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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

E se morrer?

Dia após dia, Karina ia conversando consigo mesma sobre tudo o que via e ouvia.

Um dia, já com 15 anos, voltando do colégio para a casa, distraída com o pensar, atravessou a rua sem perceber o semáforo aberto aos carros.

Deu sorte. Justo naquele momento, apenas um carro estava passando, e não em uma velocidade suficientemente rápida que o impedisse de desviar da menina.

Houve buzinas. Mas nenhum acidente.

- Que louca. Nossa. Essa foi por pouco. Já pensou? E se eu tivesse sido atropelada? Até que não seria tão mal... Tem prova de matemática amanhã, eu não precisaria estudar. Se fosse feio, e eu morresse, nunca mais ia precisar estudar. Mas, pensando assim, que seria bom morrer, eu mesma poderia me matar, não precisaria de um carro pra fazer isso. Sem contar que se eu morresse atropelada, o motorista poderia ser preso, ficar traumatizado, e tal. Não. E se ele tiver uma filha? Coitada... Eu não ia gostar se minha mãe fosse presa só por que uma menina não quis estudar pra prova de matemática do dia seguinte. Quanto egoísmo! Seria horrível se minha mãe fosse presa por isso... O pior é que não é tão improvável assim acontecer. Acidentes de carro acontecem o tempo todo. O bom é que minha mãe não dirige, mas a Dona Ângela. Ai, já pensou se neste momento a Dona Ângela está se envolvendo em algum acidente de carro. Tudo ficaria muito diferente se a Dona Ângela morresse. Espero que não aconteça nada. O que poderia acontecer também é de o motorista que quase me atropelou ter ficado bravo. Vai ver agora mesmo ele está bem atrás de mim prestes a me lançar um tiro nas costas. Prefiro morrer a ficar um vegetal. Posso ficar paralítica também. Não sei se prefiro.

Chegou a casa e o pensamento deu um tempo com as distrações da hora do almoço. Karina nem se deu conta de quão macabros poderiam ser seus pensamentos. Ela não desejava morrer. Tampouco gostaria que algo de ruim acontecesse à sua mãe ou a Ângela. Ela simplesmente ia pensando, sem temer a morte. Ou melhor, temer a morte, até que ela temia. Só que, em momentos como esse, ela não estava preocupada com nada. Apenas pensava suposições. E achava normal.

Dia após dia, passou a imaginar formas improváveis de ser morta. Ou de que alguém próximo a ela o fosse. Cair no metrô, levar um tombo, pegar câncer, ser mordida por um cachorro...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

As dúvidas de Karina

Com a separação de Ângela e o conseqüente afastamento de seus filhos, Karina começou a ganhar mais e mais atenção da dona de casa. Pôde jogar videogame, ver tv e até faltar à escola apenas porque queria.

Foi nessa época também que Karina notou uma subida mudança de humor em sua tia-mãe. Ela andava cabisbaixa, melancólica, deprimida. Karina teve medo de ter dito ou feito algo de errado. Mas não sabia o quê. Comentou com Ângela.

- Triste? Não, não. Deve ser só cansaço, por causa da idade.

Karina não entendeu como a idade poderia deixar a mãe cansada. Tampouco como a tia poderia estar cansada.

- Ela diz que ta com falta de sono! Nem dorme muito a noite.

- Pergunta pra ela, então.

- Mas e se for alguma coisa que eu fiz?

- Então não pergunta.

Por dias Karina, aquela menininha que então contava 11 anos, observou cada gesto e cada palavra da mãe. Pensou, refletiu, repassou mentalmente todos os acontecimentos de que havia reparado na mudança de humor. Escreveu uma carta. Rasgou. Escreveu outra. Começou a escutar vozes em sua cabeça da mãe gritando com ela. Gritos que nunca havia ouvido, mas escutava em sua mente. Após um Mês, tomou coragem e perguntou.

A coisa era simples. A mãe estava enciumada.

- Eu... Acho bom para você que a Dona Ângela goste de você... É só que... Você... Vai me trocar por ela, não vai?

- Te trocar? Por que eu faria isso?

A mãe tentou explicar, mas era algo tão inviável para a menina que nada que a mãe dissesse faria sentido. A não ser o “eu te amo, filha”, para concluir a conversa, que foi correspondido por Karina.

