito. Ofereço-lhes uma cadeira, vocês se sentam, e vamos tentar chegar a um acordo.
Depois de uma boa hora de conversa, nos entendemos perfeitamente.
Amanhã vocês retornam, com o dedo em riste, gritando:
- Como assim? O que você entendeu? Você não me disse isso e aquilo?
Isso e aquilo, perfeitamente. Mas o problema é que vocês, meus caros, nunca entendem; e eu nunca vou poder explicar-lhes como se traduz em mim aquilo qu evocês me dizem. Sei que vocês não falam turco, sei disso. Usamos, eu e vocês, a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos, eu e vocês, se as palavras, em si, são vazias? Vazias, meus caros. E vocês as preenchem com o seu sentido, ao dizê-las a mim; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente as preencho com o meu sentido. Pensamos que nos entendemos, mas não nos entendemos de modo nenhum.
Ah, isso também é uma velha história, todo mundo sabe. E eu não pretendo dizer nada novo. Apenas volto a perguntar-lhes:
- Mas por que então, santo Deus, vocês continuam a fazer como se não soubessem disso? Por que insitem em falar de vocês, se sabem que, para serem para mim aquilo que são para si mesmos, e eu a vocês tal como sou para mim mesmo, seria preciso que eu, dentro de mim, lhes conferisse aquela mesma realidade que vocês conferem a si, e vice-versa. E isso é possível?
Infelizmente, meus caros, por mais que vocês façam, sempre me darão uma realidade a seu modo, mesmo crendo de boa-fé que seja a meu modo. E talvez seja, não digo que não, quem sabe; mas a um "meu modo" que eu desconheço e que jamais poderia conhecer, o qual somente vocês, que me vêem de fora, reconheceriam: portanto, um "meu modo" a seu uso, não um "meu modo" para mim.
Houvesse fora de nós, externa a vocês e a mim, uma senhora realidade minha e uma senhora realidade sua, digo, em si mesma, igual e imutável! Mas não há. Há em mim e para mim uma realidade minha, aquela que eu me dou; e uma realidade sua e de vocês, para vocês, aquela que vocês se dão - as quais nunca serão as mesmas, nem para vocês nem para mim.
E agora?
Agora, meus amigos, é preciso nos consolarmos com isto: que a minha realidade não é mais verdadeira que a sua, e que tanto a minha quanto a sua duram um só momento.
Sua cabeça está girando um pouco? Então... então concluamos.
*Trecho do livro Um, nenhum e cem mil. Tradução de Maurício Santana Dias
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
O lado introspectivo de Maria
Maria sempre teve momento e inflexão, de filosofia, de querer ficar sozinha.
Às vezes, rodeada de gente, ela se fechava, se afastava, não fisicamente, mas no pensamento. As pessoas achavam até engraçado. “A Maria é meio autista”, diziam. “Ela é perdida...”
“Os virginianos costumam se fechar em suas mentes, e se desligam de tudo o que está ocorrendo em volta. Por isso, às vezes dão a impressão de serem autistas”, Maria leu em um livro de signos.
A mãe de Maria sempre diz “Para mim, antes mal acompanhada do que só”. Maria não podia discordar mais. Às vezes, pensava, antes só do que bem acompanhada.
Aí, de repente, recentemente, vai saber porquê, Maria mudou. Passou a sofrer de uma certa carência social. Não queria mais ficar sozinha nunca. Depois da aula, ir para casa e se afastar dos amigos parecia uma tortura, e ficar sozinha em casa no fim de semana não era mais uma possibilidade e, se inevitável, parecia-lhe o fim do mundo. Sentia um vazio estranho...
Podia ser amor pelos amigos, mas ela sempre amara os amigos e isso não acontecia. Podia ser que esses amigos fossem diferentes. Também podia ser a estação fria e a conseqüente necessidade de calor humano, mas Maria já havia passado antes por muitos invernos! Podia ser vontade de que gostassem mais dela, mas isso também sempre foi algo inerente à menina.
O mais interessante é que essa carência social pegou Maria de um jeito que fez com que ela pensasse muito sobre isso, se preocupasse com isso, indagasse o porquê disso. E, na verdade, isso não era importante, era?
Racionalmente, tanto faz as causas! Não era uma coisa que deveria incomodá-la,a menos que ela não tivesse com quem saciar a carência, o que não era o caso. Seria vontade de aproveitar a vida? Ou incapacidade e falta de vontade de suportar a si mesma? Ou, de repente, todas essa reflexões e indagações eram apenas uma forma de o lado introspectivo de Maria, tão silencioso, poder se manifestar.
De fato, foi só essa fase de carência social passar, para que Maria voltasse a ser “autista”. Hoje, ela voltou a ficar feliz em passar o sábado vendo televisão e comendo pizza. E quer saber? Ela está muito melhor assim...
Às vezes, rodeada de gente, ela se fechava, se afastava, não fisicamente, mas no pensamento. As pessoas achavam até engraçado. “A Maria é meio autista”, diziam. “Ela é perdida...”
“Os virginianos costumam se fechar em suas mentes, e se desligam de tudo o que está ocorrendo em volta. Por isso, às vezes dão a impressão de serem autistas”, Maria leu em um livro de signos.
