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terça-feira, 26 de agosto de 2008

Como saber que ele é o grande amor, final

Cristhian e Fabiana se conheceram, se encontraram, saíram, casaram. Tudo isso já foi dito. É tão interessante saber passo a passo de como foi o primeiro encontro oficial, o primeiro beijo, a primeira briga, o primeiro sexo, a primeira viagem, quanto é interessante ouvir as histórias de amigos, ou ver novela, ou, em muitos casos, pensar na própria vida. Não que não seja interessante. Só não trás grandes novidades.

Então vamos direto ao ponto. Quero dizer, o que uniu esse casal. O que fez de Cristhian ser, como diz muitos títulos de textos deste blog, o homem da vida de Fabiana.

Porque, afinal de contas, ele não fazia mesmo o tipo da menina. Mas o que ela havia idealizado sobre ele fazia. Era charmoso, era independente, trabalhava, conhecia gente, freqüentava espaços alternativos... Nada disso era real. Isto era: ele era um metido, acomodado e dependente financeiramente do pai. Não era de todo mal pessoa, mas que não tinha nada a ver com o que Fabiana esperava, ah, isso não tinha. Bem como Fabiana não tinha nada a ver com a última namorada de Cristhian, Samantha, a mulher de sua vida, que ele jamais esqueceria, e nem aceitaria o fato de ela estar casada com outro.

Mas Cristhian era do tipo que não queria fazer feio perto dos amigos. Por isso terminara com Samantha. Ela era feia. Tinha um nariz muito grande. Os amigos tiravam sarro dele. Não o invejavam. Já Fabiana... Ah, como o invejariam se namorasse Fabiana. Nem era preciso namorar. Apenas se o vissem perto dela já o invejariam. Inclusive, no primeiro encontro – isso ale a pena relatar – Cristhian já treinava maneiras de abraçá-la, de forma a deixar os amigos... Com os nervos à flor da pele, digamos.

E Fabiana... Fabiana queria ser atriz. Tinha esse sonho antigo, que nunca havia compartilhado com ninguém. Porque tinha vergonha, se achava boba. E também porque tinha medo de que começassem a insistir para que ela fosse fazer aulas de teatro. Ela odiava teatro. Queria apenas brilhar. Ser famosa. Dar autógrafos. Beijar atores lindos “tecnicamente”. Era o que ela queria.

Nunca havia pensado que fosse possível realizar seu sonho até conhecer Cristhian. Era perfeito. Ele ficava famoso, rico, ela se casava com ele, e estrelava seu filme. Protagonista. Podia ser par do Antonio Banderas, nada mal. Simples. Bem simples.

Então se uniu o útil ao útil, e o agradável ficou para fora do casamento. Seria por essa época, quando Fabiana começou a procurar por esse “agradável”, que Ângela receberia o perdão da filha.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A chave do carro (Como saber que ele é o grande amor, parte 6)

Fabiana inspirou fundo, levantou para ir embora da biblioteca da FAU.

- Quer dizer que você vem até aqui, me vê, e vai embora sem falar comigo?

Era Cristhian, atrás dela. Ela ainda se lembrava da voz dele. Virou-se:

- Eu te conheço?

- Ah, agora vai fazer que não lembra de mim.

- Não lembro mesmo. Hum, se bem que acho que já vi você em algum lugar sim... Esse jeito esnobe de falar... Você não é o cineasta falido que apareceu no café...?

- Claro que sou ele. E você viu meu filme, se identificou, e veio me encontrar?

- Filme? Não entendi nada do seu filme das meias dançantes.

- Não esse. Fiz outro! Por que to falando isso, é claro que você ta se fazendo e boba.

“Shhhhhh” – escutaram.

- Bom, licença que eu vou embora. Tchau – e, sabiamente, lançou a Cristhian um olhar desdenhoso, com uma pitada de dó. Como se dissesse: “Melhor procurar um médico”.

- Ah, não, não é possível.

“SHHHHH”

Cristhian seguiu-a até a saída. Fabiana correu um pouco em direção a seu carro, depois ficou parada olhando para dentro da bolsa, como se procurasse suas chaves.

- O velho truque de procurar as chaves...

- Ah, não... Me deixa em paz, vai...

Cristhian baixou a guarda. Disse, delicadamente:

- É isso que você quer? Mesmo? Se é isso que você quer, então vou me convencer de que foi mera coincidência mesmo eu ter te encontrado por aqui.

- Não!

- Não?

- Você não me ajudou com as revistas. Pronto, falei.

- Claro que não! E perder a oportunidade de te ver agachada com essa saia?

- Agora eu vou embora.

E saiu em direção ao carro dessa vez para partir de verdade. “Ele é um babaca mesmo, a Má tinha razão”. Mas, agora sim, não encontrava a chave.

- O quê? Não sabia que além de ingênua você era hipócrita. Você usa uma saia que bate na coxa para quê, se não é pra mostrar as pernas. Hoje não ta tão quente assim não...

Fabiana continuou com a cabeça enfiada dentro da bolsa.

- Ok, desculpa... Olha, eu e você viemos aqui hoje pelo mesmo motivo. Eu gosto de você. Você gosta de mim. Já ta evidente não ta?