O ciúme acabou aí, mas esse mês definiu a personalidade de Karina pelo resto de sua vida. Por tanto ter pensado e conversado consigo mesma sobre o que teria acontecido com a mãe, sem ter chegado à conclusão alguma, achou, quase sem querer, que precisava treinar mais o pensar. E começou a usá-lo com tudo. Tudo mesmo. “Por que aquele homem na padaria deixou a mulher ficar com o troco? Será que ele tava com muita pressa?”, “Por que quando eu tomo banho prefiro começar a me ensaboar pelos pés?”, “Por que quando as pessoas casam, elas precisam usar anéis?”. Dia após dia, ia conversando consigo mesma sobre tudo o que via e ouvia.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O fim

Nunca mais Ângela viu Gustavo. E a conversa com Rodrigo também não existiu. Não porque o marido tivesse ficado muito decepcionado, coração partido, nada disso. Em verdade, o ocorrido foi um felicíssimo acaso para ele, que há quatro anos mantinha uma amante, a quem, havia dois anos, havia prometido que terminaria o casamento.

Mas, como a todo homem, faltava-lhe coragem. Fora o medo que tinha de que os filhos ficassem do lado da mãe, o que certamente aconteceria. Ângela, porém, deixou tudo mais simples. Agora ele saía como bom homem de coração partido e com o apoio dos filhos. Não precisaria mais agüentar a mulher, a amante ficaria felicíssima com a notícia e só teria que aguardar uns três meses mais para poder mostrar a cara sem o risco de que alguém desconfiasse que a relação existia há muito mais tempo.

Rodrigo, em suma, se deu bem.

Já Ângela perdeu o amigo que tanto amava, que tanto queria que virasse amante, mas que havia rejeitado, em nome de sua família. Família que ela perdeu também. Os dois filhos foram, naquele dia, dormir em casa de amigos. E não voltariam mais para casa, se não uma vez ou outra para pegar alguma coisa.

Odiavam a mãe. Mais do que tudo. E idolatravam o pai.

Ângela chegou a pensar em suicídio. Não teria coragem. Tentou ligar para Gustavo todos os dias durante um mês. Até que tomou coragem e perguntou a Dona Inês o que tinha acontecido com o filho.

- Mudou de telefone. Eu te entendo, Ângela, não te condeno pelo que fez, pela sua escolha. Mas esquece meu filho. Ele mesmo não quer te ver nem pintada.

Ela chorou por dois meses seguidos, sem ninguém para consolá-la. Ninguém.

A não ser Karina, a filha da empregada.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Em troca

- Karina! Ô, filha! Que estojo bonito é esse que você trouxe pra casa hoje?

- Estojo?

- É, esse rosa. Achei na sua mochila. Tava procurando uma tesoura emprestada.

- Ah, esse. É bonito, né? É da Aline, uma menina do colégio.

- E por que ta com você?

- É uma história meio longa... Mas eu vou devolver amanhã.

- História longa? Sua filha deu pra roubar agora? – intrometeu-se Ângela, que estava ouvindo a conversa.

- Não! Juro que não roubei! Vou devolver!

- Bom, filha. Conta pra gente o que aconteceu. Você ta parecendo meio nervosa...

- Ta, é que acho que vocês vão me achar esquisita, que nem todo o mundo lá no colégio.

- Não vamos não. Pode falar. A gente promete, não é, Dona Ângela?

- Vamos ver... Conta o que aconteceu.

- Assim: Lá no colégio ta todo mundo colecionando esses selinhos que vem com o Toddynho, sabe? Mas todo mundo só tem poucos, porque a mãe não fica comprando muito, né, por causa do dinheiro. Aí eles conseguem no supermercado, se sobra, se o toddynho fica vencido... – observando os olhares – eu falei que a história era longa!

- Continua, filha.

- Então, só que eu tenho um monte, né, porque o Pedro me dá todos os selinhos dele, e ainda tem os que minha mãe mesmo me compra... Aí me vieram três repetidos, e justo é um que ninguém tem. É muito brilhante, dizem que é raro. E a Aline tava louquinha pra conseguir um desses já faz um tempão. Vocês precisam ver. Nunca vi ninguém gostar tanto de coisa que brilha! Aí, como eu tinha três, perguntei se ela queria um.

