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terça-feira, 20 de abril de 2010

A Italia de Kafka

Lugar A

D- oi, eu quero este chocolate

M- esta bem. va ao banco e faca um deposito de 150 euros

D- ok.

......

D- oi, eu quero este chocolate. aqui esta o comprovante do deposito.

M- so um minuto... H, esta menina quer este chocolate. aqui esta o comprovante do deposito dela.

H- mas por que ela fez este deposito?

M- porque ela quer o chocolate

H- mas ela nao pode! D, por que vc fez este deposito?

D- Porque quero este chocolate!

H- Mas voce nao pode comprar este chocolate! Ele eh so para estrangeiros!

D- Mas eu sou estrangeira!

H- mas voce tambem eh italiana. Nao pode.

D- Como pego meu dinheiro de volta?

H- Vai no lugar B.

Lugar B

D- blablabla dinheiro de volta

X- nao eh aqui. liga no lugar C e pergunta como vc faz.

Lugar C, por telefone

Y- Senhorita D? Recebi seu fax e email, e investigamos o seu caso. A senhorita deve se dirigir a um lugar chamado A, e pedir o seu dinheiro a um senhor chamado H.

D- Mas ja falei com o senhor H. Ele disse para eu ir pro lugar B, que disse pra eu falar com voces.

Y- Bom, eu nao posso te dar o seu dinheiro. So posso te dizer o que voce deve fazer. E voce deve falar com o senhor H, do lugar A.

D- Mas este senhor H, do lugar A, me mandara ir ao lugar B, que me mandara falar mais uma vez com voce, que me dira para falar com o senhor H... e assim a historia nao acabara nunca.

Y- Eu posso te mandar um email explicando o que ja expliquei. Nao posso fazer nada a mais.

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bye, bye, 150 euros...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O meu pai (ou: O grande incentivador)

- Pai!

- Hã?

- Ganhei um milhão na loteria!!!

- Oi?

- Ganhei um milhão na loteria!!

- Você jogou na loteria?

- É!!! Ganhei!!

- Quando?

- Ah, semana passada, pai! Mas eu ganhei! To milionário agora!

- E por que você quer tanto ser milionário?

- Ah, sei lá, mas agora eu sou!!

- Mas se você nem sabe o que você quer com um milhão, por que você jogou?

- Porque é bom ter dinheiro, né? Posso viajar, posso comprar um carro...

- Mas você pretendia viajar? Ou comprar um carro?

- Ah... Eu gostaria. E também podemos mudar de apartamento... Você sabe que uma parte do dinheiro vai pra você, né?

- Sei, quero dizer, agora eu sei, mas eu ainda não entendi isso. Da onde surgiu essa loteria, por que você jogou...? Esse dinheiro...?

- Pai: perto e casa tem uma loteria. Eu resolvi tentar essa vez. E funcionou! Aí eu ganhei um milhão. E ter um milhão é bom, porque nossa vida vai ser melhor. Você mesmo não queria comprar uma TV de LCD? Então! Fica feliz!

- É... sei lá. Você é que sabe.

- Ta. Boa noite.

- (Mudando o canal da TV) Ah, tá, boa noite.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Assalto moderno

- Oi, senhora, espero não está-la incomodando, mas assim... Se não for muito incômodo... se tudo bem pela senhora... É que... na verdade eu nem gostaria de estar fazendo isso, mas é que eu não tenho muito o que fazer mesmo. To perdido nessa vida, mal tenho o que comer, onde dormir... Se a senhora soubesse há quanto tempo eu não bebo uma água limpa... Então, por isso senhora. É... como eu posso dizer? Eu vejo que a senhora parece ser uma boa pessoa. O seu carro não é importado, e parece que nem ar-condicionado tem. Também reparei nas moedinhas que a senhora deixa separado... Imagino que faça caridades e essas coisas. Mas então, senhora, como eu ia dizendo, me desculpe mesmo, eu não gostaria de incomodá-la, mas, de boa, me passa a carteira e o celular se não vou ter que, infelizmente, usar a violência.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Um lugar de sonho

Lugar de conhecer estranhos, de se enfiar em almofadas, de receber abraços, de rir sabendo que tudo o que é bom dura o tempo necessário para se tornar inesquecível: meia hora... talvez duas.

Um ambiente meio estilo alternativo pseudo perigoso. Muita gente, gente feliz, gente que não julga, gente que só ama, só ama, só ama. Ama todo mundo, mas não porque está bêbado, mas porque todo mundo é amável todo mundo sorri todo mundo se quer se quer perto.