- Não. E achei que pudesse gostar de você. Agora tenho minhas dúvidas.

- Ótimo! Então é melhor acabar com as dúvidas. Vem, vamos tomar um café...

Fabiana ficou tentada a aceitar o convite. Mas no momento estava muito pouco a vontade com a micro saia.

- Agora eu não posso. Tenho compromisso.

- Amanhã, sábado?

- Pode ser. Tchau.

- E seu telefone?

- O que é que tem?

- Preciso te ligar.

- Não precisa, só se você quiser.

- É, eu sei.

- Grosso!

- Que foi?

- Nada. Vai, deixa eu te falar logo meu telefone, antes que eu mude de idéia.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A biblioteca da FAU (Como saber que ele é o grande amor, parte 5)

- Se você até me citou Kafka, amiga, eu vou.

Fabiana foi na segunda-feira seguinte até a biblioteca da FAU. Nunca tinha estado lá, e ficou surpresa com a quantidade de estudantes sentados em frente a grandes volumes abertos. Sentiu-se uma péssima estudante.

Também não estava muito à vontade. Havia caprichado muito na roupa e na maquiagem e, claramente, não pertencia àquele lugar.

Então, na mesa de estudos mais central, avistou Cristhian. Pegou uma revista de decoração francesa – a primeira que viu – e sentou-se na mesa da frente, como se não o houvesse notado.

Como aparentemente o rapaz estava muito entretido com um livro de cenários, ela achou melhor passar mais tempo escolhendo uma revista. Quem sabe o excesso de tempo que uma menina poderia passar em frente a uma pequena estante não chamaria atenção...

Deve ter ficado em pé, parada, por cinco minutos. Então teve a brilhante idéia de jogar algumas revistas no chão, acidentalmente, claro. Um segundo depois já não achava a idéia tão brilhante assim, pois não apenas Cristhian, mas toda a biblioteca voltou os olhares a ela, a menina barulhenta e desastrada.

Achou a idéia menos brilhante ainda quando percebeu que deveria ficar agachada com sua micro saia para retirar as revistas do chão. Teve a esperança de que alguém a ajudasse, mas ninguém se manifestou.

Voltou a se sentar, sem compreender porque Cristhian não fora falar com ela, apesar de certamente tê-la visto. Ficou envergonhado, só podia ser. Talvez não gostasse da forma como ela havia se vestido. Achou-a feia, devia ser isso. Lembrava ela bonita e agora que vira a verdadeira Fabiana desiludiu-se.

Ah, não. A culpa era toda de Marcela. Hoje mesmo iria tirar satisfação com a amiga. Afinal, não era a ela que Cristhian se referia no filme, mas talvez àquela menina estranha sentada ao lado dele.

Queria morrer. Era como se o livro de sua vida fosse queimado, e o príncipe encantado tivesse deixado de existir. Pior: ainda existia, mas não era mais dela.

Inspirou fundo, levantou para ir embora.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

E se morrer?

Dia após dia, Karina ia conversando consigo mesma sobre tudo o que via e ouvia.

Um dia, já com 15 anos, voltando do colégio para a casa, distraída com o pensar, atravessou a rua sem perceber o semáforo aberto aos carros.

Deu sorte. Justo naquele momento, apenas um carro estava passando, e não em uma velocidade suficientemente rápida que o impedisse de desviar da menina.

Houve buzinas. Mas nenhum acidente.

- Que louca. Nossa. Essa foi por pouco. Já pensou? E se eu tivesse sido atropelada? Até que não seria tão mal... Tem prova de matemática amanhã, eu não precisaria estudar. Se fosse feio, e eu morresse, nunca mais ia precisar estudar. Mas, pensando assim, que seria bom morrer, eu mesma poderia me matar, não precisaria de um carro pra fazer isso. Sem contar que se eu morresse atropelada, o motorista poderia ser preso, ficar traumatizado, e tal. Não. E se ele tiver uma filha? Coitada... Eu não ia gostar se minha mãe fosse presa só por que uma menina não quis estudar pra prova de matemática do dia seguinte. Quanto egoísmo! Seria horrível se minha mãe fosse presa por isso... O pior é que não é tão improvável assim acontecer. Acidentes de carro acontecem o tempo todo. O bom é que minha mãe não dirige, mas a Dona Ângela. Ai, já pensou se neste momento a Dona Ângela está se envolvendo em algum acidente de carro. Tudo ficaria muito diferente se a Dona Ângela morresse. Espero que não aconteça nada. O que poderia acontecer também é de o motorista que quase me atropelou ter ficado bravo. Vai ver agora mesmo ele está bem atrás de mim prestes a me lançar um tiro nas costas. Prefiro morrer a ficar um vegetal. Posso ficar paralítica também. Não sei se prefiro.

Chegou a casa e o pensamento deu um tempo com as distrações da hora do almoço. Karina nem se deu conta de quão macabros poderiam ser seus pensamentos. Ela não desejava morrer. Tampouco gostaria que algo de ruim acontecesse à sua mãe ou a Ângela. Ela simplesmente ia pensando, sem temer a morte. Ou melhor, temer a morte, até que ela temia. Só que, em momentos como esse, ela não estava preocupada com nada. Apenas pensava suposições. E achava normal.

