Acordei e me perguntei se deveria mesmo acordar. Me perguntei. A pergunta foi dirigida a mim. Mas um livro na estante respondeu:
- O que você quer dizer com “deve acordar”?
Achei que, vinda de um livro, a pergunta era um tanto... estúpida. Respondi:
- Quero dizer se devo me levantar ou não.
- Como assim, “deve”? Você tem alguma obrigação em levantar?
Então percebi que a pergunta era um pouco mais profunda do que eu havia pensado, e, neste momento, já me vi entrando em uma profunda discussão sobre os meus deveres.
- Não é que eu tenha obrigação em acordar. Mas tenho outras obrigações, que só conseguirei cumprir se acordar.
- Bom, mas aí a resposta à sua pergunta é bastante óbvia. É evidente que deve acordar.
- Pois então. O que coloco em questão é se é mesmo necessário que eu acorde agora para cumprir com essas obrigações ou se posso dormir mais uma hora, por exemplo.
- E qual é a resposta?
- A resposta é que sim, é possível que eu cumpra com os meus deveres se acordar daqui a uma hora.
- Pronto.
- Não. Na verdade não está pronto. Você é um livro de matemática não é?
- Sou.
- Sabia. Está tudo muito lógico por aqui.
- Lógico.
- O livro ao seu lado é qual?
- Mrs Dalloway
- Perfeito! Você pode fazer o favor de chamá-lo à discussão?
- Não vejo motivo para fazê-lo, mas por que não? Um momento.
- Pois não?
- Livro Mrs Dalloway?
- Eu...
- Essa menina quer bater um papo com você.
- Ãhn? Fala.
- Oi, bom dia. É que assim. Eu tava pensando se preciso levantar agora ou se posso dormir um pouco mais. Porque eu consigo cumprir com as minhas obrigações de hoje dormindo mais, mas ao mesmo tempo eu já dormi dez horas!
- E o que é que tem isso?
- Dez horas é muita coisa pra uma menina da minha idade conseguir dormir hoje em dia. Na maioria dos casos as pessoas não conseguem dormir nem oito!
- Mas se você pode...
- Então acha que devo dormir mais?
- Não sei... Precisaria refletir mais sobre isso. Não existem outros motivos que fariam você ter que acordar? Não sei... de repente, se você acordar agora gasta mais calorias...
- Acho que isso não faz muita diferença. Eu até precisaria arrumar o meu armário, limpar as fotos do computador... Mas acho que se eu levantar agora, não vou querer fazer nada disso.
- Aí já é outra questão, não é, livro de matemática?
- Exato. Aí você não deve pensar se deve acordar agora ou não, mas se deve arrumar o seu armário ou não.
- Está vendo? Você está focando na questão errada.
- Ela estava fazendo isso desde o começo.
- Ah... quer saber? Bom dia para vocês. Estou indo para a sala ver televisão.
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segunda-feira, 24 de novembro de 2008
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Uniforme
Era verão, mas a temperatura obrigava os estudantes a vestirem seus casacos. Recém saída do carro, ela ainda estava em dúvida se precisaria ou não colocar a malha azul que sua mãe trouxera de Buenos Aires, e que pegara às pressas antes de sair de casa.
Enquanto se dirigia à biblioteca, indecisa ainda, ouviu de um rapaz que nunca antes havia visto:
- Está esfriando...
Mas que insulto! Quem ele achava que era? Sua mãe? E, além disso, ela tinha uma malha! Como ele não reparara que no meio daqueles três livros havia uma malha? Ela devia tê-lo mostrado. E o que raios ele tema ver com ela passar frio? E se ela não tivesse uma malha, no que esse comentário iria ajudar? Esse era o problema dessas faculdades de humanas... Fica todo o mundo querendo fazer contato, palpitando...
Entrou e saiu da biblioteca com a malha nos braços. Foi só ao entrar na sala de aula e sentar em uma cadeira bem no centro da segunda fileira que, enfim, agasalhou-se.
A sala ainda não estava cheia, e por isso deixou de reparar nos dois fios que pendiam das laterais da malha. Eles deviam ser amarados para trás, formando um laço nas costas. Mas, sem haver quem pudesse reparar na distração da moça, e com tantas preocupações pendentes em sua mente, deixou-se ficar por cerca de vinte minutos assim, mal vestida.
Enquanto esperava a chagada da professora, lia e relia nervosamente o trabalho para ser entregue na semana seguinte. Tão concentrada, que demorou em reparar na figura que se sentou à sua frente.
Era um menino, um rapaz, com um corte de cabelo definitivamente ruim. Talvez cortado por ele mesmo, ou por sua mãe. Devia ter 19 anos. Mas o cabelo era o de menos em seu visual. Ela demorou a acreditar no que os seus olhos viam. Uniforme. Sim, ele usava uniforme. Não de policial, não de oficial, tampouco de funcionário de alguma grande empresa. Ele usava o uniforme do colégio. Uniforme completo: calça de moletom azul marinho desbotada, malha de moletom azul marinho desbotada e, por baixo desta, podia se ver a gola da camiseta, listrada e com uma sigla de quatro letras, provavelmente a do colégio, certamente público.
Que gente esquisita para haver em uma faculdade da universidade mais bem reconhecida da cidade! Coitado do menino! Então não possuía dinheiro para comprar roupas novas. Talvez mesmo o uniforme fosse de segunda mão. Ou eram presentes, brindes!, dos colégios públicos?
Devia ser inteligente, o menino. Esforçado, no mínimo. Entrar nessa faculdade não era tão difícil assim, mas também de fácil não havia nada. E sentava-se na primeira fileira. Como ela, estava só. Lia alguma coisa, mas não conversava com ninguém. Por que? Ela ainda tinha um motivo. Era nova na turma. Mas isso era raro. Seria ele novo na turma? Não... Não parecia... Subjetivamente, digo, simplesmente não parecia.
Mas que roupinha, não? Será que havia mais exemplares do conjunto? Será que ele usava uniforme também para ir ao bar da esquina? Com certeza não voltaria para casa para se trocar... E, falando em casa, onde seria a sua? Teria uma?
A professora chegou. Ela levantou-se de um pulo. Queria tirar uma dúvida antes de a aula começar. Chegou tarde, duas meninas já haviam tomado para si a atenção da professora. Foi só enquanto aguardava, de pé, na frente de todos, que reparou nos fios ainda soltos da malha. Vexou-se. Corou. Olhou para um lado, olhou para o outro. Discretamente, fez o laço por trás, com uma expressão que dizia algo como nada. Algo como “esses meus gestos de me preocuparem com os fios são involuntários”.
Falou com a professora, sentou-se, olhou para o menino de uniforme, e pensou: “Talvez seja algum aluno de colégio público mesmo. Deve ser um programa. Para conhecer a universidade”. Conformou-se. Abriu o caderno, tateou as costas, suspirou aliviada.
Enquanto se dirigia à biblioteca, indecisa ainda, ouviu de um rapaz que nunca antes havia visto:
- Está esfriando...
Mas que insulto! Quem ele achava que era? Sua mãe? E, além disso, ela tinha uma malha! Como ele não reparara que no meio daqueles três livros havia uma malha? Ela devia tê-lo mostrado. E o que raios ele tema ver com ela passar frio? E se ela não tivesse uma malha, no que esse comentário iria ajudar? Esse era o problema dessas faculdades de humanas... Fica todo o mundo querendo fazer contato, palpitando...
Entrou e saiu da biblioteca com a malha nos braços. Foi só ao entrar na sala de aula e sentar em uma cadeira bem no centro da segunda fileira que, enfim, agasalhou-se.
A sala ainda não estava cheia, e por isso deixou de reparar nos dois fios que pendiam das laterais da malha. Eles deviam ser amarados para trás, formando um laço nas costas. Mas, sem haver quem pudesse reparar na distração da moça, e com tantas preocupações pendentes em sua mente, deixou-se ficar por cerca de vinte minutos assim, mal vestida.
Enquanto esperava a chagada da professora, lia e relia nervosamente o trabalho para ser entregue na semana seguinte. Tão concentrada, que demorou em reparar na figura que se sentou à sua frente.
Era um menino, um rapaz, com um corte de cabelo definitivamente ruim. Talvez cortado por ele mesmo, ou por sua mãe. Devia ter 19 anos. Mas o cabelo era o de menos em seu visual. Ela demorou a acreditar no que os seus olhos viam. Uniforme. Sim, ele usava uniforme. Não de policial, não de oficial, tampouco de funcionário de alguma grande empresa. Ele usava o uniforme do colégio. Uniforme completo: calça de moletom azul marinho desbotada, malha de moletom azul marinho desbotada e, por baixo desta, podia se ver a gola da camiseta, listrada e com uma sigla de quatro letras, provavelmente a do colégio, certamente público.
Que gente esquisita para haver em uma faculdade da universidade mais bem reconhecida da cidade! Coitado do menino! Então não possuía dinheiro para comprar roupas novas. Talvez mesmo o uniforme fosse de segunda mão. Ou eram presentes, brindes!, dos colégios públicos?