A mãe de Maria sempre diz “Para mim, antes mal acompanhada do que só”. Maria não podia discordar mais. Às vezes, pensava, antes só do que bem acompanhada.
Aí, de repente, recentemente, vai saber porquê, Maria mudou. Passou a sofrer de uma certa carência social. Não queria mais ficar sozinha nunca. Depois da aula, ir para casa e se afastar dos amigos parecia uma tortura, e ficar sozinha em casa no fim de semana não era mais uma possibilidade e, se inevitável, parecia-lhe o fim do mundo. Sentia um vazio estranho...
Podia ser amor pelos amigos, mas ela sempre amara os amigos e isso não acontecia. Podia ser que esses amigos fossem diferentes. Também podia ser a estação fria e a conseqüente necessidade de calor humano, mas Maria já havia passado antes por muitos invernos! Podia ser vontade de que gostassem mais dela, mas isso também sempre foi algo inerente à menina.
O mais interessante é que essa carência social pegou Maria de um jeito que fez com que ela pensasse muito sobre isso, se preocupasse com isso, indagasse o porquê disso. E, na verdade, isso não era importante, era?
Racionalmente, tanto faz as causas! Não era uma coisa que deveria incomodá-la,a menos que ela não tivesse com quem saciar a carência, o que não era o caso. Seria vontade de aproveitar a vida? Ou incapacidade e falta de vontade de suportar a si mesma? Ou, de repente, todas essa reflexões e indagações eram apenas uma forma de o lado introspectivo de Maria, tão silencioso, poder se manifestar.
De fato, foi só essa fase de carência social passar, para que Maria voltasse a ser “autista”. Hoje, ela voltou a ficar feliz em passar o sábado vendo televisão e comendo pizza. E quer saber? Ela está muito melhor assim...
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
O prazer de ser palhaço
É impressionante como as pessoas se sujeitam cada vez mais a serem palhaças. (Uso no sentido pejorativo: sem ofensas, artistas palhaços!) Não digo nem no sentido de pagar imposto como nunca, de gastar 50 reais pra comer um hambúrguer que vale 10. To falando de circo mesmo.
Fiquei inspirada, como fico todas as quartas-feiras, depois da minha “aula” de ética. Porque esse professor sempre pede para os alunos dizerem o que eles pensam de algum assunto complexo, e eles têm que escrever em uma linha um pensamento que não se esgotaria nem em cinqüenta páginas. É meio que um jogo da sorte, porque se você tiver uma boa idéia, mas o professor não conseguir entender toda a complexidade do seu pensamento durante os 5 segundos que ele gasta para ler sua uma linha (who can blame him?), ele vai ler sua resposta em voz alta para toda a sala em um tom jocoso. E aí toda a sala vai rir de você. E você mesmo ri de você, porque, se não, descobrem que você é que escreveu isso. O resultado é que os próprios alunos alimentam esse circo, em que eles é que são os palhaços. E muitas vezes a frase é de fato muito boa. Se o professor gastasse uns 5 minutos ao menos...
Aí que eu me lembrei de um show da Xuxa que vi uma vez. Uma menina queria ganhar dinheiro, e ela podia ganhar algo como 5 mil reais. Como? Nada mais óbvio: ela tinha um tempo x (acho que dois minutos) para colocar umas 20 galinhas dentro de gaiolas. E não parava por aí. Como era uma superprodução, vestiram a coitada da menina com um macacão jeans, e ela ficava, dentro de uma gaiola gigante, correndo de um lado pra outro, feito tonta, caçando galinhas.
Quando o tempo acabou, ela estava com a última galinha na mão. E perdeu. Todo o auditório gritou “ela merece”. Eu, em casa, até chorei. Mas a menina ficou mesmo sem dinheiro. Hoje, me odeio por ter dado ibope a isso. Mas também não sei dizer com certeza se estava assistindo àquilo porque torcia pela menina pobre ou se porque estava divertido assistir à palhaçada.
Eu poderia dar inúmeros exemplos de situações como essa. Por isso ainda pretendo um dia fazer uma pesquisa sobre esses programas “pseudo-caridosos” que enganam tão bem o público. Talvez meu professor possa me ajudar. Gostaria de saber como ele consegue fazer com que alunos inteligentes dêem nota 9 às suas aulas ridículas, em que, tudo o que ele faz, é ler um texto genial que a gente já deveria ter lido em casa. E ai de quem fizer uma pergunta profunda sobre a obra: quando ele não sabe o que responder, fica bravinho, e consegue – de fato, é um gênio – fazer com que a pergunta inteligente pareça a mais ridícula já feita.
Fiquei inspirada, como fico todas as quartas-feiras, depois da minha “aula” de ética. Porque esse professor sempre pede para os alunos dizerem o que eles pensam de algum assunto complexo, e eles têm que escrever em uma linha um pensamento que não se esgotaria nem em cinqüenta páginas. É meio que um jogo da sorte, porque se você tiver uma boa idéia, mas o professor não conseguir entender toda a complexidade do seu pensamento durante os 5 segundos que ele gasta para ler sua uma linha (who can blame him?), ele vai ler sua resposta em voz alta para toda a sala em um tom jocoso. E aí toda a sala vai rir de você. E você mesmo ri de você, porque, se não, descobrem que você é que escreveu isso. O resultado é que os próprios alunos alimentam esse circo, em que eles é que são os palhaços. E muitas vezes a frase é de fato muito boa. Se o professor gastasse uns 5 minutos ao menos...