Dia após dia, passou a imaginar formas improváveis de ser morta. Ou de que alguém próximo a ela o fosse. Cair no metrô, levar um tombo, pegar câncer, ser mordida por um cachorro...

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A incerteza é sempre um tormento (Como saber que ele é o grande amor, parte 4)

- Não, amiga. Semana que vem.

Fabiana passou uma semana procurando críticas sobre o filme na internet. Descobriu que era romântico, e que seria mais agradável ao público do Cinemark do que ao do Espaço Unibanco. Desde quarta-feira já tinha em mente qual roupa usaria. Só não estava certa quanto ao brinco e ao perfume. Afinal, ele poderia aparecer por lá.

Foi surpreendida pelo pai algumas vezes falando sozinha.

- Ai, claro que ele não vai. Já faz mais de uma semana que o filme estreou. Nem sei porque vou assistir... Mas talvez... Né? Se ele estiver me procurando...

O sábado chegou. Foi buscar Marcela e, duas horas antes de começar a sessão, já tinham os ingressos em mãos.

- Duas horas, Fabi?

- Desculpa, Má, me enganei. Achei que fosse mais cedo – mentiu.

Ficaram no café até entrar no filme, do qual saíram, duas horas depois, assustadas, perplexas, ansiosas, entusiasmadas, curiosas, duvidosas. Atormentadas. Marcela foi quem quebrou o silêncio.

- Você acha que...

- Não pode ser, né?

- Mas é tanta coincidência.

- Mas vai saber quantas meninas ele não encontra falando mal de um filme dele.

- Em um café. E uma faz arquitetura, e chama Fabiana...

- E ele promete escrever quando será o lançamento do novo filme no cardápio e não consegue...

- Só porque agora os cardápios são plastificados e.

As duas se olharam. Correram até o café. Sim, os cardápios estavam plastificados. Não era possível. Fabiana não se achava tão atraente assim para tornar-se personagem principal do filme de um diretor que conheceram por apenas 2 minutos. Não podia ser. Mas a história de como haviam se conhecido, os diálogos... Tudo tão igual. Será?

- Só tem um jeito de a gente descobrir?

- Como?

- Continuando o filme. Faz sentido, Fabi. O cara conhece a menina. Não consegue encontrá-la...

- Ele sabe que todo sábado estamos aqui.

- Vai ver ele só quer te encontrar se tiver certeza de que você também quer vê-lo. Homem!

- É. Mas isso significa que... a biblioteca da FAU?

- Acho que sim. Se no filme o cara passa todas as manhãs de segunda-feira na biblioteca da FAU na esperança de um dia te encontrar...

- Encontrar a menina.

- Tanto faz. E com certeza ele não passa de fato todas as segundas lá. Talvez desde que estreou o filme.

- To achando isso meio estranho, Má. Sei lá. Qual a chance de eu ter sabido do filme e assistido?

- Mas seria muita coincidência. Não custa tentar. Além do mais, se você não for, vai ficar pra sempre se perguntando. Acaba logo com a dúvida.

- Você acha?

- “Mesmo a mínima incerteza no assunto mais insignificante é sempre um tormento, e quando é fácil eliminá-la, como neste caso, então é melhor fazê-lo o quanto antes”.

- Drummond?

- Kafka.

- Se você até me citou Kafka, amiga, eu vou.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Como saber que ele é o grande amor, parte 3

Mais de um ano havia se passado desde a situação embaraçosa que Marcela e Fabiana tiveram com o diretor brasileiro no café. Também mais de um ano havia passado desde que Fabiana resolvera sempre dar uma olhada no cardápio, mesmo que, afinal de contas, o pedido sempre fosse:

- Um expresso puro, por favor.

A menina mantinha a esperança de que o cineasta deixasse algum aviso sobre seu novo filme entre o preço de um capuccino e o de um chá quente.

- E aí? Alguma mudança no cardápio dessa vez? Quem sabe um café com licor de frutas vermelhas, marshmallow e castanhas?

- Quê?

- Poxa, faz uns dois anos que a gente vem aqui. Você sempre pede a mesma coisa. Mas toda vez fica olhando o cardápio e TODA vez fica com essa carinha emburrada.

- Não fico nada.

- Fica sim. Se você quer alguma coisa especial, pede pro garçom, talvez tenha. Ou a gente pode começar a ir em outro café, tem um legal

- NÃO! Não, eu gosto daqui.

- Ta bom...

- É que... Ai, ta bom. Você vai me achar uma idiota, mas ok. Lembra do Cristhian?

- Cristhian?

- É, o diretor daquele filme que a gente encontrou faz mó tempo...

- Ah, sei. Aquele babaca.

- É, então. Ele disse que ia fazer outro filme, e que deixava um aviso no cardápio. Por isso, eu sempre procuro um aviso, mas nunca tem nada!

- E por que você estaria interessada no novo filme dele?

- Não sei. Nem é no filme que eu to interessada.

- Hum...

- Não é isso! É que se ele falou que ia deixar anotado no cardápio, por que não deixou? É ridículo isso! É como pedir o telefone e depois não ligar! Não pede o telefone, então!