Lugar de ver o laranja. Pufes laranjas gigantes. Um monte deles, e um monte de gente jogada sobre eles. No meio tem um tapede vermelho, desses materiais aconchegantes. Tem gente deitada nele também. Só feliz. Sentindo-se abraçada. À meia luz, é tudo tão confortável que você sente o abraço de cada um só com o olhar. E, no mundo todo, não há nada melhor do que um abraço. Um abraço é um beijo que conforta o corpo todo. E sua sinceridade é mais fácil de ser sentida do que o beijo. Se você fechar os olhos e tentar ficar um bom tempo imaginando o abraço... não é preciso dizer, você sente. Respiro, penso no laranja, no tapete vermelho, nas pessoas que não julgam, nas risadas altas e gostosas, não de mim, e não necessariamente comigo. Mas que me envolvem de alguma forma. E sinto o abraço.

Queria que a vida inteira fosse só assim.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pérolas do 1o turno

Eleições 2008.

1º turno

7h30
- Senhora, por favor, aguarde aqui nesta sala. Não pode votar ainda, não começou.

- Mas é que eu sempre sou a primeira, quero ser a primeira.

- Tudo bem, senhora, a senhora será a primeira, mas ainda não. São 7h30, aguarde até as 8h, ok?

- Mas lá em cima já está cheio de gente.

- São pessoas que estão trabalhando. Aqui, por favor, sente-se.

11h (muita gente já votou, mas a sala está vazia)
- Olha, que legal! Vou ser a primeira a votar! Nunca fui a primeira a votar!

14h (ouvimos o som de prim duas vezes)
- Senhora
...
- Senhora, a votação já acabou, pode sair.

- Acabou já?

- Acabou. Já foram os dois barulhos, pode vir.

14h30

- Senhora
...
- Moça
...
- Moça, acabou, pode sair.
...
- Acabou, já foi, pode vir.

- Acabou? Mas eu só votei uma vez.

- Mas a máquina já apitou duas vezes, é porque você já votou duas vezes.

- Mas então está com problema.

- Não, você não ouviu dois barulhos? Um curto, quando vota pra vereador, e um mais comprido, quando vota pra prefeito.

- É vereador primeiro? Ixi, votei antes pra prefeito...

15h20

- Ai, esqueci o número do Kassab. Qual é?

- Desculpa, senhor, mas a gente não pode dizer.

- Mas qual é o problema?

- Não, é que a gente não pode dizer mesmo, mas se o senhor quiser perguntar pra qualquer pessoa da fila, ou ver lá fora...

- Mas sou eu que estou perguntando!

16h

- Oi, tudo bem com vocês? Então, o meu namorado já foi mesário e ele começou uma campanha de “Deixe o seu mesário feliz”. Então eu trouxe quatro bolinhos, vocês são em quatro, né? Olha, ta aqui.

--------------Faça parte você também da campanha “Deixe o seu mesário feliz”!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A ilustre visita do Governador

Naquele dia de verão, foi a vez de Pedro ser uma das oito pessoas que diariamente são assassinadas na cidade.

Foi a toa. Desse tipo de coisa que a gente nunca acha que nos pode acontecer. João estava no banco quando assaltantes invadiram o local e o fizeram refém. Ninguém achou mesmo que iriam matá-lo. Nem ele, nem sua família, nem a mídia, nem os policiais, nem a população. Mas mataram.

Ele não estava sozinho no momento de sua morte. Seu amigo José estava junto. Por algum motivo não divulgado, José também foi baleado. Talvez tenha reagido para salvar o amigo. A bala atingiu seu antebraço, que um dia depois, enquanto os médicos ainda tentavam salva a vida de Pedro, já estava intacto.

Com o assassinato na boca de toda a população, o governador achou melhor ir até o hospital prestar condolências ao amigo do morto. Achou-o deprimido e perguntou se podia fazer algo para ajudar.

- Gostaria de conhecer ao vivo a Daniela Cicarelli, respondeu José.

O pedido foi prontamente atendido. E eu ainda gostaria de saber como a Daniela Cicarelli diminuiria a dor de se perder um amigo. Mais: por que o amigo que teve um antebraço machucado merece a visita do governador e os amigos e familiares de todas as oito pessoas assassinadas por dia não merecem sequer uma carta de “Meus pêsames”?