Devia ser inteligente, o menino. Esforçado, no mínimo. Entrar nessa faculdade não era tão difícil assim, mas também de fácil não havia nada. E sentava-se na primeira fileira. Como ela, estava só. Lia alguma coisa, mas não conversava com ninguém. Por que? Ela ainda tinha um motivo. Era nova na turma. Mas isso era raro. Seria ele novo na turma? Não... Não parecia... Subjetivamente, digo, simplesmente não parecia.
Mas que roupinha, não? Será que havia mais exemplares do conjunto? Será que ele usava uniforme também para ir ao bar da esquina? Com certeza não voltaria para casa para se trocar... E, falando em casa, onde seria a sua? Teria uma?
A professora chegou. Ela levantou-se de um pulo. Queria tirar uma dúvida antes de a aula começar. Chegou tarde, duas meninas já haviam tomado para si a atenção da professora. Foi só enquanto aguardava, de pé, na frente de todos, que reparou nos fios ainda soltos da malha. Vexou-se. Corou. Olhou para um lado, olhou para o outro. Discretamente, fez o laço por trás, com uma expressão que dizia algo como nada. Algo como “esses meus gestos de me preocuparem com os fios são involuntários”.
Falou com a professora, sentou-se, olhou para o menino de uniforme, e pensou: “Talvez seja algum aluno de colégio público mesmo. Deve ser um programa. Para conhecer a universidade”. Conformou-se. Abriu o caderno, tateou as costas, suspirou aliviada.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Como fazer o melhor sanduíche
1º) Pegue dois pães de sua preferência
2º) Acrescente manteiga
3º) Coloque três fatias de queijo
4º) Adicione duas fatias de presunto
Está faltando sabor?
5º) Inclua duas rodelas de tomate, temperadas com azeite e sal
Ainda não?
6º) Coloque uma fatia de mortadela
7º) Mostarda, maionese e ketchup a gosto.
Prove. Está faltando alguma coisa? Sim? Não? Mas não está tão gostoso, não é?
Então:
8º) Retire os molhos, a mortadela, o tomate, o presunto e o queijo.
Agora sim: experimente. Isso. Eu sei, é isso mesmo, só o pão com manteiga. Experimente!
Falta alguma coisa?
Pois é. Trata-se de uma máxima para toda a vida.
2º) Acrescente manteiga
3º) Coloque três fatias de queijo
4º) Adicione duas fatias de presunto
Está faltando sabor?
5º) Inclua duas rodelas de tomate, temperadas com azeite e sal
Ainda não?
6º) Coloque uma fatia de mortadela
7º) Mostarda, maionese e ketchup a gosto.
Prove. Está faltando alguma coisa? Sim? Não? Mas não está tão gostoso, não é?
Então:
8º) Retire os molhos, a mortadela, o tomate, o presunto e o queijo.
Agora sim: experimente. Isso. Eu sei, é isso mesmo, só o pão com manteiga. Experimente!
Falta alguma coisa?
Pois é. Trata-se de uma máxima para toda a vida.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
O lado introspectivo de Maria
Maria sempre teve momento e inflexão, de filosofia, de querer ficar sozinha.
Às vezes, rodeada de gente, ela se fechava, se afastava, não fisicamente, mas no pensamento. As pessoas achavam até engraçado. “A Maria é meio autista”, diziam. “Ela é perdida...”
“Os virginianos costumam se fechar em suas mentes, e se desligam de tudo o que está ocorrendo em volta. Por isso, às vezes dão a impressão de serem autistas”, Maria leu em um livro de signos.
A mãe de Maria sempre diz “Para mim, antes mal acompanhada do que só”. Maria não podia discordar mais. Às vezes, pensava, antes só do que bem acompanhada.
Aí, de repente, recentemente, vai saber porquê, Maria mudou. Passou a sofrer de uma certa carência social. Não queria mais ficar sozinha nunca. Depois da aula, ir para casa e se afastar dos amigos parecia uma tortura, e ficar sozinha em casa no fim de semana não era mais uma possibilidade e, se inevitável, parecia-lhe o fim do mundo. Sentia um vazio estranho...
Podia ser amor pelos amigos, mas ela sempre amara os amigos e isso não acontecia. Podia ser que esses amigos fossem diferentes. Também podia ser a estação fria e a conseqüente necessidade de calor humano, mas Maria já havia passado antes por muitos invernos! Podia ser vontade de que gostassem mais dela, mas isso também sempre foi algo inerente à menina.
O mais interessante é que essa carência social pegou Maria de um jeito que fez com que ela pensasse muito sobre isso, se preocupasse com isso, indagasse o porquê disso. E, na verdade, isso não era importante, era?
Racionalmente, tanto faz as causas! Não era uma coisa que deveria incomodá-la,a menos que ela não tivesse com quem saciar a carência, o que não era o caso. Seria vontade de aproveitar a vida? Ou incapacidade e falta de vontade de suportar a si mesma? Ou, de repente, todas essa reflexões e indagações eram apenas uma forma de o lado introspectivo de Maria, tão silencioso, poder se manifestar.
De fato, foi só essa fase de carência social passar, para que Maria voltasse a ser “autista”. Hoje, ela voltou a ficar feliz em passar o sábado vendo televisão e comendo pizza. E quer saber? Ela está muito melhor assim...
Às vezes, rodeada de gente, ela se fechava, se afastava, não fisicamente, mas no pensamento. As pessoas achavam até engraçado. “A Maria é meio autista”, diziam. “Ela é perdida...”
“Os virginianos costumam se fechar em suas mentes, e se desligam de tudo o que está ocorrendo em volta. Por isso, às vezes dão a impressão de serem autistas”, Maria leu em um livro de signos.
A mãe de Maria sempre diz “Para mim, antes mal acompanhada do que só”. Maria não podia discordar mais. Às vezes, pensava, antes só do que bem acompanhada.
Aí, de repente, recentemente, vai saber porquê, Maria mudou. Passou a sofrer de uma certa carência social. Não queria mais ficar sozinha nunca. Depois da aula, ir para casa e se afastar dos amigos parecia uma tortura, e ficar sozinha em casa no fim de semana não era mais uma possibilidade e, se inevitável, parecia-lhe o fim do mundo. Sentia um vazio estranho...
Podia ser amor pelos amigos, mas ela sempre amara os amigos e isso não acontecia. Podia ser que esses amigos fossem diferentes. Também podia ser a estação fria e a conseqüente necessidade de calor humano, mas Maria já havia passado antes por muitos invernos! Podia ser vontade de que gostassem mais dela, mas isso também sempre foi algo inerente à menina.
O mais interessante é que essa carência social pegou Maria de um jeito que fez com que ela pensasse muito sobre isso, se preocupasse com isso, indagasse o porquê disso. E, na verdade, isso não era importante, era?
Racionalmente, tanto faz as causas! Não era uma coisa que deveria incomodá-la,a menos que ela não tivesse com quem saciar a carência, o que não era o caso. Seria vontade de aproveitar a vida? Ou incapacidade e falta de vontade de suportar a si mesma? Ou, de repente, todas essa reflexões e indagações eram apenas uma forma de o lado introspectivo de Maria, tão silencioso, poder se manifestar.
De fato, foi só essa fase de carência social passar, para que Maria voltasse a ser “autista”. Hoje, ela voltou a ficar feliz em passar o sábado vendo televisão e comendo pizza. E quer saber? Ela está muito melhor assim...
terça-feira, 28 de outubro de 2008
70ºC
- Esquentou, né?
- E como!
- Metade da minha família já morreu nessa brincadeira.
- Até que eles resistiram bem. Quanto? 50?
- 65.
- Pô, mas 65 graus é pra caramba! E só metade! Da minha, só restou eu.
- Só você?
- É, mas eles não resistiram nem os 45. Já me consolei.
- Eu ainda to meio abatido... Faz pouco tempo... Quero saber até quando eu vou resistir.
- Olha, tenho pra mim que quem chegou aos 70 graus fica vivo. Assim espero.
- Eu não espero não. No fim das contas acho que ta na hora da gente ir embora mesmo. O homem.
- Acho que o homem não vai embora, não. Tem criança nascendo até.
- Nascendo e morrendo.
- Não, tem criança viva e sem aparelho. Saiu hoje no jornal, você não leu? É a evolução, meu amigo. O homem agora resiste bem ao calor. E dizem por aí que daqui uns anos nem de água precisaremos.
- Acho que prefiro morrer.
- Eu não! Com esse tanto de gente que morreu, da até pra tentar começar de novo. Eu penso como se isso fosse um dilúvio, sabe?
- Sei. E nós somos exemplos de boas pessoas? Por que resistimos ao calor? Ah, sim, claro...
- Pelo menos tem emprego pra todo o mundo.
- Preferia estar desempregado e ter minha família comigo.