- Ah, sim, a mesma situação mesmo. É. Igualzinho. Mas bom, eu não tinha te falado porque não achei que você fosse se interessar tanto. O novo filme dele entrou em cartaz semana passada. Chama... Como saber que ela é o grande amor. Criativo ele, não? O de antes era Como saber que ele... Agora é ela. A gente pode ir semana que vem.

- Ah, também, não é que eu faça questão de ir no filme, só fiquei brava por causa da história do cardápio.

- Fabi. Nós vamos. Aposto que por você a gente iria agora.

- Quer?

- Não, amiga. Semana que vem.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Absurdos acadêmicos

Fabiana resolveu ir mais cedo para a academia naquele dia. Ela sabia que Marcela estava indo todos os dias de manhã, e como fazia tempo que não encontrava a amiga, resolveu arriscar, mesmo que de última hora e sem telefonar.

- Má!!!

- Fabi!!

- Que cara é essa, amiga?

- Ai, Fabi, to puta! – começando a chorar – Não agüento mais esse lugar. Odeio essa academia. Odeio essas pessoas. Quero ir embora.

- Calma, amiga, o que aconteceu? Eu to aqui. Vamos. Você vai fazer esteira agora?

- É, eu tava fazendo, mas me expulsaram de lá.

- Quem?

- Aquela imbecil de camiseta branca. Dez milhões de esteiras livres e ela tem que querer a que eu to! E que regra imbecil é essa de que tem que marcar horário? Porque ninguém me avisa dessas regras. Ai, que ódio!

- Você ta de TPM, né? Má! Chorar por que te expulsaram da esteira?

- Eu sei que é imbecil. Sei lá. Acho que eu não consigo brigar com as pessoas aí eu choro. Mas também não teria chorado se não tivesse te encontrado – riem.

- Bom, vamos fazer naquelas duas. Calma... Não tem jeito, aqui é assim mesmo, só que tinham que ter te avisado.

Começam a fazer esteira juntas.

- Então – se acalmando – uma vez me expulsaram da esteira já porque a mulher tinha pego a senha e foi se alongar. Aí eu peguei a esteira dela. Ok, já achei um absurdo porque eu já tava há um tempo e ninguém tinha me avisado nada de senha, mas a mulher tinha chegado antes. Só que hoje... Eu cheguei antes, só que não avisei que tava indo na esteira. Aí chega a menina, pede justo a esteira que eu to, e dão, porque eu não marquei??? Porra, não tão vendo que eu to lá??? Não dá na mesma do que ter marcado? Eu já tava lá! Há 10 minutos! Eu não paro a esteira nem pra beber água. Eu tava correndo, não posso parar, preciso melhorar minha resistência. Por isso eu acordei cedo. Aí vem uma imbecil e me tira de lá. E me mandam pra outra que nem tava funcionando! Sério, Fabi, eu não sei o que me revolta mais: esse sistema imbecil que tem que marcar que você vai pra esteira ou essas pessoas imbecis que expulsam você da esteira sendo que tem outras dez livres!

- Mas é importante marcar que você ta em alguma esteira, Má. Pensa: você sai pra ir no banheiro, volta, e tão na sua. E se não tiver outra livre? É chato, mas tem que ter isso.

- Então, com isso eu até concordo. Foi o que aconteceu da outra vez e eu só fiquei puta porque ninguém me avisou que isso existia aqui. Tinha que ter um aviso. Mas dessa vez... Eu cheguei primeiro. A menina chegou dez minutos depois de mim. Disse: eu quero ir na esteira 8. A mulher viu que tava ocupada. Mas como eu não avisei, ela falou pra menina me expulsar! É ridículo isso! Não faz nenhum sentido! O que importa que eu não disse “Estou indo na esteira 8”? Eu não to lá? Não cheguei antes? Que regras ridículas são essas? Vou reclamar, juro.

- De boa, Má, desencana. Não vai adiantar. E quem faz as regras nem são as mulheres lá da frente. O negócio e aderir ao sistema. Toda vez quando você chegar avisa que você está indo em determinada esteira. E pronto, isso não vai mais acontecer.

- Sabe o que eu vou fazer? Todo dia vou ver quem está na esteira e não marcou. E vou pedir a da pessoa. E vou fazer isso de 5 em 5 minutos, expulsando todo mundo. Fazendo todo mundo mudar de esteira. Essa que a gente ta é mais lenta? To correndo 10 km por hora. Na outra corro 9.

- Acho que não.

- É, a raiva me dá mais resistência.

- Ai, Má...

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O fim

Nunca mais Ângela viu Gustavo. E a conversa com Rodrigo também não existiu. Não porque o marido tivesse ficado muito decepcionado, coração partido, nada disso. Em verdade, o ocorrido foi um felicíssimo acaso para ele, que há quatro anos mantinha uma amante, a quem, havia dois anos, havia prometido que terminaria o casamento.

Mas, como a todo homem, faltava-lhe coragem. Fora o medo que tinha de que os filhos ficassem do lado da mãe, o que certamente aconteceria. Ângela, porém, deixou tudo mais simples. Agora ele saía como bom homem de coração partido e com o apoio dos filhos. Não precisaria mais agüentar a mulher, a amante ficaria felicíssima com a notícia e só teria que aguardar uns três meses mais para poder mostrar a cara sem o risco de que alguém desconfiasse que a relação existia há muito mais tempo.