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Calor

Tem muito sol na piscina do clube A Hebraica de São Paulo. E muita gente com muita energia. Corre-se muito lá, apesar do calor que amolece o corpo.

Muita criança, muita mãe, muitas sacolas e mochilas e toalhas. Muitas cadeiras, mas menos do que adultos e crianças e mochilas e sacolas.

Nessas cadeiras, repousam alguns homens, algumas mulheres, meia criança e uma infinidade de mochilas e sacolas que em nenhum momento tocam o chão.

Nesse chão, feito de plataformas de madeira, pelando, forrado por toalhas, dezenas de pessoas que chegaram depois das sacolas e mochilas tomam sol desconfortavelmente. Livros, bóias, revistas, protetores solares, jornais e celulares preenchem os poucos cantos vazios que restam.

Os livros, revistas e jornais abertos abafam um pouco o barulho. São de quem tem os dedos manchados com tinta de impressora, sensível a suor com protetor solar. As mochilas e sacolas, privilegiadas sob os poucos guarda-sóis, não suam nem têm protetor solar. Aquele lugar lhes pertence. Ninguém as enfrenta.

Dez cartazes cobrem as grades da área da piscina. Dizem "Não guarde lugar", mas só são visíveis a quem está no chão. Para quem está nas cadeiras e sob os guarda-sóis, eles desaparecem, como num passe de mágica.

Por todo o lado, um barulho que não tem começo nem fim. Pertencente à piscina, está sempre lá, e sempre igual, desde 1986, o mesmo barulho de água, mãe e criança. Na mesma intensidade, no mesmo tom, no mesmo ritmo, no mesmo cheiro de cloro com protetor solar lotados.

A piscina da Hebraica não é uma piscina. É um emaranhado apertado de gente seleta. O ar quente condensa arrogância, mas não atinge quem, mesmo no chão quente, com dedos coloridos de tinta e melado por suor, consegue sentir, com a ajuda do barulho infinito, um delicioso cheiro de infância.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O grito

Foi em Viena, numa manhã de verão, onde ouvi um grito desesperador. Certamente, foi o mais agudo, o mais apavorante, o mais estridente que já havia escutado na vida real e ao vivo.

Eu tomava o meu café-da-manhã sozinha. Eram já oito horas da manhã, e todos deveriam estar no refeitório do hotel de piso forrado com carpete avermelhado com estampas. Mas estavam atrasados.

Em todo o caso, me servi de café, iogurte de morango, pão, cream chease, um pedaço de bolo e alguma fruta. Estava meio infeliz com a comida. O legal de café-da-manhã em hotel grande é a variedade de frutas maduras, as porções de pão de queijo e os croissants de chocolate. Mas eu não estava no Brasil, e sim em Viena. As frutas eram sem-graça, ninguém sequer conhecia um pão de queijo e... não sei exatamente porquê, mas também não havia nenhum croissant de chocolate.

Fui para uma mesa vazia. Antes de me sentar, dei uma boa olhada ao redor para ter certeza de que ninguém havia chegado e, sem ter me visto, ido se instalar em outro lugar. Não vi ninguém, tive raiva, fiquei com vontade de dormir mais, fiquei com vontade de sair logo e ir explorar a cidade sozinha, sentei, comecei a cortar um melão branco e duro.

E então o escutei. O barulho. Era muito alto, não vinha do refeitório. Deveria vir do hall. Logo em seguida, alguém gritou “Help!!!”. Como todos os outros hóspedes, fiquei com medo e curiosa. Mais curiosa do que com medo. Mas ao contrário da maioria, não tive coragem de ir ver o que acontecera.

É impossível descrever o grito. Era certamente de uma mulher. E de dor. Certamente era de dor. Como se alguém tivesse sido esfaqueado, ou tivesse um membro do corpo amputado. Imaginei que um desses lustres enormes, estilo O Fantasma da Ópera, tivesse caído sobre alguém, que gritou e morreu. O carpete, agora, estaria banhado em sangue. Vai saber se a cabeça não estaria separada do corpo! Não, isso era demais. Mas uma perna era bem capaz... Não pude ver. E as pessoas do refeitório que iam olhar não voltavam! Deviam ter desmaiado com o que viram.

Ninguém dizia nada, minha família não chegava, a comida era ruim, eu queria ir embora, alguém tinha morrido, havia sangue no carpete do hotel... E minha irmã chegou.

- Oi, a mamãe não chegou ainda?

- Não, só estou eu.

- Eles devem ter se atrasado.