- Acho que você ainda está muito abalado.
- Sim, estou. E com cada vez mais calor.
- Calor? Sabe que até já sinto um pouco de frio?
- Faz sentido.
- E como!
- Metade da minha família já morreu nessa brincadeira.
- Até que eles resistiram bem. Quanto? 50?
- 65.
- Pô, mas 65 graus é pra caramba! E só metade! Da minha, só restou eu.
- Só você?
- É, mas eles não resistiram nem os 45. Já me consolei.
- Eu ainda to meio abatido... Faz pouco tempo... Quero saber até quando eu vou resistir.
- Olha, tenho pra mim que quem chegou aos 70 graus fica vivo. Assim espero.
- Eu não espero não. No fim das contas acho que ta na hora da gente ir embora mesmo. O homem.
- Acho que o homem não vai embora, não. Tem criança nascendo até.
- Nascendo e morrendo.
- Não, tem criança viva e sem aparelho. Saiu hoje no jornal, você não leu? É a evolução, meu amigo. O homem agora resiste bem ao calor. E dizem por aí que daqui uns anos nem de água precisaremos.
- Acho que prefiro morrer.
- Eu não! Com esse tanto de gente que morreu, da até pra tentar começar de novo. Eu penso como se isso fosse um dilúvio, sabe?
- Sei. E nós somos exemplos de boas pessoas? Por que resistimos ao calor? Ah, sim, claro...
- Pelo menos tem emprego pra todo o mundo.
- Preferia estar desempregado e ter minha família comigo.
- Acho que você ainda está muito abalado.
- Sim, estou. E com cada vez mais calor.
- Calor? Sabe que até já sinto um pouco de frio?
- Faz sentido.
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Vontade de salvar vida
Apesar do calor de 30ºC, a piscina do prédio estava vazia pela manhã daquele sábado.
Sara aproveitou que já havia adiantado todo o dever de casa da segunda-feira – duas páginas de exercícios de enormes equações –, e foi para a piscina. Não sem antes convidar seu irmão mais novo.
- Biel, vamos na piscina comigo! Vem, agora!
Colocou a sunga no irmão de 4 anos, pôs biquíni, pegou bola, bóia e toalha, e desceu.
Biel queria brincar com a bola. Sara colocou nele as bóias de braço, já que as pequeninas pernas ainda não alcançavam o chão. A menina preferia tomar um pouco de sol ouvindo música, mas, como ela é quem tinha arrastado o irmão para o térreo, concordou em brincar um pouco.
Quinze minutos passados, rendeu-se:
- Biel, chega de bola. A Sara vai tomar um pouco de sol. Você pode brincar com a bola aqui fora se quiser, ta bom?
Enquanto tirava as bóias dos braços de Biel, pensou que talvez seria melhor deixá-las, caso o menino caísse na água. Mas lhe ocorreu: “Se ele cair, eu corro para socorrê-lo. Aí vou ser uma menina de 10 anos que já salvou uma vida. Legal isso. Vou ter salvado a vida do meu próprio irmão...”
E foi ouvindo música, sonhando na sensação de salvar uma vida. De aparecer em um programa de televisão... Até que a bola caiu na água.
Biel se aproximou da piscina para resgatá-la. Sara ficou de espreita, só observando a cena. Biel não alcançava a bola, Sara não dizia nada. Biel caiu na água.
Em menos de um segundo, Sara mergulhou na água para resgatar o irmão, que se encontrava a um centímetro da margem. Trouxe-o para cima e falou, como mãe:
- Você tem que tomar mais cuidado! Se eu não tivesse por perto, você poderia ter morrido.
Biel ouviu, e voltou a brincar com a bola.
Não houve programa de televisão nem nenhum reconhecimento, a não ser o da própria menina, que para sempre se sentiu feliz e orgulhosa por ter salvado a vida do irmão.
Sara aproveitou que já havia adiantado todo o dever de casa da segunda-feira – duas páginas de exercícios de enormes equações –, e foi para a piscina. Não sem antes convidar seu irmão mais novo.
- Biel, vamos na piscina comigo! Vem, agora!
Colocou a sunga no irmão de 4 anos, pôs biquíni, pegou bola, bóia e toalha, e desceu.
Biel queria brincar com a bola. Sara colocou nele as bóias de braço, já que as pequeninas pernas ainda não alcançavam o chão. A menina preferia tomar um pouco de sol ouvindo música, mas, como ela é quem tinha arrastado o irmão para o térreo, concordou em brincar um pouco.
Quinze minutos passados, rendeu-se:
- Biel, chega de bola. A Sara vai tomar um pouco de sol. Você pode brincar com a bola aqui fora se quiser, ta bom?
Enquanto tirava as bóias dos braços de Biel, pensou que talvez seria melhor deixá-las, caso o menino caísse na água. Mas lhe ocorreu: “Se ele cair, eu corro para socorrê-lo. Aí vou ser uma menina de 10 anos que já salvou uma vida. Legal isso. Vou ter salvado a vida do meu próprio irmão...”
E foi ouvindo música, sonhando na sensação de salvar uma vida. De aparecer em um programa de televisão... Até que a bola caiu na água.
Biel se aproximou da piscina para resgatá-la. Sara ficou de espreita, só observando a cena. Biel não alcançava a bola, Sara não dizia nada. Biel caiu na água.
Em menos de um segundo, Sara mergulhou na água para resgatar o irmão, que se encontrava a um centímetro da margem. Trouxe-o para cima e falou, como mãe:
- Você tem que tomar mais cuidado! Se eu não tivesse por perto, você poderia ter morrido.
Biel ouviu, e voltou a brincar com a bola.
Não houve programa de televisão nem nenhum reconhecimento, a não ser o da própria menina, que para sempre se sentiu feliz e orgulhosa por ter salvado a vida do irmão.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Garganta seca
A- Me traz uma copo de água
B- Não.
A- Não?
B- Não.
A- Por que?
B- Porque eu deveria te trazer?
A- Porque eu tenho sede.
B- Pois eu também tenho sede.
A- Está bem, então traga dois copos de água.
B- Não.
A- Por que?
B- Por que eu deveria trazer?
A- Porque nós dois temos sede. Então um copo vai para mim e outro vai para você.
B- Mas eu não quero um copo.
A- Não tem sede?
B- Tenho.
Pausa
A- E não quer água?
B- Não sei.
A- O que você quer?
B- Eu?
A- É, você.
B- Eu não quero nada.
A- Mas não tem sede?
B- Tenho. (pausa) E você?
A- Eu também. Por isso te mandei buscar o copo de água.
B- Pois eu não vou buscar.
A- Vai ficar com sede?
B- Você também.
A- Não se importa de ficar com sede?
B- Não sei.
A- Aposto que se importa.
B- Já volto.
A- Onde vai?
B- Buscar água.
A- Finalmente.
...
A- Ué?! Cadê minha água?
B- Sua água?
A- A água que você ia buscar.
B- Ia não: fui.
Pausa
A- A água que você foi buscar.
B- Ah.
A- E então?
B- Bebi.
A- Bebeu?
B- É.
A- Por que?
B- Porque eu tava com sede.
A- Mas eu também estou com sede!
B- É ruim, né?
A- O quê?
B- Ter sede.
A- É. Agora vai me buscar água.
B- Agora?
A- É?
B- Por que?
A- Porque ainda estou com sede.
B- Coitado.
A- A água!
B- Onde?
A- Na cozinha, oras!
B- O que tem?
A- Eu quero.
B- O quê?
B- Não.
A- Não?
B- Não.
A- Por que?
B- Porque eu deveria te trazer?
A- Porque eu tenho sede.
B- Pois eu também tenho sede.
A- Está bem, então traga dois copos de água.
B- Não.
A- Por que?
B- Por que eu deveria trazer?
A- Porque nós dois temos sede. Então um copo vai para mim e outro vai para você.
B- Mas eu não quero um copo.
A- Não tem sede?
B- Tenho.
Pausa
A- E não quer água?
B- Não sei.
A- O que você quer?
B- Eu?
A- É, você.
B- Eu não quero nada.
A- Mas não tem sede?
B- Tenho. (pausa) E você?
A- Eu também. Por isso te mandei buscar o copo de água.
B- Pois eu não vou buscar.
A- Vai ficar com sede?
B- Você também.
A- Não se importa de ficar com sede?
B- Não sei.
A- Aposto que se importa.
B- Já volto.
A- Onde vai?
B- Buscar água.
A- Finalmente.
...
A- Ué?! Cadê minha água?
B- Sua água?
A- A água que você ia buscar.
B- Ia não: fui.
Pausa
A- A água que você foi buscar.
B- Ah.
A- E então?
B- Bebi.
A- Bebeu?
B- É.
A- Por que?
B- Porque eu tava com sede.
A- Mas eu também estou com sede!
B- É ruim, né?
A- O quê?
B- Ter sede.
A- É. Agora vai me buscar água.
B- Agora?
A- É?
B- Por que?