- E pegou o estojo dela por causa de um selinho? Mas que absurdo! Se eu fosse sua mãe te dava um castigo!

- Não é isso! Eu não queria nada em troca. Tava sobrando. Mas os outros colegas ouviram e começaram a me chamar de besta, de boba. Ficaram dizendo que era muito raro o selinho, que eu tinha que trocar por outros selinhos ou por outra coisa, mas que eu tava sendo idiota. Todo mundo ficou tirando sarro da minha cara. E aí a Aline disse que eles tinham razão e falou que trocava o estojo dela pelo selinho. Aí, pra todo mundo parar de brigar comigo, eu aceitei. E peguei. Mas já combinei com ela que depois eu devolvo escondido e ela finge que a mãe dela comprou outro pra ela.

- E vai ficar sem nada em troca mesmo? – perguntou Dona Ângela.

- Mas se o selinho ta sobrando, se eu tenho um igual, por que preciso de algo em troca?

- Porque você pode ter algo em troca.

- Mas não é justo. Não custou nada pra mim.

- Essa menina é muito estranha mesmo...

- Ela só é nova na cidade, Dona Ângela. Vai se acostumar ainda.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Entrando na rotina

Também, não é que Karina tenha virado a Gata Borralheira. Nem que tenha se tornado odiada pela família que tão bem a recebera.

Aos poucos, o assunto de ela não gostar de estudar foi sendo esquecido. Era sinceramente bem quista por todos. Almoçava com todos, assistia à televisão com todos. Isto é: só quando mostrava a Ângela que havia terminado o dever.

Estava feliz.

Falava com os pais verdadeiros, pelo telefone, uma vez por mês. Poderia ser mais, mas a tia achou melhor assim, para facilitar o rompimento.

Não manteve contato com ninguém da velha escola. Mas não tinha saudades. Os colegas foram substituídos um a um por outros novos, correspondentes. Às vezes combinavam de, após o almoço, encontrarem-se do Parque do Ibirapuera para jogar bola. Meninos e meninas, juntos. O Parque era próximo à escola e, por isso, não havia problema em irem sozinhos, sem adultos.

Às mil maravilhas. Boa rotina. Até um passeio ao Hoppy Hari já estava programado para agosto, quando Karina faria 11 anos. Desenho animado. Danoninho. Espelhos. Chocolate À vontade. Amigos. Atenção e proteção.

A única dificuldade eram as tarefas da escola. Iam ficando mais e mais complicadas a cada semana. Fabiana a ajudava bastante, é verdade. Mas não tinha uma didática boa. No início de junho, quando a semana de provas estava para começar, Ângela achou melhor chamar um professor particular, só para garantir. Karina achou desnecessário, mas compareceu à aula – fisicamente, apenas.

O professor de nada se queixou. Se dissesse que era inútil forçar a menina a estudar, deixaria de receber 200 reais por apenas 4 horas de trabalho. Ficou quieto. Karina também. Chegou a semana de provas. As notas da pequena foram 5 ou 6 em todas as matérias. A mãe ficou satisfeita, Ângela recomendou o professor para todas as amigas que tinham filhos com problemas no colégio.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A menina pobre que não estuda

Karina ficou conhecida como a menina pobre que não gostava de estudar. Dentro de casa, na escola e mesmo entre os vizinhos do prédio. Parecia tão impossível para todos a existência de uma menina pobre que não gostava de estudar, que no dia seguinte à declaração foi o único assunto do elevador social.

A notícia, é claro, chegou aos ouvidos da tia cerca de uma semana depois. Foi quando ela foi perguntar à então filha:

- Karina, ouvi dizer que você não tem feito os deveres do colégio. É verdade?

- Não.

- Então deixa eu ver.

E Karina mostrou. Tava lá. Tudo feito.

Como um mês depois o assunto ainda aparecia por vezes dentro de casa, a tia achou melhor ir averiguar o fato com a professora:

- A Karina... A menina nova, né? Sim, ela faz os deveres todos sim. Apresenta algumas dificuldades, principalmente com português. E é verdade que poderia se esforçar mais com as tarefas, porque ela faz só o mínimo. Mas todos fazem isso. Criança gosta mesmo é de ir brincar.