- É.

- Que que tem de bom pra comer?

- Nada. O iogurte ta razoável.

- Vou me servir.

- O que aconteceu lá?

- Onde?

- Lá fora.

- Como assim?

- Lá fora, no hall. Ouvi um grito. O que aconteceu?

- Ah, nada. Uma mulher escorregou e caiu. Machucou o braço. Deve ter torcido...

- Nossa, mas precisava gritar daquele jeito?

- Não sei, ela já tava caída quando eu cheguei.

- Que horror!

- Horror? Mas foi só um braço torcido.

- To falando do grito.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Dia do Perdão

Enquanto “rezam” com um livro na mão, o que passa pela cabeça de algumas (muitas) pessoas em algumas (muitas) sinagogas de São Paulo, em Iom Kipur – o Dia do Perdão?

Na ala das mulheres:

- Nossa, coitada da filha da Dona Betty, como está envelhecida!

- Olha como esse rabino é bonito... Será que é casado? Deve ser...

- Meu deus, mas isso não acaba nunca? Que enrolação!

- Fala que podemos nos sentar! Fala que podemos nos sentar! Não devia ter vindo de salto!

- Nossa, mas cada ano as pessoas vêm mais mal vestidas, não? Nem salto mais usam!

- Ih, esse penteado não ficou bom nessa senhora da frente... Talvez se ela desse uma tingida nos fios brancos...

- Não gostei dessa decoração. No ano passado tava mais bonita.

- Ai que fome... Acaba logo pra eu poder comer! Preciso comer! O jejum inclusive já deve ter acabado a essa hora... O que será que vai ter na casa da minha sogra? Podia ter lasanha... Hum... Uma lasanha cairia tão bem...

Na ala dos homens:

- Por que eu ainda venho de gravata? Por que inventaram a gravata?

- Essas meninas do coral já foram mais bonitinhas...

- Olha, o Elias ta aí. Com que carro será que ele veio hoje?

- Como as filhas do Nelson tão bonitas... Meu filho podia ir conversar com elas.

- Que bom que comprei esse lugares logo aqui na frente. Olha só, estou num dos melhores lugares. Que bom! Isso é que é ser bem-sucedido! Nem todo mundo consegue um lugar tão na frente!

- Acho que essa minha calça já ta muito velha. Ta até meio rasgada...

- Será que o Gabriel ta tomando bomba? Ele não era tão forte assim...

- Ai que fome... Acaba logo pra eu poder comer! Preciso comer! O jejum inclusive já deve ter acabado a essa hora... O que será que vai ter na casa da minha sogra? Podia ter lasanha... Hum... Uma lasanha cairia tão bem...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Em São Luis do Maranhão

Em São Luis do Maranhão, lá na pracinha clara às 8 horas da noite, os pratos de 70 reais para duas pessoas são vendidos como água a um real para turistas suados, fatigados e fatigantes. É vendido também um barulho, que os garçons dos restaurantes chamam de Música Ao Vivo. Cada um da mesa deve pagar cerca de 7 reais, querendo ou não ouvir o barulho.

O lugar também funciona à tarde. Mas se algum turista cansar de almoçar mini pizza de 15 reais, pode perguntar a algum moço de roupas rasgadas – obviamente um maranhense – onde é que ele costuma comer.

Ele então te indicará um lugar escondido, ainda que bem próximo. Indo em frente por ali, depois do restaurante com música ao vivo – Qual? Aquele ali? – Não. Aquele um pouco mais vazio. Não aquele, nem aquele ali... O das cadeiras com capas azuis. Esse. Indo em frente por ali, vira-se a segunda à direita. Depois primeira à esquerda, segunda à esquerda. O lugar parece uma casa. Tem que ir perguntando onde servem comida.

Ok. Frente, direita, esquerda – Estamos certo? Ele falou alguma coisa sobre uma feira com urubus? – Não. Mas deve ser por aqui. – Espero que não seja. São muitos urubus.

Chegando à provável rua certa, deve-se observar bem cada construção. Uma casa de tijolos mal construídos pode na verdade ser um restaurante. O prato custa 5 reais. Vem frango ou carne, arroz, feijão, macarrão e salada. Com exceção do frango ou da carne, o resto dá para duas pessoas. A Coca de dois litros sai quatro reais, mas o dono te oferece, caso você nunca tenha provado, um copo de suco de murici. Acha pouco um copo? Acredite, você não vai querer beber mais do que um gole. Ou melhor: vai se arrepender de ter dado um gole. Melhor gastar os quatro reais na Coca.