A- Porque ainda estou com sede.
B- Coitado.
A- A água!
B- Onde?
A- Na cozinha, oras!
B- O que tem?
A- Eu quero.
B- O quê?
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Um desenho no rosto
Foi no primeiro dia em que um homem e uma mulher estiveram no planeta Terra.
Não sei se eram exatamente Eva e Adão, nem quem os colocou lá – se é que alguém o fez. Talvez já estivessem lá há tempos, mas no formato de crianças, e não de jovens. Sim, eram jovens.
O fato é que o dia estava muito quente, e essas duas pessoas banhavam-se em um riacho.
Então veio uma mosca e ficou rodeando a cabeça do homem. Ele ficou longos segundo tentando despistá-la, mas sem sucesso. Finalmente perdeu o equilíbrio e caio com o corpo todo no riacho, as pernas dançantes para cima.
E a mulher sentiu – não tenho certeza se pela primeira vez – seu rosto todo se contrair. Seus lábios forçavam-se um contra o outro e foram abrindo mais e mais, deixando pouco espaço para as bochechas que, por sua vez, foram ocupando o lugar dos olhos que por muito pouco não se fecharam.
Sem que ela pudesse conter, começou a emitir um som. Meio nasal, meio tosse. Seu nariz não parava de soltar ar em pequenos intervalos, sua barriga começou a doer de tantas contrações que realizara em tão pouco tempo.
Quando o homem retomou a si e viu a mulher em tal estado, também abriu seus lábios em forma de meia lua. Não teve tantas contrações e sons como a mulher, mas, sem que soubesse, era um sentimento igual ao dela, com menos intensidade, que tomava conta de seu espírito.
A partir desse dia, ambos começaram a inventar coisas que pudessem causar no outro e em si mesmos aquela estranha sensação, que hoje chamamos de felicidade. Foi a partir desse dia que o ser humano descobriu como é bom ouvir uma piada, ver uma palhaçada.
Não sei dizer com clareza, porém, qual foi o dia em que os ser humano se permitiu esquecer-se dessa delícia.
Não sei se eram exatamente Eva e Adão, nem quem os colocou lá – se é que alguém o fez. Talvez já estivessem lá há tempos, mas no formato de crianças, e não de jovens. Sim, eram jovens.
O fato é que o dia estava muito quente, e essas duas pessoas banhavam-se em um riacho.
Então veio uma mosca e ficou rodeando a cabeça do homem. Ele ficou longos segundo tentando despistá-la, mas sem sucesso. Finalmente perdeu o equilíbrio e caio com o corpo todo no riacho, as pernas dançantes para cima.
E a mulher sentiu – não tenho certeza se pela primeira vez – seu rosto todo se contrair. Seus lábios forçavam-se um contra o outro e foram abrindo mais e mais, deixando pouco espaço para as bochechas que, por sua vez, foram ocupando o lugar dos olhos que por muito pouco não se fecharam.
Sem que ela pudesse conter, começou a emitir um som. Meio nasal, meio tosse. Seu nariz não parava de soltar ar em pequenos intervalos, sua barriga começou a doer de tantas contrações que realizara em tão pouco tempo.
Quando o homem retomou a si e viu a mulher em tal estado, também abriu seus lábios em forma de meia lua. Não teve tantas contrações e sons como a mulher, mas, sem que soubesse, era um sentimento igual ao dela, com menos intensidade, que tomava conta de seu espírito.
A partir desse dia, ambos começaram a inventar coisas que pudessem causar no outro e em si mesmos aquela estranha sensação, que hoje chamamos de felicidade. Foi a partir desse dia que o ser humano descobriu como é bom ouvir uma piada, ver uma palhaçada.
Não sei dizer com clareza, porém, qual foi o dia em que os ser humano se permitiu esquecer-se dessa delícia.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Neve no Reino da Morangolândia
Fazia sol no Reino da Morangolândia. Um sol gostoso. Suave, com sombra e água fresca.
As crianças-morangos brincavam de roda, enquanto os pais-morangos estavam deitados sob o sol para ganhar uma cor. Afinal, todos sabem que, quando se trata de um morango, quanto mais vermelhinho, melhor.
Então, como acontecia de tempos em tempos, a Grande Mão acolheu alguns e levou-os para serem banhados no Grande Rio Com Cachoeira.
Os escolhidos ficaram em estado de êxtase! Sempre quiseram ir banhar-se no Grande Rio Com Cachoeira. Era verdade que os que iam jamais voltavam. Mas e daí? A vida de um morango não é longa mesmo... Eles queriam mais era aproveitar e se jogar em tanta água.
E agora era a vez deles. Mergulharam e, então, foram levados para outro vale, bem pequeno, onde ficaram uns sobre os outros. De pé, cabeça para baixo, deitados, de cócoras...
De repente, sem mais nem menos, começou a nevar. Neve no Reino da Morangolândia! Isso nunca havia acontecido! E era uma neve tão docinha, mas tão docinha... até parecia açúcar. Os morangos começaram a sugar a neve, e só caía mais. Mais e mais, até que ficaram todos soterrados.
Sentiram então um estranho tremor, e um grito do Morango-Ligeirinho. Olharam para cima. Morango-Ligeirinho estava sendo levado para cima por um gigante prateado de quatro pernas, que nunca antes haviam visto. As pernas do gigante tinham perfurado o corpo do colega, que agora era dirigido à entrada de uma caverna escura, que se fechou tão logo ele entrou.
E, de um em um, todos os morangos foram perfurados pelo gigante e levados à caverna, que se abria e fechava a todo instante.
Ninguém nunca mais os viu, mas, até hoje, todos os morangos da Morangolândia esperam pelo dia de mergulhar no Grande Rio com Cachoeira.
As crianças-morangos brincavam de roda, enquanto os pais-morangos estavam deitados sob o sol para ganhar uma cor. Afinal, todos sabem que, quando se trata de um morango, quanto mais vermelhinho, melhor.
Então, como acontecia de tempos em tempos, a Grande Mão acolheu alguns e levou-os para serem banhados no Grande Rio Com Cachoeira.
Os escolhidos ficaram em estado de êxtase! Sempre quiseram ir banhar-se no Grande Rio Com Cachoeira. Era verdade que os que iam jamais voltavam. Mas e daí? A vida de um morango não é longa mesmo... Eles queriam mais era aproveitar e se jogar em tanta água.
E agora era a vez deles. Mergulharam e, então, foram levados para outro vale, bem pequeno, onde ficaram uns sobre os outros. De pé, cabeça para baixo, deitados, de cócoras...
De repente, sem mais nem menos, começou a nevar. Neve no Reino da Morangolândia! Isso nunca havia acontecido! E era uma neve tão docinha, mas tão docinha... até parecia açúcar. Os morangos começaram a sugar a neve, e só caía mais. Mais e mais, até que ficaram todos soterrados.
Sentiram então um estranho tremor, e um grito do Morango-Ligeirinho. Olharam para cima. Morango-Ligeirinho estava sendo levado para cima por um gigante prateado de quatro pernas, que nunca antes haviam visto. As pernas do gigante tinham perfurado o corpo do colega, que agora era dirigido à entrada de uma caverna escura, que se fechou tão logo ele entrou.
E, de um em um, todos os morangos foram perfurados pelo gigante e levados à caverna, que se abria e fechava a todo instante.
Ninguém nunca mais os viu, mas, até hoje, todos os morangos da Morangolândia esperam pelo dia de mergulhar no Grande Rio com Cachoeira.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Ela
- Como está o papai?
- Não sei o que te dizer. Até ontem estava como sempre, mal humorado, mas quieto. Essa manhã que acordou falante.
- Ué? Isso não é bom?
- Não sei... Ele só fala de uma moça. Deve ser uma namorada de infância, dos tempos do sítio. Diz que precisa dela, que não aguenta mais a vida sem ela. “Ela, ela, ela”, é só o que diz. Nem quis andar com o Heitor no Parque do Ibirapuera. Ele nunca recusa dar uma volta no parque.
- Mas ele também nunca gostou de andar neste calor. Depois do almoço vou para o clube. Quem sabe ele não gosta da idéia de dar um mergulho na piscina? Agora tem até uma aquecida.
- É...
Fazia 27º em São Paulo. Seu Luís, que tinha lá seus 80 e poucos anos, assistia, da janela de um prédio no Itaim, onde morava, seu neto Heitor chegar da caminhada. A solidão do rapaz apertou seu coração. Mas estava muito quente para sair na rua, e, afinal, desde que se mudara para o apartamento de Julia, sua filha mais velha, nunca recusou um convite do neto para passear.
Neste momento, ao meio-dia, Izabel, sua caçula, chegara para o almoço. Como sabia que as meninas não perdiam uma só oportunidade para discutir sua saúde física e mental, deixou-as conversando a sós na sala por um tempo, fingindo não ter escutado a campainha. Até que ouviu o chamado de Julia, e foi juntar-se à família.