Aí que eu me lembrei de um show da Xuxa que vi uma vez. Uma menina queria ganhar dinheiro, e ela podia ganhar algo como 5 mil reais. Como? Nada mais óbvio: ela tinha um tempo x (acho que dois minutos) para colocar umas 20 galinhas dentro de gaiolas. E não parava por aí. Como era uma superprodução, vestiram a coitada da menina com um macacão jeans, e ela ficava, dentro de uma gaiola gigante, correndo de um lado pra outro, feito tonta, caçando galinhas.
Quando o tempo acabou, ela estava com a última galinha na mão. E perdeu. Todo o auditório gritou “ela merece”. Eu, em casa, até chorei. Mas a menina ficou mesmo sem dinheiro. Hoje, me odeio por ter dado ibope a isso. Mas também não sei dizer com certeza se estava assistindo àquilo porque torcia pela menina pobre ou se porque estava divertido assistir à palhaçada.
Eu poderia dar inúmeros exemplos de situações como essa. Por isso ainda pretendo um dia fazer uma pesquisa sobre esses programas “pseudo-caridosos” que enganam tão bem o público. Talvez meu professor possa me ajudar. Gostaria de saber como ele consegue fazer com que alunos inteligentes dêem nota 9 às suas aulas ridículas, em que, tudo o que ele faz, é ler um texto genial que a gente já deveria ter lido em casa. E ai de quem fizer uma pergunta profunda sobre a obra: quando ele não sabe o que responder, fica bravinho, e consegue – de fato, é um gênio – fazer com que a pergunta inteligente pareça a mais ridícula já feita.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Assalto moderno
- Oi, senhora, espero não está-la incomodando, mas assim... Se não for muito incômodo... se tudo bem pela senhora... É que... na verdade eu nem gostaria de estar fazendo isso, mas é que eu não tenho muito o que fazer mesmo. To perdido nessa vida, mal tenho o que comer, onde dormir... Se a senhora soubesse há quanto tempo eu não bebo uma água limpa... Então, por isso senhora. É... como eu posso dizer? Eu vejo que a senhora parece ser uma boa pessoa. O seu carro não é importado, e parece que nem ar-condicionado tem. Também reparei nas moedinhas que a senhora deixa separado... Imagino que faça caridades e essas coisas. Mas então, senhora, como eu ia dizendo, me desculpe mesmo, eu não gostaria de incomodá-la, mas, de boa, me passa a carteira e o celular se não vou ter que, infelizmente, usar a violência.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Bandidos dinamitam delegacia
- Bom dia.
- Não tem nada de bom.
- É. Eu sei. As paredes estouradas, os inquéritos que sumiram...
- E vai ficar todo mundo espremido nessa sala, porque parece que as outras podem desabar a qualquer momento.
- E pra gente viajar? Não sobrou nada?
- Nada. Vai ser o pior dia do ano.
- Nem mesmo um saquinho? Uma carreirinha?
- Nada. Levaram tudo. Até a caixinha que eu deixo na gaveta, sabe? Com os cigarros já boladinhos... Até isso eles levaram.
- Egoístas.
- Nem me fale. Pô, a gente sempre segura um pouco a barra deles, deixa eles fumarem um mesmo atrás das grades... E a única coisa que os caras deixam é uma espingarda. Onde já se viu? Esquecer uma arma e lembrar até da minha caixinha de cigarros...
- Bom, pensa positivo: com a quantidade de gente que ta vindo pra cá, pra investigar a história, é bom mesmo que não tenha sobrado nada.
- Olha, amigo, honestamente: sem minha carreirinha das 9 horas, não tem pensamento positivo, não...
- Não tem nada de bom.
- É. Eu sei. As paredes estouradas, os inquéritos que sumiram...
- E vai ficar todo mundo espremido nessa sala, porque parece que as outras podem desabar a qualquer momento.
- E pra gente viajar? Não sobrou nada?
- Nada. Vai ser o pior dia do ano.
- Nem mesmo um saquinho? Uma carreirinha?
- Nada. Levaram tudo. Até a caixinha que eu deixo na gaveta, sabe? Com os cigarros já boladinhos... Até isso eles levaram.
- Egoístas.
- Nem me fale. Pô, a gente sempre segura um pouco a barra deles, deixa eles fumarem um mesmo atrás das grades... E a única coisa que os caras deixam é uma espingarda. Onde já se viu? Esquecer uma arma e lembrar até da minha caixinha de cigarros...
- Bom, pensa positivo: com a quantidade de gente que ta vindo pra cá, pra investigar a história, é bom mesmo que não tenha sobrado nada.
- Olha, amigo, honestamente: sem minha carreirinha das 9 horas, não tem pensamento positivo, não...