O negócio com o bom moço leva ainda vantagem em relação aos restaurantes da mini pizza porque lá não tem barulho – nem pago e nem de graça. No lugar, o simpático homem que te fez beber a pior coisa da sua vida bate um papo com os clientes. De onde são, o que fazem, como é a vida... Nada muito profundo, mas tudo muito gostoso.

Está dado o recado: quando for a São Luis do Maranhão, não deixe de almoçar no restaurante próximo à feira com urubus. Mas é melhor perguntar a localização exata, porque eu dei aqui direções aleatórias. A comida é boa e barata. Limpa, eu não posso garantir. Mas não tive nenhum problema intestinal, eu garanto. Apenas lembre-se de não beber suco de murici.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Uma valsa

Estava tão cansado. O ônibus chacoalhava tanto. Queria estar sentado. Dormiria. Ou talvez não: teria medo de perder o ponto.

Suas pernas não agüentavam mais o peso leve do corpo. Os joelhos estavam profundamente flexionados e os olhos, se estivessem abertos, enxergariam o próprio quadril, tal era a angulação da nuca.

Apenas um braço em contato com a haste deixara de ser o suficiente para garantir a permanência minimamente ereta do corpo. Agora, mão direita e esquerda agarravam uma das poucas barras verticais e, ainda assim, a cada freada do motorista, seu tronco era lançado com ferocidade para a direita.

O pescoço começou a doer. Apoiou então também a cabeça na haste, pouco abaixo das mãos. A boca aberta, a bochecha colada àquela estrutura que tantas mãos, limpas, sujas e imundas, seguram diariamente.

Se ele não ligava? Não sei se chegou sequer a perceber que quase a beijava. Que a abraçava como se fosse uma amante. Que a guiava como se fosse a melhor parceira de dança que já tivera, valsando ao ritmo das partidas e freadas.

De repente, aquele já não era o único par de dançarinos do salão ambulante. O corredor estava tomado por homens e mulheres, jovens e velhos, que, agarrados às armações verde amareladas, ou amarela esverdeadas, quando não cinzentas, mexiam o quadril para um lado e para o outro, retomando o equilíbrio com um pisar duro e preciso.

Quanto a mim, não me sobrou lugar para segurar. Fui a juíza do concurso, examinando atentamente cada dupla, desequilibrando-me constrangedoramente hora sobre dançarinos à esquerda, hora sobre dançarinos à direita.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O político desempregado

- Boa tarde a todos os senhores. Desculpe estar atrapalhando o conforto da viagem dos senhores, mas esta é a maneira que encontrei pela qual poderei estar pedindo uma pequena ajuda para os senhores para conseguir alimentar meus filhos.

Não me escondo atrás de minha doença. Nasci já cego, consegui estar trabalhando mesmo com esta minha deficiência, né, senhores, mas acontece que devido a essas condições de hoje, atualmente estou desempregado e infelizmente preciso de dinheiro para alimentar meus filhos. Sei, senhores, que tem muitas pessoas em condições iguais ou piores do que a minha, senhores, infelizmente. Nunca quis ganhar vantagem sobre ninguém, apenas quero alimentar meus filhos.

Assim, senhores, estou aqui, pedindo, por favor, uma pequena contribuições dos senhores. No caso de poderem me ajudar com uma ou outra moeda, de forma que isso não esteja afetando futuramente o bolso dos senhores. Como já disse, senhores, minha intenção não é ganhar vantagem sobre ninguém. Apenas alimentar meus filhos.

Obrigado. Obrigado. Deus te abençoe. Obrigado. Muito obrigado. Muito obrigado. Deus te abençoe. Muito obrigado. Obrigado Vai com Deus. Vai com Deus. Deus te abençoe. Muito obrigado. Obrigado. Obrigado. Obrigado. Deus te abençoe. Obrigado. Muito obrigado. Muito obrigado. Deus te abençoe. Muito obrigado. Obrigado Vai com Deus. Vai com Deus. Deus te abençoe. Muito obrigado. Obrigado. Obrigado. Obrigado. Deus te abençoe. Obrigado. Muito obrigado. Muito obrigado. Deus te abençoe. Muito obrigado. Obrigado Vai com Deus. Vai com Deus. Deus te abençoe. Muito obrigado. Obrigado. Obrigado. Obrigado. Deus te abençoe. Obrigado. Muito obrigado. Muito obrigado. Deus te abençoe. Muito obrigado. Obrigado Vai com Deus. Vai com Deus. Deus te abençoe. Muito obrigado. Obrigado. Obrigado. Obrigado. Deus te abençoe. Obrigado. Muito obrigado. Muito obrigado. Deus te abençoe. Muito obrigado. Obrigado Vai com Deus. Vai com Deus. Deus te abençoe. Muito obrigado. Obrigado.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Eu gosto de...