Rodrigo, em suma, se deu bem.

Já Ângela perdeu o amigo que tanto amava, que tanto queria que virasse amante, mas que havia rejeitado, em nome de sua família. Família que ela perdeu também. Os dois filhos foram, naquele dia, dormir em casa de amigos. E não voltariam mais para casa, se não uma vez ou outra para pegar alguma coisa.

Odiavam a mãe. Mais do que tudo. E idolatravam o pai.

Ângela chegou a pensar em suicídio. Não teria coragem. Tentou ligar para Gustavo todos os dias durante um mês. Até que tomou coragem e perguntou a Dona Inês o que tinha acontecido com o filho.

- Mudou de telefone. Eu te entendo, Ângela, não te condeno pelo que fez, pela sua escolha. Mas esquece meu filho. Ele mesmo não quer te ver nem pintada.

Ela chorou por dois meses seguidos, sem ninguém para consolá-la. Ninguém.

A não ser Karina, a filha da empregada.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Aniversário sem bolo

Era o aniversário de Ângela. Haveria, como sempre, um bolinho em casa para a família, após o jantar. A tarde seria a mesma de todos os dias, se não fosse por uma ligação de Gustavo:

- Depois da aula eu vou te buscar. Quero ficar com você essa tarde toda.

Acabou a aula. Ângela saiu. Avistou seu amado com flores e bombons. Achou arriscado. Chamava muita atenção.

- Minha mãe sabe de tudo, já.

Ângela não gostou nem um pouco da situação. Ou melhor, um pouco, ela se derreteu. Flores e chocolates nas mãos do homem que amava... Mas as pessoas iriam falar. Isso não podia ser bom.

- Não mereço um beijo?

Ainda isso! Um selinho. Rápido. Depois de ver se ninguém estava olhando.

- Só isso?

- Eu tenho marido!

- Mãe! – gritou uma voz ao longe.

Por um infeliz acaso, marido e filhos resolveram fazer uma surpresa à mãe naquele ano. Não, eles não viram o beijo. Em verdade, não viram nada que pudesse comprometer Ângela, a não ser as flores e bombons em sua mão e sua cara de surpresa desagradável quando os viu.

- Quem é você? – perguntou Rodrigo, mais preocupado com o fato de ser um corno do que por estar perdendo a mulher.

- Sou... Um amigo de Ângela. E você?

- O marido! Um amigo que dá flores e bombons? Ângela, há quanto tempo você decidiu fazer outras amizades, hein?

Ângela não sabia que o beijo não havia sido visto. Ficou com medo de garantir que eram apenas amigos e ouvir esfregarem-lhe na cara o beijo. Sem saber o que dizer, respondeu:

- Não é nada.

- Ângela, chegou a hora – disse Gustavo.

- Hora de quê? – perguntou Rodrigo.

- E então, Ângela? O que vai fazer?

- Hora? Eu também não sei que hora ele ta falando. Mas sei que é hora de falar pra esse cara aí parar de ficar me mandando flores e bombons. Ele não entende que seu amor não é correspondido!

Todos olharam perplexos. Fabiana, que estava sendo consolada pelo irmão, por um instante voltou a acreditar na mãe.

- Não precisa vir buscar as calcinhas que você deixou na minha casa. Eu deixo na sua portaria.

E pronto. A choradeira voltou. Rodrigo virou as costas. Ângela foi atrás dele gritando que era mentira. Ele pediu para conversarem em casa, pois já haviam chamado muita atenção. Deu dinheiro para que Ângela pegasse um táxi.

Quanto a Gustavo, foi o fim da relação. Nunca mais Ângela o viu.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Outro amor

Marcaram uma noite em que Gustavo provaria a ela que seu chocolate quente com conhaque ultrapassava de longe aquele drink com licor de café que Ângela, enquanto bebia, dizia ser a melhor coisa do mundo.

Tiveram a noite. E muitas outras. Apenas como belíssimos amigos, que se amavam cada dia mais. Passaram a ser necessários um para o outro. Ângela queria beijá-lo como nunca quis beijar ninguém antes. Era como se ela finalmente entendesse porque amantes se beijavam – até então, para ela, o beijo só acontecia por uma convenção social: quando um e outro se gostavam, um e outro se beijavam. Simples assim.

Mas com Gustavo... Como ela queria beijá-lo! Precisava beijá-lo! Mas não, tinha marido, tinha filhos. Amava os filhos. Amava o marido. Amava? Talvez não amasse tanto assim quanto pensava. Sempre achara que o sentimento que tinha era de amor, mas não. O que sentia por Gustavo, isso sim, era amor. Só podia ser. Mais que amor.

- O que está pensando? – perguntou Gustavo enquanto dava para ela provar um pedaço de pão com fondue.

- Que é o melhor fondue que eu já comi.

- Antes disso, engraçadinha.

- Que eu te amo como nunca jamais amei ninguém. Que eu quero ser toda sua, e quero poder te chamar de meu. Que, apesar de esse ser o melhor fondue do mundo, o que eu mais queria era desmanchar toda essa linda mesa e me entregar para você. Aqui. Já. – pensou. E respondeu: - Que eu te amo.