A tia concordou, satisfeita. Só não ficou feliz quando escutou de Pedro, assim que chegou à casa:

- Sabe, é uma pena. Comprei um jogo novo de vídeo game que só dá pra jogar em dois, e a Fabiana nunca quer jogar comigo. Aí pensei em convidar você, mas minha mãe não deixou. Disse que você tem que estudar.

- Ô, Pedro, é verdade isso? – interferiu a tia.

- É sim... Mas não conta pra minha mãe que eu te falei isso, por favor...

- A Karina ta indo bem no colégio. Vem, filha, vai lá no meu quarto ver televisão.

- Não posso ir na sala? É maior.

- Não, filha. Hoje não.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Estudar é chato

A manhã passou rapidamente. Dona Ângela chamou Karina para ficar assistindo televisão na sala. Passavam uns programas que a menina nunca tinha visto. Era tanto canal... Tinha uns que passavam desenho animado o tempo todo. Mesmo à noite. Foi o que Dona Ângela disse.

Mas houve um diálogo com Dona Ângela que deixou Karina meio confusa. A moça perguntou:

- E aí? Animada para ir à escola?

Karina não entendeu bem a pergunta. “Quem se anima para ir à escola?” Pensou. Mas fez como de costume, respondendo o que achava que esperavam que ela respondesse:

- Animada? É. To.

- Ah, mas no seu lugar eu também estaria. Muito animada. Você vai ver! Depois que começarem suas aulas, acho que já começam semana que vem, você nem vai querer saber de desenho animado. É muito bom estudar.

A menina ficou então imaginando o que as pessoas dessa cidade chamavam de escola. Com certeza seria diferente da que ela conheceu na Bahia. Não era possível. Estudar era muito chato. Se na Bahia pegava em um livro, era por não ter mais o que fazer. Mas com canais que passavam desenho animado o dia todo! Há! Quem ia querer estudar.

À tarde aconteceu algo que deixou Karina ainda mais atordoada. Ela acabava de lavar a louça do almoço quando ouviu Dona Ângela conversando com Pedro:

- Está bem. Se você estudar por mais duas horas poderá ver televisão.

- Duas horas??? Mas mãe, é muito tempo!

- Eu sei, filho. É chato mesmo ter que ficar estudando, mas você ta indo mal nas provas. É o jeito.

- Dona Ângela – chamou a menina.

- Pode me chamar de Ângela só.

- Ta. Ângela, não entendi. É chato ou é legal ficar estudando?

- Mas que menina espertinha! O Pedro acha chato, porque, por ele, ele passaria a vida na frente da tevê.

- Eu também passaria.

Ângela fingiu que não ouviu. Mas a resposta seria a discussão do jantar, quando tia e sobrinha já dormiam:

- E vocês não sabem o absurdo: a menina, a... Karina. Uma graça, mas diz que não gosta de estudar. Veja só! Uma menina, sem oportunidades na vida, que prefere ver tevê do que estudar! Onde já se viu! Se ainda fosse rica... Mas meninas como ela adoram estudar! Sabem dar valor, claro: estudam se pagar! Mas essa menina...

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Café-da-manhã paulistano

“Só podia ser um sonho”, pensava Karina enquanto ajudava a tia-mãe a colocar a mesa. Toddynho, queijo, presunto, pão, iogurte, requeijão, DANONINHO!!!

- Posso pegar um?

- Claro. Pode pegar o que quiser. Só tem que me avisar se for o último porque aí compro mais.

- Mas você tem dinheiro pra isso?

- Quem me dera... É com o dinheiro da Dona Ângela, minha patroa. É uma moça muito boa, você vai gostar dela. Ela tem dois filhos, a Luciana e o Pedro. São mais velhos do que você. A Luciana tem 14 e o Pedro tem 16. Tem também o Seu Rodrigo, mas ele quase nunca ta aqui. Mal toma o café da manhã direito e volta bem tarde, quando a gente já foi dormir.

- Com tudo isso ele toma o café rápido?

- É. Na verdade nem um deles come muito no café, só a Dona Ângela.