- Então, Flavia, quer dizer que você vai acampar com a gente? Quantos anos você tem?

- Seis.

- E sua irmãzinha, vai pro acampamento com você?

- Não, ela é muito pequena.

- Quantos anos ela tem?

- Quatro.

- Hum... E que brincadeira você mais gosta?

- Esconde-esconde.

- Esconde-esconde? E qual é a sua comida preferida?

- Batata frita.

- A minha comida preferida é sanduíche de queijo com presunto, milk shake, sorvete, macarrão, coxinha, croquete...

- Diana!! Ele não ta perguntando pra você, você não vai no acampamento!

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Método simples para dar ânimo aos estudos

Eu descobri que uma das pessoas que caiu neste blog procurava no google "Ficar animado para estudar". Não sei se essa pessoa voltará ao blog - creio que não - mas resolvi deixar registrado aqui a minha fórmula para ficar animada para estudar. Devo apenas dizer que ela pode gerar alguns efeitos colaterais, como aumento de peso e vício em joguinhos de computador.

Também não sei se funciona com qualquer um. Sou muito métodica, creio que por isso ajude comigo. Mas não custa nada tentar.

Trata-se de você ir se premiando conforme estuda. Se o estudo é a leitura de um texto de, digamos, 50 páginas, você estabelece que a cada 10 páginas você vai fazer uma pausa - de 2 a 5 minutos - para comer um chocolate, comer uma bolacha, fazer um micro lanche, ou jogar um joguinho no computador. Vale paciência, campo minado, free cell... Até coisas simples, como ver se chegou email, entram no intervalinho.

Atenção: O intrevalo deve ser curto. Por isso, pode-se fazer apenas uma coisa durante ele. "Ah, mas não perco nenhum tempo vendo meu email. Não posso ver e jogar paciência?" Não, não pode. Jogue paciência e deixe o email para as próximas 10 páginas.

Se você não curte nada dessas coisas, encontre algo que curta. Ligue para o namorado, ouça uma música, toque uma música, assista um vídeo no YouTube, entre no msn...

Se ainda assim estiver impossível ler as 10 páginas, mude para 5. Se o estudo for fazer exercícios, estabeleça o intervalo a cada 10 exercícios, ou 20, ou 5, dependendo da dificuldade. Se preferir, o intervalo pode ser estabelecido não de acordo com o número de páginas, mas de acordo com o tempo de estudo. Por exemplo: a cada meia hora, haverá um intervalo.

Vale atentar para o fato de que estudar é chato de qualquer jeito. Ainda com o método será chato ficar sentado lendo um texto quando tá passando um filme ótimo na televisão. Os intervalinhos apenas são um incentivo para continuar estudando. Para pensar "Só mais duas páginas, e vou comer um pedaço daquele bolo de chocolate".

Bons estudos, espero que funcione!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Querido Sol,

Sei que sua ausência estava sendo clamada por muitos brasileiros. Sei que não houve egoísmo algum em sua escolha de não comparecer hoje. Confio em você, sol. Sei que, no fundo, você só quer o nosso bem.

Mas sol! Como posso dizer isso? Sol! Preciso de você de novo. Você não entende?

Sem você, eu tenho preguiça. Sabe o que é preguiça? Provavelmente não. Você está sempre com tanta energia, não é?

Preguiça é uma vontade anormal de não fazer nada. De ficar em casa o dia inteiro, debaixo do cobertor, comendo e assistindo à televisão. Não! Isso não pode acontecer, não pode.

Primeiro, porque estou em ano de TCC e preciso ler um texto enorme pra uma faculdade, e um livro pra outra. Não tenho tempo para ficar debaixo do cobertor assistindo a televisão o dia todo.

Segundo, porque não tem nada de bom passando na tv. Tem a abertura das olimpíadas, mas que saco! Ok, é bonito, mas não compensa a voz irritante daquele cara que só fala besteira. E como demora... Mesmo com preguiça, não agüento tanto tempo de chineses batucando.