- Eu também te amo – respondeu Gustavo com a maior naturalidade – Por isso não entendo porque você não deixa eu beijá-la. Quero tanto...

- Não entende? Eu sou casada!

- E daí? Descasa. É tão simples. Você já mal vê seu marido. Qual a diferença?

- Não posso. Eu não sou assim. Tenho filhos!

- Puxa, agora você tocou em um ponto importante – irônico – hoje em dia uma mulher com filhos que se separa pode até ir para prisão!

- Seu bobo.

Riram os dois. Deixaram o assunto pra lá. Comeram. Beberam. Passaram mais uma noite maravilhosa, sem que a intimidade física passasse de um abraço. Ângela sentia-se uma garota boba e sonhadora. Gustavo começava a pensar que sua amada jamais cederia, e que logo ele acabaria se rendendo, mais uma vez, às moças fúteis do clube que sempre se jogavam sobre ele. Por isso, ao se despedirem, disse:

- Não quero ser o destruidor de famílias. Mas te amo e sei que você me ama. Sei que te faço feliz. Sinto isso. Mas me sinto um idiota toda vez você vai embora, encontrar seu marido. Eu... Não sei mais o que te dizer. Pense no que eu te falei, ta bom? Não quero ser um idiota esperando uma mulher que nunca vai corresponder completamente.

- Você não é idiota.

- Então me beija.

- Não posso. Já expliquei.

Gustavo a beijou. Ângela sentiu seus joelhos afrouxando. Agarrou-se ao pescoço do amado. Pediu desculpas. Foi embora.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Uma vontade anormal de ser abraçada

Vamos sair de novo sim. Semana que vem. No mesmo horário.

Seis dias depois, à noite, Ângela mal conseguia dormir pensando no encontro. Ou melhor, no... café. Afinal, era só um café. Não era um encontro. Era um café com um amigo. Que bobagem. Apenas um café.

Sentiu vontade de comentar a história com o marido, mas teve medo de que ele se irritasse e proibisse o programa, que Ângela mal via a hora de acontecer, tão ansiosa estava. Ansiosa, aflita, feliz.

Dez minutos antes de a aula acabar, sentia a boca seca, o estômago vazio, um frio estranho, uma vontade anormal de ser abraçada.

- Está melhor hoje?

- Estou, mas sabe que coisa estranha? Sinto minha boca seca, o estômago vazio, um frio estranho, uma vontade anormal de ser abraçada.

Ângela disse assim de impulso. Assustou-se com sua súbita honestidade. Constrangeu-se.

Gustavo fazia isso com ela. Ele via através dela, que nada podia – e nem queria – esconder.

- Vamos ver então... Garçom, uma água, é..., dois pedaços de bolo...

- Bolo? Mas eu não...

- Não ta com um vazio no estômago?

- Não sei. Não é bem isso.

- Ih, mulheres! Só a água então.

- Sim, senhor.

- Agora, o frio a gente resolve também com um abraço.

E, dizendo isso, arrastou a cadeira para perto da de Ângela. Envolveu-a em seus braço por dois longos minutos.

- Melhor agora?

- Como não? Depois de um abraço desses... Estou ótima!

- O frio passou?

- Passou.

- E a fome?

- Hum...

Os dois riram.

- Doce ou salgado?

- Por que não doce e salgado?

- Vejo que alguém acordou mais disposta hoje. Adorei!

Conversaram. Riram. Comeram. Beberam. Ficaram alegrinhos. Se abraçaram mais. Falaram sobre bebidas. Sobre comidas que combinavam com bebidas. Sobre bebidas que combinavam com comidas. Marcaram uma noite em que Gustavo provaria a ela que seu chocolate quente com conhaque ultrapassava de longe aquele drink com licor de café que Ângela, enquanto bebia, dizia ser a melhor coisa do mundo.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Entrando na rotina

Também, não é que Karina tenha virado a Gata Borralheira. Nem que tenha se tornado odiada pela família que tão bem a recebera.

Aos poucos, o assunto de ela não gostar de estudar foi sendo esquecido. Era sinceramente bem quista por todos. Almoçava com todos, assistia à televisão com todos. Isto é: só quando mostrava a Ângela que havia terminado o dever.

Estava feliz.

Falava com os pais verdadeiros, pelo telefone, uma vez por mês. Poderia ser mais, mas a tia achou melhor assim, para facilitar o rompimento.

Não manteve contato com ninguém da velha escola. Mas não tinha saudades. Os colegas foram substituídos um a um por outros novos, correspondentes. Às vezes combinavam de, após o almoço, encontrarem-se do Parque do Ibirapuera para jogar bola. Meninos e meninas, juntos. O Parque era próximo à escola e, por isso, não havia problema em irem sozinhos, sem adultos.

Às mil maravilhas. Boa rotina. Até um passeio ao Hoppy Hari já estava programado para agosto, quando Karina faria 11 anos. Desenho animado. Danoninho. Espelhos. Chocolate À vontade. Amigos. Atenção e proteção.