Foi, mas com relutância. Estava cansado dos esforços das filhas para tirá-lo de casa. “É importante tomar ar fresco, papai”, diria Izabel. “O dia está tão lindo, e o médico disse que você precisa andar todos os dias”, diria Julia. E, em uníssono: “Vamos, papai!”
De fato, Seu Luís precisava de ar fresco. Mas hoje em dia, pensava, não se acha essa preciosidade em qualquer lugar. Lá sim. Lá onde estava ela... Ah, se pudesse ir ao seu encontro... Aí estaria completo. Aí inspiraria profunda e tranquilamente. Caminharia por horas, sem reclamar.
- Papai! – gritou Julia – o Heitor já chegou!
- Pronto, estou aqui. Fiz falta, Heitor?
- Que pergunta, vô!
- Não responde porque não fiz. Mas tudo bem. Sei que, para um jovem como você, caminhar na minha velocidade exige muita paciência e concentração.
- Vê, Bel? Responde assim para tudo. É um grosso! Para quê ser sarcático com o Heitor, papai? Ele quer o seu bem.
- Mas estou sendo sincero, Julia! Sarcástico... Acho que vocês não estão acostumados a ouvir palavras gentis ou bonitas. Acham sempre que o outro está ofendendo, querendo brigar. Talvez se vocês a conhecessem, se passassem um tempo com ela, seria diferente.
- Ela, ela... Tá bom, com ela seria diferente. Mas ela não existe mais, pelo visto. Então chega, papai.
- Não existe? Mas ontem mesmo ela saiu no jornal, numa matéria sobre reservas florestais.
- Como?
- To falando da cachoeira do sítio, onde nasci. Passei por momentos tão bons nela. Ficava bem no meio de um bosque, sabem? A gente fazia um pique-nique e depois se jogava nela. Aquilo sim era um parque. Aquilo sim era água de verdade, sem cloro! Ah, minha cachoeira, que saudades que tenho de você.
- Não sei o que te dizer. Até ontem estava como sempre, mal humorado, mas quieto. Essa manhã que acordou falante.
- Ué? Isso não é bom?
- Não sei... Ele só fala de uma moça. Deve ser uma namorada de infância, dos tempos do sítio. Diz que precisa dela, que não aguenta mais a vida sem ela. “Ela, ela, ela”, é só o que diz. Nem quis andar com o Heitor no Parque do Ibirapuera. Ele nunca recusa dar uma volta no parque.
- Mas ele também nunca gostou de andar neste calor. Depois do almoço vou para o clube. Quem sabe ele não gosta da idéia de dar um mergulho na piscina? Agora tem até uma aquecida.
- É...
Fazia 27º em São Paulo. Seu Luís, que tinha lá seus 80 e poucos anos, assistia, da janela de um prédio no Itaim, onde morava, seu neto Heitor chegar da caminhada. A solidão do rapaz apertou seu coração. Mas estava muito quente para sair na rua, e, afinal, desde que se mudara para o apartamento de Julia, sua filha mais velha, nunca recusou um convite do neto para passear.
Neste momento, ao meio-dia, Izabel, sua caçula, chegara para o almoço. Como sabia que as meninas não perdiam uma só oportunidade para discutir sua saúde física e mental, deixou-as conversando a sós na sala por um tempo, fingindo não ter escutado a campainha. Até que ouviu o chamado de Julia, e foi juntar-se à família.
Foi, mas com relutância. Estava cansado dos esforços das filhas para tirá-lo de casa. “É importante tomar ar fresco, papai”, diria Izabel. “O dia está tão lindo, e o médico disse que você precisa andar todos os dias”, diria Julia. E, em uníssono: “Vamos, papai!”
De fato, Seu Luís precisava de ar fresco. Mas hoje em dia, pensava, não se acha essa preciosidade em qualquer lugar. Lá sim. Lá onde estava ela... Ah, se pudesse ir ao seu encontro... Aí estaria completo. Aí inspiraria profunda e tranquilamente. Caminharia por horas, sem reclamar.
- Papai! – gritou Julia – o Heitor já chegou!
- Pronto, estou aqui. Fiz falta, Heitor?
- Que pergunta, vô!
- Não responde porque não fiz. Mas tudo bem. Sei que, para um jovem como você, caminhar na minha velocidade exige muita paciência e concentração.
- Vê, Bel? Responde assim para tudo. É um grosso! Para quê ser sarcático com o Heitor, papai? Ele quer o seu bem.
- Mas estou sendo sincero, Julia! Sarcástico... Acho que vocês não estão acostumados a ouvir palavras gentis ou bonitas. Acham sempre que o outro está ofendendo, querendo brigar. Talvez se vocês a conhecessem, se passassem um tempo com ela, seria diferente.
- Ela, ela... Tá bom, com ela seria diferente. Mas ela não existe mais, pelo visto. Então chega, papai.
- Não existe? Mas ontem mesmo ela saiu no jornal, numa matéria sobre reservas florestais.
- Como?
- To falando da cachoeira do sítio, onde nasci. Passei por momentos tão bons nela. Ficava bem no meio de um bosque, sabem? A gente fazia um pique-nique e depois se jogava nela. Aquilo sim era um parque. Aquilo sim era água de verdade, sem cloro! Ah, minha cachoeira, que saudades que tenho de você.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Um vestido e o mundo
(adaptação de piada do livro Fim de Partida, de Samuel Beckett)
É ainda julho quando uma jovem senhora se dá conta de que não possui em seu armário nenhum belo vestido para o Natal.
Ela então vai a uma costureira e encomenda um modelo razoavelmente simples, ao mesmo tempo que belo.
A costureira pede para que ela volte em um mês, para fazer a primeira prova.
Um mês depois, a senhora é apresentada para uma peça bastante bonita. Mas:
- Errei no zíper. Volte daqui uma semana e estará tudo ajustado perfeitamente.
“Errar com algo tão simples?”, pensa a senhora. Mas tudo bem, acontece.
Uma semana depois, a costureira volta a se desculpar. Agora, havia ajustado mal o decote. As rendas do dos lados estavam desiguais. Pediu então para que a senhora voltasse dentro de duas semanas, que o vestido estaria “um brinco!”
Puxa, mais duas semanas? Mas o que se vai fazer? E está mesmo bonito o vestido, vamos dar essa chance.
Passam duas semanas e a senhora encontra a costureira apressada:
- Já estou terminando, já estou terminando – diz. – É que achei melhor fazer um último ajuste na alças, mas se a senhora me der mais dez minutinhos...
Então, a senhora enfureceu-se, e disse:
- Minha cara: Deus fez o mundo em uma semana e você, em quase dois meses, não foi capaz de fazer apenas um vestido???
E a costureira respondeu, em tom de súplica:
- Mas senhora, repare bem: olhe para o mundo, e olhe para o seu vestido.
A senhora só pôde suspirar, sorrir, e concordar.
É ainda julho quando uma jovem senhora se dá conta de que não possui em seu armário nenhum belo vestido para o Natal.
Ela então vai a uma costureira e encomenda um modelo razoavelmente simples, ao mesmo tempo que belo.
A costureira pede para que ela volte em um mês, para fazer a primeira prova.
Um mês depois, a senhora é apresentada para uma peça bastante bonita. Mas:
- Errei no zíper. Volte daqui uma semana e estará tudo ajustado perfeitamente.
“Errar com algo tão simples?”, pensa a senhora. Mas tudo bem, acontece.
Uma semana depois, a costureira volta a se desculpar. Agora, havia ajustado mal o decote. As rendas do dos lados estavam desiguais. Pediu então para que a senhora voltasse dentro de duas semanas, que o vestido estaria “um brinco!”
Puxa, mais duas semanas? Mas o que se vai fazer? E está mesmo bonito o vestido, vamos dar essa chance.
Passam duas semanas e a senhora encontra a costureira apressada:
- Já estou terminando, já estou terminando – diz. – É que achei melhor fazer um último ajuste na alças, mas se a senhora me der mais dez minutinhos...
Então, a senhora enfureceu-se, e disse:
- Minha cara: Deus fez o mundo em uma semana e você, em quase dois meses, não foi capaz de fazer apenas um vestido???
E a costureira respondeu, em tom de súplica:
- Mas senhora, repare bem: olhe para o mundo, e olhe para o seu vestido.
A senhora só pôde suspirar, sorrir, e concordar.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Ana volta ao médico
- Pois é, doutor, não gostei da tal ginástica.
- Mas você foi a quantas aulas?
- Uma. Foi o suficiente.
- E eu posso saber por que você não gostou? Você está me parecendo um pouco tensa. Eu até arriscaria dizer revoltada. Aconteceu alguma coisa?
- Não, não aconteceu nada não. É só que... Era uma aula muito parada, sabe? Estou acostumada com um dinamismo maior, com uma exigência maior.
- Você achou fácil a aula?
- Muito.