Terceiro, porque eu não posso passar o dia comendo. Domingo é dia dos pais, sabe o que isso significa? Muita comida. Muita mesmo. E foi tão difícil perder aqueles quilinhos... Não quero ganhar tudo de volta em apenas um dia.

Por isso sol, me ajude. Eu imploro, volte! Venha iluminar meu dia. Mande-me para a piscina. Fico sob os seus raios lendo o livro, ou o texto. Faça-me querer uma salada no lugar de um chocolate quente. Tire-me de casa! Passe a mim um pouco de sua tão abundante energia. Por favor, sol, por favor. Atenda a esse meu pedido egoísta. Só dessa vez...

Espero te ver em breve,

Com amor,

Diana

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Absurdos acadêmicos

Fabiana resolveu ir mais cedo para a academia naquele dia. Ela sabia que Marcela estava indo todos os dias de manhã, e como fazia tempo que não encontrava a amiga, resolveu arriscar, mesmo que de última hora e sem telefonar.

- Má!!!

- Fabi!!

- Que cara é essa, amiga?

- Ai, Fabi, to puta! – começando a chorar – Não agüento mais esse lugar. Odeio essa academia. Odeio essas pessoas. Quero ir embora.

- Calma, amiga, o que aconteceu? Eu to aqui. Vamos. Você vai fazer esteira agora?

- É, eu tava fazendo, mas me expulsaram de lá.

- Quem?

- Aquela imbecil de camiseta branca. Dez milhões de esteiras livres e ela tem que querer a que eu to! E que regra imbecil é essa de que tem que marcar horário? Porque ninguém me avisa dessas regras. Ai, que ódio!

- Você ta de TPM, né? Má! Chorar por que te expulsaram da esteira?

- Eu sei que é imbecil. Sei lá. Acho que eu não consigo brigar com as pessoas aí eu choro. Mas também não teria chorado se não tivesse te encontrado – riem.

- Bom, vamos fazer naquelas duas. Calma... Não tem jeito, aqui é assim mesmo, só que tinham que ter te avisado.

Começam a fazer esteira juntas.

- Então – se acalmando – uma vez me expulsaram da esteira já porque a mulher tinha pego a senha e foi se alongar. Aí eu peguei a esteira dela. Ok, já achei um absurdo porque eu já tava há um tempo e ninguém tinha me avisado nada de senha, mas a mulher tinha chegado antes. Só que hoje... Eu cheguei antes, só que não avisei que tava indo na esteira. Aí chega a menina, pede justo a esteira que eu to, e dão, porque eu não marquei??? Porra, não tão vendo que eu to lá??? Não dá na mesma do que ter marcado? Eu já tava lá! Há 10 minutos! Eu não paro a esteira nem pra beber água. Eu tava correndo, não posso parar, preciso melhorar minha resistência. Por isso eu acordei cedo. Aí vem uma imbecil e me tira de lá. E me mandam pra outra que nem tava funcionando! Sério, Fabi, eu não sei o que me revolta mais: esse sistema imbecil que tem que marcar que você vai pra esteira ou essas pessoas imbecis que expulsam você da esteira sendo que tem outras dez livres!

- Mas é importante marcar que você ta em alguma esteira, Má. Pensa: você sai pra ir no banheiro, volta, e tão na sua. E se não tiver outra livre? É chato, mas tem que ter isso.

- Então, com isso eu até concordo. Foi o que aconteceu da outra vez e eu só fiquei puta porque ninguém me avisou que isso existia aqui. Tinha que ter um aviso. Mas dessa vez... Eu cheguei primeiro. A menina chegou dez minutos depois de mim. Disse: eu quero ir na esteira 8. A mulher viu que tava ocupada. Mas como eu não avisei, ela falou pra menina me expulsar! É ridículo isso! Não faz nenhum sentido! O que importa que eu não disse “Estou indo na esteira 8”? Eu não to lá? Não cheguei antes? Que regras ridículas são essas? Vou reclamar, juro.

- De boa, Má, desencana. Não vai adiantar. E quem faz as regras nem são as mulheres lá da frente. O negócio e aderir ao sistema. Toda vez quando você chegar avisa que você está indo em determinada esteira. E pronto, isso não vai mais acontecer.

- Sabe o que eu vou fazer? Todo dia vou ver quem está na esteira e não marcou. E vou pedir a da pessoa. E vou fazer isso de 5 em 5 minutos, expulsando todo mundo. Fazendo todo mundo mudar de esteira. Essa que a gente ta é mais lenta? To correndo 10 km por hora. Na outra corro 9.