A única dificuldade eram as tarefas da escola. Iam ficando mais e mais complicadas a cada semana. Fabiana a ajudava bastante, é verdade. Mas não tinha uma didática boa. No início de junho, quando a semana de provas estava para começar, Ângela achou melhor chamar um professor particular, só para garantir. Karina achou desnecessário, mas compareceu à aula – fisicamente, apenas.

O professor de nada se queixou. Se dissesse que era inútil forçar a menina a estudar, deixaria de receber 200 reais por apenas 4 horas de trabalho. Ficou quieto. Karina também. Chegou a semana de provas. As notas da pequena foram 5 ou 6 em todas as matérias. A mãe ficou satisfeita, Ângela recomendou o professor para todas as amigas que tinham filhos com problemas no colégio.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Primeiro encontro

Estava certa de que seria incapaz de trair o marido. Ainda mais porque nem haveria ocasião para encontrar-se com Gustavo novamente.

Mas a oportunidade não tardou a aparecer. Duas semanas depois, Gustavo foi buscar Dona Inês na aula. Ela tinha médico. Mas justo a Dona Lourdes, uma colega, morava exatamente na rua do médico.

- Ângela, vou de carona com a Dona Lourdes. Quando meu filho chegar diga isso a ele, que não é preciso se preocupar.

- Não é melhor ligar para ele?

- Não, porque se não ele vai dizer que não, que ele me leva, que não confia em mim...

- Está bem.

Gustavo chegou dois minutos depois que Dona Inês partia. Encontrou Ângela. Sorriu. Ela deu o recado. O sorriso desapareceu.

- Bom... Já to aqui... Toma um café comigo?

- É... Claro, por que não?

Foram tomar um café. Ângela não acreditava como era possível um homem tão bonito, filho tão dedicado, tão inteligente, tão simpático... Não ser casado. Queria tê-lo conhecido antes. Precisava de um amigo assim. Tão bom ouvinte. Era tão preocupado. Olhava nos olhos quando falava. E como falava. E a boca. Devia beijar tão bem, se ao menos pudesse se aproximar mais de seus lábios e. Não. Que é isso, Ângela. Comporte-se. Você é uma mulher casada, tem filhos...

- Está tudo bem? Você ficou pálida de repente.

Ah, e como ele repara nas emoções de uma mulher.

- Está. Só acho melhor eu ir embora.

- Bom, você que sabe. Mas aí você vai ter que aceitar tomar outro café comigo, porque não aceito programas terminados na metade.

- É que... Eu sou casada, e meu marido...

- Seu marido não deixa você tomar café com um amigo? Ah, duvido! Vamos sair de novo sim. Semana que vem. No mesmo horário.

- Está bem.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Estudar é chato

A manhã passou rapidamente. Dona Ângela chamou Karina para ficar assistindo televisão na sala. Passavam uns programas que a menina nunca tinha visto. Era tanto canal... Tinha uns que passavam desenho animado o tempo todo. Mesmo à noite. Foi o que Dona Ângela disse.

Mas houve um diálogo com Dona Ângela que deixou Karina meio confusa. A moça perguntou:

- E aí? Animada para ir à escola?

Karina não entendeu bem a pergunta. “Quem se anima para ir à escola?” Pensou. Mas fez como de costume, respondendo o que achava que esperavam que ela respondesse:

- Animada? É. To.

- Ah, mas no seu lugar eu também estaria. Muito animada. Você vai ver! Depois que começarem suas aulas, acho que já começam semana que vem, você nem vai querer saber de desenho animado. É muito bom estudar.

A menina ficou então imaginando o que as pessoas dessa cidade chamavam de escola. Com certeza seria diferente da que ela conheceu na Bahia. Não era possível. Estudar era muito chato. Se na Bahia pegava em um livro, era por não ter mais o que fazer. Mas com canais que passavam desenho animado o dia todo! Há! Quem ia querer estudar.

À tarde aconteceu algo que deixou Karina ainda mais atordoada. Ela acabava de lavar a louça do almoço quando ouviu Dona Ângela conversando com Pedro:

- Está bem. Se você estudar por mais duas horas poderá ver televisão.

- Duas horas??? Mas mãe, é muito tempo!

- Eu sei, filho. É chato mesmo ter que ficar estudando, mas você ta indo mal nas provas. É o jeito.

- Dona Ângela – chamou a menina.

- Pode me chamar de Ângela só.

- Ta. Ângela, não entendi. É chato ou é legal ficar estudando?

- Mas que menina espertinha! O Pedro acha chato, porque, por ele, ele passaria a vida na frente da tevê.

- Eu também passaria.

Ângela fingiu que não ouviu. Mas a resposta seria a discussão do jantar, quando tia e sobrinha já dormiam:

- E vocês não sabem o absurdo: a menina, a... Karina. Uma graça, mas diz que não gosta de estudar. Veja só! Uma menina, sem oportunidades na vida, que prefere ver tevê do que estudar! Onde já se viu! Se ainda fosse rica... Mas meninas como ela adoram estudar! Sabem dar valor, claro: estudam se pagar! Mas essa menina...

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Café-da-manhã paulistano

“Só podia ser um sonho”, pensava Karina enquanto ajudava a tia-mãe a colocar a mesa. Toddynho, queijo, presunto, pão, iogurte, requeijão, DANONINHO!!!