- Estranho. Sabe que, de todas as pacientes que eu indico para essa ginástica – e olha que são muitas – você foi a única que achou a aula fácil. A maioria inclusive se surpreende com a dificuldade que encontram. Você não quer tentar mais uma aula.
- Não. Deus me livre.
- Ok, ok. Está bem. Então sugiro fisioterapia. É mais caro e, penso eu, mais chato. Mas se você achou a ginástica tão insuportavelmente chata... É o que nos resta.
- Tem dança na fisioterapia?
- Acredito que não.
- Ótimo. Adorei. Obrigada, doutor.
- Mas você foi a quantas aulas?
- Uma. Foi o suficiente.
- E eu posso saber por que você não gostou? Você está me parecendo um pouco tensa. Eu até arriscaria dizer revoltada. Aconteceu alguma coisa?
- Não, não aconteceu nada não. É só que... Era uma aula muito parada, sabe? Estou acostumada com um dinamismo maior, com uma exigência maior.
- Você achou fácil a aula?
- Muito.
- Estranho. Sabe que, de todas as pacientes que eu indico para essa ginástica – e olha que são muitas – você foi a única que achou a aula fácil. A maioria inclusive se surpreende com a dificuldade que encontram. Você não quer tentar mais uma aula.
- Não. Deus me livre.
- Ok, ok. Está bem. Então sugiro fisioterapia. É mais caro e, penso eu, mais chato. Mas se você achou a ginástica tão insuportavelmente chata... É o que nos resta.
- Tem dança na fisioterapia?
- Acredito que não.
- Ótimo. Adorei. Obrigada, doutor.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Ana na aula de ginástica
- Oi, qual é o seu nome?
- Ana.
- Você tem algum problema postural, alguma dor...?
- É, o médico falou... Lordose cervical e lombar.
- Trabalha muito?
- Bastante. A aula não costuma atrasar muito, né?
- Não, no máximo 10 minutos.
- Ai meu deus!
- Mas também se precisar você pode sair mais cedo, não tem problema. Bom, a gente vai começar agora com um aquecimento com música. Tem uma coreografia nova toda semana, mas não se preocupe porque com o tempo você pega o jeito. Você vai ver como a maioria já pegou o jeito. (A todos) Vamos começar?
A coreografia essa semana é um pouco mais acelerada. Ana, melhor você ficar atrás, para ir copiando das outras. Então, abre, atrás, abriu, juntou. Abre juntou, abre juntou. Esquerda. Abre, atrás, abriu juntou. Abre juntou, abre juntou. Isso Ana, só que você vai passar a perna por trás e não pela frente, assim ó.
Aí, contratempo com a direita, contratempo com a esquerda, e vamos girar pro lado esquerdo.
- (em pensamento) Vai, Ana, você é uma alta executiva! Consegue dar uns passinhos de dança. Ai, não, ta tudo errado. Como essa baixinha e gordinha na minha frente faz isso melhor que eu? Agora é pra direita, vai! Pra esquerda? Mas não era...? Onde estou? Abre, atrás, abriu... Meu deus, mas é muito rápido isso. E tinha que ter esse espelho na frente, to parecendo uma louca e ta todo o mundo me vendo. Aposto que a gordinha ta se divertindo comigo. Chega. Essa foi a primeira e última aula.
- Ana.
- Você tem algum problema postural, alguma dor...?
- É, o médico falou... Lordose cervical e lombar.
- Trabalha muito?
- Bastante. A aula não costuma atrasar muito, né?
- Não, no máximo 10 minutos.
- Ai meu deus!
- Mas também se precisar você pode sair mais cedo, não tem problema. Bom, a gente vai começar agora com um aquecimento com música. Tem uma coreografia nova toda semana, mas não se preocupe porque com o tempo você pega o jeito. Você vai ver como a maioria já pegou o jeito. (A todos) Vamos começar?
A coreografia essa semana é um pouco mais acelerada. Ana, melhor você ficar atrás, para ir copiando das outras. Então, abre, atrás, abriu, juntou. Abre juntou, abre juntou. Esquerda. Abre, atrás, abriu juntou. Abre juntou, abre juntou. Isso Ana, só que você vai passar a perna por trás e não pela frente, assim ó.
Aí, contratempo com a direita, contratempo com a esquerda, e vamos girar pro lado esquerdo.
- (em pensamento) Vai, Ana, você é uma alta executiva! Consegue dar uns passinhos de dança. Ai, não, ta tudo errado. Como essa baixinha e gordinha na minha frente faz isso melhor que eu? Agora é pra direita, vai! Pra esquerda? Mas não era...? Onde estou? Abre, atrás, abriu... Meu deus, mas é muito rápido isso. E tinha que ter esse espelho na frente, to parecendo uma louca e ta todo o mundo me vendo. Aposto que a gordinha ta se divertindo comigo. Chega. Essa foi a primeira e última aula.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Ana no médico
- Então, Dona Ana, eu dei uma olhada nas suas radiografias e a senhora está com lordose cervical e lombar.
- Isso significa...
- São desvios posturais. É normal em pessoas que trabalham muito tempo sentadas, ou que passam por muita tensão.
- É... faz sentido, doutor. Mas e agora?
- O ideal seria a senhora pegar mais leve no trabalho.
- Ah, bem que eu gostaria, mas é impossível. Cheguei até onde estou, trabalhando desse jeito, e não pretendo abandonar meu posto, muito menos perder o respeito que tenho.
- É, eu imaginei. Bom, minha outra recomendação é que a senhora faça ginástica.
- Mas vou à academia três vezes por semana.
- É, não esse tipo de ginástica. É uma diferenciada. Uma espécie de RPG. Trabalha a postura, a coordenação motora... é bem interessante e certamente lhe fará bem. Está aqui o cartão. Faça uma aula e veja o que acha. Vamos nos falando, ok?
- Está certo.
- Isso significa...
- São desvios posturais. É normal em pessoas que trabalham muito tempo sentadas, ou que passam por muita tensão.
- É... faz sentido, doutor. Mas e agora?
- O ideal seria a senhora pegar mais leve no trabalho.
- Ah, bem que eu gostaria, mas é impossível. Cheguei até onde estou, trabalhando desse jeito, e não pretendo abandonar meu posto, muito menos perder o respeito que tenho.
- É, eu imaginei. Bom, minha outra recomendação é que a senhora faça ginástica.
- Mas vou à academia três vezes por semana.
- É, não esse tipo de ginástica. É uma diferenciada. Uma espécie de RPG. Trabalha a postura, a coordenação motora... é bem interessante e certamente lhe fará bem. Está aqui o cartão. Faça uma aula e veja o que acha. Vamos nos falando, ok?
- Está certo.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Ana no trabalho
- Boa tarde, Dona Ana.
- Boa tarde.
- Como vai, Dona Ana?
- Bem, e você?
- Muito bem?
- Aceita um café, Dona Ana?
- Por favor, Victória.
- Boa tarde, Dona Ana. Aqui estão os papéis que a senhora pediu. E o Dr. Alan ligou perguntando se pode confirmar a consulta de hoje.
- Para que horas mesmo?
- 14h
- Pode confirmar sim, obrigada Telma.
- Eu é que agradeço, senhora.
(continua)
- Boa tarde.
- Como vai, Dona Ana?
- Bem, e você?
- Muito bem?
- Aceita um café, Dona Ana?
- Por favor, Victória.
- Boa tarde, Dona Ana. Aqui estão os papéis que a senhora pediu. E o Dr. Alan ligou perguntando se pode confirmar a consulta de hoje.
- Para que horas mesmo?
- 14h
- Pode confirmar sim, obrigada Telma.
- Eu é que agradeço, senhora.
(continua)
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Sem reporter
O fechamento de agosto foi tão corrido e estressante que, no dia seguinte, ninguém foi trabalhar. O diretor de redação, que apareceu lá pelas quatro da tarde para buscar uma jaqueta esquecida, não se preocupou. Para uma revista mensal, o primeiro dia não é lá assim tão importante.
Ele só foi se preocupar mesmo quando voltou à editora uma semana depois e não encontrou ninguém. “Estão todos na rua?”, pensou, enquanto se dirigia à sua semi-sala. Assustou-se quando viu sua mesa coberta por post its. Todos avisando que no tal dia tal repórter não poderia trabalhar pois estava doente.
“Quem colocou esses papeis sobre minha mesa?” Gritou para o pessoal das outras publicações. A secretária da revista ao lado se manifestou: “Fui eu. O telefone não parava de tocar e tava incomodando o pessoal. Então tomei a liberdade de atender e passar os recados. Achei que o senhor fosse encontrá-los logo no primeiro dia – não imaginei que fosse se ausentar por uma semana. Achei prudente não incomodá-lo”. “Mas até meu estagiário?” “Foi inclusive o que me pareceu mais debilitado.”
Ainda antes de se entregar ao completo nervosismo, ligou de um em um para saber qual era o estado do ser. E era mal. Gripe, febre, tosse, falta de ar, vômitos. Ninguém poderia ir para o trabalho tão cedo.