Não havia dado nem 5 minutos desde que a mesa estava posta quando entrou o Seu Rodrigo.

- Olha, Seu Rodrigo, essa é minha sobrinha, a Karina, que eu falei pro senhor.

Seu Rodrigo deu uma olhada sonolento. Disse “Oi como vai”, engoliu o café e foi embora. Bastou isso para que Karina o temesse pelo resto de sua vida.

Os minutos foram passando, cada um foi acordando, tomando café, sendo apresentado à Karina... Ângela foi a mais simpática. Recepcionou a menina com um abraço e um beijo. Disse que.., como é que era... “qualquer coisa é só pedir”. Os filhos foram legais também, mas quase não falaram nada. A tia disse que é porque eles estavam com pressa e com sono.

- O que é pressa?

- Pressa... é... apressado. Quando a pessoa ta atrasada... sabe? – Karina continuou com o olhar interrogativo – Assim, quando faz tudo correndo.

- Como em uma competição de quem vai mais rápido?

A tia desistiu:

- É, mais ou menos isso. Uma competição. Só que em São Paulo todo mundo está sempre assim.

- Competindo o tempo todo?

- É... não... Ah, menina, deixa de bobagens. Vem me ajudar com a louça, que hoje temos muito o que fazer.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Seis espelhos!!

- Outro ônibus? Pensei que a gente já tava em São Paulo – disse Karina quando a tia puxou-a para dentro do veículo.

- É que São Paulo é grande. Já estamos aqui, mas precisa de ônibus pra ir pra casa. E vai se preparando porque a viagem é longa e nem sempre dá pra sentar.

Desta vez, por sorte, deu. Foram as duas sentadas até a casa de Dona Ângela, onde trabalhava a tia, agora mãe, de Karina. Chegaram uma hora depois.

Foram comprar pão. Seis pães. Karina achou caro, sua tia a advertiu de que era assim em São Paulo – tudo mais caro.

- Nossa, mas esse prédio é muito grande! A casa que vamos é muito no alto?

- É. A última. Mas a gente pega o elevador e vai rapidinho.

- Elevador?

- Não vai dizer que não sabe o que é um elevador!

- Saber eu sei, é que nunca vi um de perto, né?

A empolgação de Karina só aumentava. Sentia que não estava em outro Estado, mas em outro país, outro planeta, outro mundo!

- Tem campainha!! Posso apertar?

- Agora não porque tem gente dormindo lá dentro. De tarde eu te deixo. Se quiser eu deixo você rodar a chave. To aqui.

Entraram.

- Ih, tia... – decepcionada – pelo jeito que você falou achei que ia ter um sofá desses bem grandes, que ia ter vários quartos...

- E tem.

- Cadê então? Aqui só to vendo um banheiro do tamanho do da casa da Bahia, e só dois quartos. E em um nem tem cama.

- Então faz assim: vai até lá no canto, onde tem o armário. E olha atrás dele, no canto.

- Ah, tem uma porta. Que que tem atrás, mais um quarto?

- Não, Karina. Aqui é só a área de serviço, onde eu durmo, lavo roupa... Onde ficam os produtos e limpeza, a dispensa. Atrás dessa porta tem tudo o que eu te falei.

A tia não precisou acabar de falar para que Karina abrisse a porta. A casa era ainda maior do que as das novelas. Uma sala duas vezes maior do que sua própria casa. Ainda outra, um pouco menor – quase do tamanho mesmo de sua casa.

Saiu correndo para contar quantos banheiros. Um, dois... Dois, só?

- Em cada quarto tem outro banheiro – explicou a tia.

Eram quatro quartos. Então deviam ser seis banheiros. Seis!!

- Os dos quartos também têm espelhos?

- Do tamanho dos de salão de beleza.

Ah, era demais. Só podia ser um sonho.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Chegando em São Paulo

Karina causara tanta inveja a seus amigos, que pensou ser impossível não gostar da cidade grande. Chegou à rodoviária às 5 da manhã de uma segunda-feira. Estava em êxtase e, ao mesmo tempo, assustada com o tamanho do lugar e a quantidade de gente.

O barulho então... Infernal. Mas não para Karina. Para ela, a partir daquele singular momento ela seria a protagonista de uma novela. E não qualquer novela, mas uma das 8, que é mais divertida e não tem tanto drama.