- Acho que não.

- É, a raiva me dá mais resistência.

- Ai, Má...

terça-feira, 22 de julho de 2008

Contanto que me seja conveniente

A jovem menina não se sente bem na escola de crianças ricas e mimadas que seus pais a matricularam.

Após dez anos estudando lá, ela percebe que talvez o problema não seja ela, e sim os outros. Ela se vê como o Patinho Feio. É sempre mais legal se ver como protagonista de uma história. Ela acha que é sim normal, mas não para aquele ambiente. Ela muda de escola, mas apenas porque os pais percebem que a outra não é boa para se entrar em uma boa faculdade.

Aí, na nova escola, mais da metade dos alunos se dizem comunistas e há boatos de que alguns professores são anarquistas. A menina se encontra – e só então, na realidade, ela percebe mesmo que era normal mas que estava no lugar errado. Aí ela percebe que tem outras pessoas que preferem Toquinho a Back Street Boys e que preferem ir para escola com calça de pijama do que com calça jeans. Ela fica mó feliz. E resolve que quer mudar o mundo.

Aí ela continua querendo mudar o mundo de alguma maneira. Aí ela participa de vários trabalhos voluntários. E gosta. Muito. Aí ela percebe que querer mudar o mundo é ambicioso demais, e passa apenas a querer fazer algo pelo mundo. Pequenas ajudas bastam.

Então ela termina o colégio. Começa cursinho. Não há mais trabalho voluntário para ela participar. Não há tempo. Então ela entra na faculdade. Há tempo, mas parece não haver trabalho. Ela vai deixando a ideologia para depois. Fica triste. Mas não faz nada. Mas não há o que fazer. Mas ela devia fazer algo. Mas o quê? Ir atrás, procurar. Sempre há o que fazer. Mas onde? Como? Deixa pra depois.

Aí um dia uma juíza acha que há sim uma forma simples de ela ajudar o país. É uma pequena ajuda, mas necessária. Trata-se de uma juíza eleitoral. E então a moça recebe a seguinte carta:

“Comunico que V.Sa. foi escolhido(a) para compor Mesa Receptora de Votos nas eleições de 05/10/2008 (...) Sua participação, juntamente com milhares de eleitores que foram convocados para esse fim, será de extrema importância para a lisura e transparência do processo eleitoral (...) Esclareço que o serviço eleitoral (...) é obrigatório (...) sujeitando-se a processo por crime eleitoral aquele que não se apresentar”.

A menina deveria dar pulos de alegria, certo? Ela sempre quis ajudar o país, não é? Então por que ficar desesperada? Por que a raiva?

Porque, no fundo, ninguém quer ajudar país nenhum, a não ser que lhe seja conveniente.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

O bom professor

Quinta-feira, (...)
..................................
"Caro Professor Geraldo Oliveira,

Sou estudante de jornalismo da Faculdade de (...) e eu estou fazendo um trabalho sobre a revista (...) q vc q criou.

Se trata de fazer analises sobre as primeiras 5 ediçoes, e para isso, seria otimo se vc pudesse me passar algum material...

A entrega do trabalho é na segunda-feira, e preciso fazer uma apresentação em power point com imagens de materias, das capas, numeros de vendas, analises comparativas... Tem como me passar para mim esse material por email?

Brigada,

Nathália"

Sexta-feira, (...)
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"Cara Nathália,

Possuo sim esse material, mas ele é muito pesado - não consigo mandar tudo em apenas um e-mail. Mesmo que conseguisse, não mandaria, pois estaria te passando cola, e o correto é que você mesma vá atrás da tarefa que foi proposta pelo seu professor. Afinal, o trabalho do jornalista consiste exatamente em pesquisas e apurações, e não vejo nada disso na maneira como você está agindo.

Se você tivesse entrado em contato comigo mais cedo, eu poderia ter recomendado que você fosse até a Editora da revista. Eu pediria então a Fátima, minha secretária, que já deixasse alguns exemplares separados para sua consulta.

Aliás, tratando-se de uma análise de uma revista criada por mim, seria interessante para o seu trabalho uma entrevista comigo, não?

Sugiro que você negocie com o seu professor uma nova data de entrega.

Bom final de semana,
Geraldo.

Ps.: encontrei em seu e-mail dez erros de português. Penso que você não esteja indo por um caminho muito acertado..."