O senhor diretor, então, pôs- se a ligar para todos os free-lancers que conhecia. Mas todos estavam já muito ocupados para receber trabalho de última hora. Lembrou de colegas da faculdade, de amigos desempregados, de familiares vagabundos. Nada. Ninguém queria ajudá-lo, com exceção de três que estavam de cama com rubéola.
Foi então que ele relaxou e riu. Era sonho. Não podia ser outra coisa se não um sonho. Todos doentes? Por tanto tempo assim? Sonho, pesadelo. Não era real.
Foi para casa pensando assim. Cochilou. Ouviu a porta abrir. Em seguida, sua mulher chamar seu nome. “Que bom que chegou. Eu to sonhando?” “Não, com certeza não”, respondeu rindo. Ele ligou novamente à redação q e quem atendeu foi a secretária da revista do lado. “Não ninguém chegou não.”
Sucedeu-se então aquela série de pensamentos que todo jornalista já imaginou que terá algum dia. “Minha revista não vai fechar. A culpa não é minha. Mas vão me culpar. O que eu faço? Não é minha culpa. Quem vai acredita em mim? Vou ser mandado embora. To arruinado.”
Muito pelo contrário, a edição daquele mês foi um sucesso de vendas. Cem mil exemplares vendidos. 35 mil vendidos em banca. A capa “Edição especial: retrospectiva – As matérias mais comentadas do ano, com os comentários do Diretor.” Trouxe uma mensagem importante à empresa jornalista da época: jornalista pode ficar doente.
Ele só foi se preocupar mesmo quando voltou à editora uma semana depois e não encontrou ninguém. “Estão todos na rua?”, pensou, enquanto se dirigia à sua semi-sala. Assustou-se quando viu sua mesa coberta por post its. Todos avisando que no tal dia tal repórter não poderia trabalhar pois estava doente.
“Quem colocou esses papeis sobre minha mesa?” Gritou para o pessoal das outras publicações. A secretária da revista ao lado se manifestou: “Fui eu. O telefone não parava de tocar e tava incomodando o pessoal. Então tomei a liberdade de atender e passar os recados. Achei que o senhor fosse encontrá-los logo no primeiro dia – não imaginei que fosse se ausentar por uma semana. Achei prudente não incomodá-lo”. “Mas até meu estagiário?” “Foi inclusive o que me pareceu mais debilitado.”
Ainda antes de se entregar ao completo nervosismo, ligou de um em um para saber qual era o estado do ser. E era mal. Gripe, febre, tosse, falta de ar, vômitos. Ninguém poderia ir para o trabalho tão cedo.
O senhor diretor, então, pôs- se a ligar para todos os free-lancers que conhecia. Mas todos estavam já muito ocupados para receber trabalho de última hora. Lembrou de colegas da faculdade, de amigos desempregados, de familiares vagabundos. Nada. Ninguém queria ajudá-lo, com exceção de três que estavam de cama com rubéola.
Foi então que ele relaxou e riu. Era sonho. Não podia ser outra coisa se não um sonho. Todos doentes? Por tanto tempo assim? Sonho, pesadelo. Não era real.
Foi para casa pensando assim. Cochilou. Ouviu a porta abrir. Em seguida, sua mulher chamar seu nome. “Que bom que chegou. Eu to sonhando?” “Não, com certeza não”, respondeu rindo. Ele ligou novamente à redação q e quem atendeu foi a secretária da revista do lado. “Não ninguém chegou não.”
Sucedeu-se então aquela série de pensamentos que todo jornalista já imaginou que terá algum dia. “Minha revista não vai fechar. A culpa não é minha. Mas vão me culpar. O que eu faço? Não é minha culpa. Quem vai acredita em mim? Vou ser mandado embora. To arruinado.”
Muito pelo contrário, a edição daquele mês foi um sucesso de vendas. Cem mil exemplares vendidos. 35 mil vendidos em banca. A capa “Edição especial: retrospectiva – As matérias mais comentadas do ano, com os comentários do Diretor.” Trouxe uma mensagem importante à empresa jornalista da época: jornalista pode ficar doente.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Longo caminho até o 12o andar
Vinte-e-um. Alguém me explica por que raios este elevador sempre tem que estar no 21? Ai, quero chegar logo em casa. Acho que vou dar um dormidinha antes do almoço. Mas acho que antes vou pega alguma coisa pra comer... um pedaço de pão... ou um chocolate. Não, pão, quero salgado. Hum... será que ainda tem um pedaço do bolo? Se bem que uma pringles cairia bem... Então pego uma pringles. Mas melhor ir no banheiro antes. Ai, que vontade de ir no banheiro. Que sono. Que fome. Ah, até que enfim. Também agora espero que vá direto, sem parar em nenhum andar. Droga.
- Boa tarde.
- Boa tarde.
Aperta um andar depois do 12º, depois do 12º! Ué? Não vai apertar nenhum andar? Mas... mas... é que... o 12º é o meu andar. E a essa hora não tem ninguém em casa. Como deixaram alguém subir se ninguém pode ter atendido o interfone? Será que é a mulher que vai tingir o cabelo da minha mãe, que chegou mais cedo? E eu vou ter que fazer sala pra ela? Eu quero ir no banheiro antes! E comer! Não tem tanta pringles assim, não dá pra oferecer! E aposto que ela vai aceitar o último pedaço de bolo. Mas ela não tem cara de cabeleireira. Será que aconteceu alguma coisa e meus pais tão em casa? Ai meu deus... Ta chegando... Que que eu faço? Vou abrir a porta eu. Ué, mas ela nem vai se mexer, o que ta esperando?
- É... Tchau.
- Tchau. Ah, olha só, esqueci de apertar meu andar!
- Ah, eu também faço isso direto hehe
Ai, graças a deus!
- Boa tarde.
- Boa tarde.
Aperta um andar depois do 12º, depois do 12º! Ué? Não vai apertar nenhum andar? Mas... mas... é que... o 12º é o meu andar. E a essa hora não tem ninguém em casa. Como deixaram alguém subir se ninguém pode ter atendido o interfone? Será que é a mulher que vai tingir o cabelo da minha mãe, que chegou mais cedo? E eu vou ter que fazer sala pra ela? Eu quero ir no banheiro antes! E comer! Não tem tanta pringles assim, não dá pra oferecer! E aposto que ela vai aceitar o último pedaço de bolo. Mas ela não tem cara de cabeleireira. Será que aconteceu alguma coisa e meus pais tão em casa? Ai meu deus... Ta chegando... Que que eu faço? Vou abrir a porta eu. Ué, mas ela nem vai se mexer, o que ta esperando?
- É... Tchau.
- Tchau. Ah, olha só, esqueci de apertar meu andar!
- Ah, eu também faço isso direto hehe
Ai, graças a deus!
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Um amigo de Gisele VIII (final)
Não queria magoá-la, mas queria menos ainda continuar casado. Durante o mês seguinte, fui um péssimo marido. Chegava em casa, ligava a televisão, perguntava o que tinha de jantar e ia dormir. Não dava bom-dia nem boa-noite. Tratei-a, enfim, como se fosse uma moça qualquer que freqüentasse minha casa.
Então uma noite tomei coragem e disse que queria conversar.
- Pode ser... – disse com um delicado sorriso no rosto - Mas não aqui em casa. Vamos dar uma volta, o céu está tão bonito.
Insisti para ficarmos, mas ela tanto teimou que acabei concordando.
Não havia muito movimento na rua. Apenas um ou outro carro passava de tempo em tempo. Enquanto circulávamos o quarteirão, comecei a dizer o quanto ela era especial para mim, e como seria difícil falar o que ela precisava saber:
- Não te amo mais.
Ela ficou calada. E ainda com o sorriso impresso em sua face. Continuou andando sem dizer uma palavra, um murmúrio sequer.
- Gi, fala alguma coisa.
Então ela segurou uma tábua de madeira que estava jogada no chão é me bateu. Centenas de vezes. Caí inconsciente e acordei no hospital, ela chorando sobre os meus pés, sendo abraçada pelos pais. Eu gritei para que ela saísse e me deixasse em paz. Disse ao bom casal que sua filha era uma assassina. E Gisele disse:
- Ah, não. Você também, não... Não fui eu, meu amor, foram os bandidos...
Foi quando o médico explicou a todos os presentes que por causa das batidas, eu podia ter sofrido algum problema de memória. Todos disseram já ter presenciado algo parecido, e me censuraram por continuar insistindo na culpa de Gisele. Finalmente, acharam melhor me internar aqui na clínica. Cá estou. E você? Você também parece bastante são para estar aqui.
- Pois é, meu caro. E acredito em cada detalhe de sua história. Sou o falecido marido de Gisele, ou melhor, um amigo de Gisele. A louca queria casar comigo, eu não aceitei, ela me encheu de pauladas. De resto, tudo aconteceu exatamente como com você, com uma diferença: algumas pessoas chegaram a acreditar em mim, e foram investigar a história. Mas a doida conseguiu provar, com falsas testemunhas, que era inocente. Agora senta aí porque, a partir do momento que diagnosticaram em você problemas mentais, nunca te acharão 100% são.