Sua tia segurou forte em sua mão e foi puxando-a para fora, até o ponto de ônibus.

- Vamos para sua casa?

- A tia tem duas casas, na verdade, menina. Uma de segunda a sexta e uma no fim-de-semana.

- Duas casas? – perguntou a menina, mais do que admirada – Se eu tivesse dinheiro para ter duas casas, compraria um castelo.

Por um instante a tia não compreendeu o que a sobrinha dizia. Mas logo soltou uma gargalhada e disse:

- Não, Karina. Eu moro em duas casas. Uma, a melhor, é a casa onde eu trabalho, que eu te disse na Bahia. A outra que é minha mesmo, quer dizer, alugada. É pra lá que eu vou nos finais de semana que eu não vou visitar vocês. Hoje é segunda, então já vamos direto para a casa grande.

- Mas não é em São Paulo as duas?

- É.

- Então porque você não volta todo o dia para sua casa? Prefere dormir na casa dos outros todo dia?

- É que é muito longe uma da outra.

- Mas se é na mesma cidade!

- Ih, já vi que você ainda há de estranhar muita coisa aqui, filha.

Karina não estranhou esse “filha”. E nem haverá de estranhar as outras tantas milhões de vezes que assim a tia a chamar. Agora, são mãe e filha, ligadas pelo desejo mútuo de aproveitarem cada vez mais e mais todas as belezas, novidades e riquezas que existem na complexa metrópole e que, na cidadezinha do interior da Bahia, apenas tinham ouvido falar.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A partida de Karina

Se perguntassem a Karina se ela gostava de sua vida, se era feliz, creio que ela não saberia o que responder. Talvez pensasse por um momento, olhasse por um longo minuto para o rosto do interrogador, e, baseando-se na expressão deste, daria a resposta que achasse mais conveniente.

Um dia, aos dez anos de idade, ouviu de seu quarto sua tia convencendo os seus pais de que São Paulo era o futuro de sua linda sobrinha. Em São Paulo, seria grande. Em São Paulo, seria a menina mais inteligente que já houve na família Silveira. Em São Paulo, Karina seria feliz.

Por isso, quando seus pais e a tia perguntaram-lhe se era feliz na Bahia, o que acharia de se mudar para São Paulo, ficou parada apenas olhando para a cara dos três. Por tudo o que ouvira, deveria responder que queria ir para São Paulo. Mas e se fosse a resposta errada? Preferiu ficar calada.

- Vamos com a tia, Karina. Ela mora em uma casa grande, de um casal rico e simpático, que possui dois filhos, uma menina e um menino, dois amores de pessoa! Vamos conhecer gente nova! Lá tem cada comida diferente, tem tudo o que você vê no comercial na tevê. Vamos, Karina.

A menina olhou para os pais.

- Pode ser bom para você, filha. A tia cuidará bem de você, será sua nova mãe. Se quiser ficar aqui, tudo bem. Queremos o seu melhor. Se é feliz aqui... Mas tenho certeza de que será feliz em São Paulo

Karina já tinha ouvido falar de São Paulo antes. Quem não tinha? Devia ser como nas novelas. As casas nas novelas eram tão bonitas... Já pensou se essa casa que morava a tia fosse como as das novelas. Mas, se fosse, teria que ser do casal bom. Ela não queria morar com gente ruim. Pensou então em dizer que não. Mudou de idéia quando ouviu os grandes discutindo quando seria a melhor data da partida.

- É...- disse a menina.

- Partimos hoje, pode ser? – disse a tia.

- É, tia, mas antes quero contar pros meus colegas.

- Então aproveita hoje, que é hoje que volto. Se não, só no próximo feriado, e vai saber quando é.

Os pais mal tiveram tempo de dar um abraço na filha. Ela voou para a casa vizinha, onde morava a melhor amiga. Contou tudo, acrescentando fantasias e deixando que a amiga interferisse com tantas outras.

- Ouvi dizer que lá tem um parque cheio de piscinas enormes. Mil vezes maiores do que a que o pai da Sheila trouxe pra ela. E fundas também, mais fundas que o mar.

- Vou no parque todo dia!

- Queria ter uma tia em São Paulo também...