Então uma noite tomei coragem e disse que queria conversar.
- Pode ser... – disse com um delicado sorriso no rosto - Mas não aqui em casa. Vamos dar uma volta, o céu está tão bonito.
Insisti para ficarmos, mas ela tanto teimou que acabei concordando.
Não havia muito movimento na rua. Apenas um ou outro carro passava de tempo em tempo. Enquanto circulávamos o quarteirão, comecei a dizer o quanto ela era especial para mim, e como seria difícil falar o que ela precisava saber:
- Não te amo mais.
Ela ficou calada. E ainda com o sorriso impresso em sua face. Continuou andando sem dizer uma palavra, um murmúrio sequer.
- Gi, fala alguma coisa.
Então ela segurou uma tábua de madeira que estava jogada no chão é me bateu. Centenas de vezes. Caí inconsciente e acordei no hospital, ela chorando sobre os meus pés, sendo abraçada pelos pais. Eu gritei para que ela saísse e me deixasse em paz. Disse ao bom casal que sua filha era uma assassina. E Gisele disse:
- Ah, não. Você também, não... Não fui eu, meu amor, foram os bandidos...
Foi quando o médico explicou a todos os presentes que por causa das batidas, eu podia ter sofrido algum problema de memória. Todos disseram já ter presenciado algo parecido, e me censuraram por continuar insistindo na culpa de Gisele. Finalmente, acharam melhor me internar aqui na clínica. Cá estou. E você? Você também parece bastante são para estar aqui.
- Pois é, meu caro. E acredito em cada detalhe de sua história. Sou o falecido marido de Gisele, ou melhor, um amigo de Gisele. A louca queria casar comigo, eu não aceitei, ela me encheu de pauladas. De resto, tudo aconteceu exatamente como com você, com uma diferença: algumas pessoas chegaram a acreditar em mim, e foram investigar a história. Mas a doida conseguiu provar, com falsas testemunhas, que era inocente. Agora senta aí porque, a partir do momento que diagnosticaram em você problemas mentais, nunca te acharão 100% são.
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Um amigo de Gisele VII
Admito ter sido difícil, principalmente no início da vida conjugal, manter a postura romântica dos tempos do cortejo. Se Gisele não era repulsiva, também não me atraía em absoluto. Dia após dia, porém, eu vestia a máscara e olhava para ela como se fosse o meu maior tesouro. Ao mesmo tempo, tramava comigo mesmo qual seria a melhor maneira de chegar ao assunto crime. A ocasião perfeita não tardou a chegar.
Após um dia frio e chuvoso de muito trânsito, Gisele esqueceu a lasanha no forno, que queimou. Pôs-se a chorar compulsivamente, e lá fui eu consolá-la:
- Gigi, você não está chorando só por causa da lasanha. Sei que tem algo mais te deixando chateada, e já não é de hoje. Pode contar comigo. Se abre. O que te deixa sempre tão abatida?
- Não... é isso mesmo... Era o seu jantar. E eu arruinei tudo. Não quero te perder. Não posso te perder.
- Me perder? Mas e só uma lasanha, por que você me perderia?
- Você não entende...
- Não, não entendo. Então me explique, por favor.
- Além de você, só amei uma pessoa em toda a minha vida. E ela se foi...
- Te abandonou?
Ela baixou os olhos. Fez que não. Disse pra deixar para lá.
- Gi, fala pra mim, acho que vai te fazer bem desabafar. O que houve com ele?
- Foi assassinado. Uns bandidos. Bateram nele. E fugiram. Fiquei sozinha, e então a polícia chegou, e acharam que fui eu. E todo o mundo achou que fui eu. Não entendiam. Eu o amava. Não fui eu, não fui. É verdade. Mas não acreditavam, ninguém acreditava. A gente ia ter um filho, sabia? Estávamos com os papeis da adoção. Ia se chamar João, como o pai. João...
Ah, então estava tudo explicado. Acusada de um crime que não havia cometido. Pobre Gisele. Por isso tanto cuidado, tanto tormento... Na hora errada, no lugar errado.
Já era hora de pedir o divórcio.
Após um dia frio e chuvoso de muito trânsito, Gisele esqueceu a lasanha no forno, que queimou. Pôs-se a chorar compulsivamente, e lá fui eu consolá-la:
- Gigi, você não está chorando só por causa da lasanha. Sei que tem algo mais te deixando chateada, e já não é de hoje. Pode contar comigo. Se abre. O que te deixa sempre tão abatida?
- Não... é isso mesmo... Era o seu jantar. E eu arruinei tudo. Não quero te perder. Não posso te perder.
- Me perder? Mas e só uma lasanha, por que você me perderia?
- Você não entende...
- Não, não entendo. Então me explique, por favor.
- Além de você, só amei uma pessoa em toda a minha vida. E ela se foi...
- Te abandonou?
Ela baixou os olhos. Fez que não. Disse pra deixar para lá.
- Gi, fala pra mim, acho que vai te fazer bem desabafar. O que houve com ele?
- Foi assassinado. Uns bandidos. Bateram nele. E fugiram. Fiquei sozinha, e então a polícia chegou, e acharam que fui eu. E todo o mundo achou que fui eu. Não entendiam. Eu o amava. Não fui eu, não fui. É verdade. Mas não acreditavam, ninguém acreditava. A gente ia ter um filho, sabia? Estávamos com os papeis da adoção. Ia se chamar João, como o pai. João...
Ah, então estava tudo explicado. Acusada de um crime que não havia cometido. Pobre Gisele. Por isso tanto cuidado, tanto tormento... Na hora errada, no lugar errado.
Já era hora de pedir o divórcio.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Um amigo de Gisele VI
Minha vida era saber o crime de Gisele. Não me importava com mais nada além disso. Por isso me casei com a moça, quinze anos mais nova do que eu.
O raciocínio era simples: todos na família de Gisele pareciam saber a história. Então, para que eu também soubesse, bastava ser um deles. Bastava me casar com ela.
Há dois anos comecei a cortejá-la. De início, ela não pareceu me levar a sério. Dizia que que não era nem bonita e nem doce, mas sim sombria e estranha. Ligava para ela quase diariamente, sempre a elogiando, convidando-a a sair. Gisele nunca aceitava, mas percebi que as conversas ao telefone tornavam-se mais longas a cada dia.
Entendi isso como um progresso, e finalmente, no seu aniversário, escrevi uma carta, acompanhada de flores, chocolates e um livro do patinho feio. Sabia já seu ponto fraco.
“Gisele,
Não agüento mais essa angústia pela qual você me faz passar. Te amo, e sei que sou correspondido. Então por que não me aceita?
Não acredita no meu amor, é isso? É por causa disso que estou te dando este livro. Para que você acredite que ser diferente das outras mulheres não significa ser estranha, mas sim ter outra beleza. E é essa mesma beleza que fez com que eu me apaixonasse por você, não parasse de pensar em você nem mesmo por um segundo (...)
Por favor, me aceite. Estou com passagens compradas para a África. É para lá que vou se você não me quiser”.
No mesmo dia, já de madrugada, ela foi à minha casa. Recebi-a com um beijo carinhoso, mas fui surpreendido por uma Gisele intensa que, em menos de um minuto, já se encontrava deitada sobre minha cama. Dois meses depois, nos casamos.
O raciocínio era simples: todos na família de Gisele pareciam saber a história. Então, para que eu também soubesse, bastava ser um deles. Bastava me casar com ela.
Há dois anos comecei a cortejá-la. De início, ela não pareceu me levar a sério. Dizia que que não era nem bonita e nem doce, mas sim sombria e estranha. Ligava para ela quase diariamente, sempre a elogiando, convidando-a a sair. Gisele nunca aceitava, mas percebi que as conversas ao telefone tornavam-se mais longas a cada dia.
Entendi isso como um progresso, e finalmente, no seu aniversário, escrevi uma carta, acompanhada de flores, chocolates e um livro do patinho feio. Sabia já seu ponto fraco.
“Gisele,
Não agüento mais essa angústia pela qual você me faz passar. Te amo, e sei que sou correspondido. Então por que não me aceita?
Não acredita no meu amor, é isso? É por causa disso que estou te dando este livro. Para que você acredite que ser diferente das outras mulheres não significa ser estranha, mas sim ter outra beleza. E é essa mesma beleza que fez com que eu me apaixonasse por você, não parasse de pensar em você nem mesmo por um segundo (...)
Por favor, me aceite. Estou com passagens compradas para a África. É para lá que vou se você não me quiser”.
No mesmo dia, já de madrugada, ela foi à minha casa. Recebi-a com um beijo carinhoso, mas fui surpreendido por uma Gisele intensa que, em menos de um minuto, já se encontrava deitada sobre minha cama. Dois meses depois, nos casamos.