- Posso pegar um?

- Claro. Pode pegar o que quiser. Só tem que me avisar se for o último porque aí compro mais.

- Mas você tem dinheiro pra isso?

- Quem me dera... É com o dinheiro da Dona Ângela, minha patroa. É uma moça muito boa, você vai gostar dela. Ela tem dois filhos, a Luciana e o Pedro. São mais velhos do que você. A Luciana tem 14 e o Pedro tem 16. Tem também o Seu Rodrigo, mas ele quase nunca ta aqui. Mal toma o café da manhã direito e volta bem tarde, quando a gente já foi dormir.

- Com tudo isso ele toma o café rápido?

- É. Na verdade nem um deles come muito no café, só a Dona Ângela.

Não havia dado nem 5 minutos desde que a mesa estava posta quando entrou o Seu Rodrigo.

- Olha, Seu Rodrigo, essa é minha sobrinha, a Karina, que eu falei pro senhor.

Seu Rodrigo deu uma olhada sonolento. Disse “Oi como vai”, engoliu o café e foi embora. Bastou isso para que Karina o temesse pelo resto de sua vida.

Os minutos foram passando, cada um foi acordando, tomando café, sendo apresentado à Karina... Ângela foi a mais simpática. Recepcionou a menina com um abraço e um beijo. Disse que.., como é que era... “qualquer coisa é só pedir”. Os filhos foram legais também, mas quase não falaram nada. A tia disse que é porque eles estavam com pressa e com sono.

- O que é pressa?

- Pressa... é... apressado. Quando a pessoa ta atrasada... sabe? – Karina continuou com o olhar interrogativo – Assim, quando faz tudo correndo.

- Como em uma competição de quem vai mais rápido?

A tia desistiu:

- É, mais ou menos isso. Uma competição. Só que em São Paulo todo mundo está sempre assim.

- Competindo o tempo todo?

- É... não... Ah, menina, deixa de bobagens. Vem me ajudar com a louça, que hoje temos muito o que fazer.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Ajuda com a pipoca

Apesar de aparentemente sem solução, as crises neuróticas de Ângela deixaram de existir lá pelo 18º aniversário de Fabiana. Foi quando, ainda casada, ela conheceu Gustavo.

Gustavo era o filho de uma das senhoras do curso de cerâmica, Dona Inês. Uma vez por mês, Dona Inês oferecia uma festa em sua casa, ou melhor, não era bem uma festa. Apaixonada por clássico do cinema, ela fazia uma seção, com direito à pipoca, refrigerante e até vinho, se fosse do gosto de algum convidado. O evento era um sempre um sucesso, e toda a sala, de 5 mulheres, ia.

Ângela já havia visto Gustavo uma vez, quando, após jantar com a mãe, ele ia embora no mesmo momento que a festa começava. Mas foi só quando Dona Inês quebrou a perna que ela pôde conhecer mesmo Gustavo.

Ele estava lá, para se a mãe precisasse de alguma coisa e para garantir que ela se comportasse. Médico, não deixava a mãe sequer levantar para alcançar o controle remoto. Havia sido inclusive contra a festa, mas não conseguiu convencer Dona Inês a cancelar a tradição.

Então alguém lembrou que cinema na Dona Inês sem pipoca, não é cinema na Dona Inês. E lá foi Ângela se oferecer para fazê-las.

- Ih, Dona Inês, não acho o sal!

- To indo a...

- Não, mãe. Fica aí. Eu vou lá.

E foi bem essa coisa boba mesmo, de um ajudar o outro na cozinha, e deixar cair o milho, e se abaixarem os dois para pegar o milho, e risadas, e constrangimentos. Foi, digamos, um primeiro flerte, que Ângela nunca pensou que fosse passar disso. Desejou, é verdade, mas estava certa de que seria incapaz de trair o marido.

- Uma simpatia, esse teu filho, Dona Inês!

- É! É médico!

terça-feira, 17 de junho de 2008

Mãe imperfeita

Ângela era uma boa mãe. Nunca deixara faltar nada aos filhos, emocionalmente e financeiramente. Ela cometia sim alguns erros, mas nada condenável. É verdade, porém, seu temperamento nunca foi dos mais fáceis.

Se algum filho a desobedecia, instintivamente Ângela gritava, esperneava, dava a maior bronca. Nunca bateu, embora talvez tanto Fabiana quanto Pedro preferissem um tapa ao escândalo, que não tinha hora e nem lugar para acontecer.

Certa vez, em comemoração aos 14 anos de Fabiana, a família toda foi jantar em uma pizzaria. Na hora do parabéns, Pedro gritou: “Vamos levantar ela na cadeira!”. Ângela logo cortou: “Não, Pedro, essa pizzaria não é que nem a que você vai com os seus amigos. É um ambiente sério, este. Vai chamar muita atenção”.

Pedro abaixou a cabeça e fingiu obedecer à mãe. Cinco minutos depois, porém, quando ela estava distraída pensando em qual outro sabor de pizza pedir, Pedro e Matheus, um primo, seguraram as pernas da cadeira onde Fabiana estava sentada e em um grande impulso jogaram a menina para o ar, que, imediatamente, soltou um grito de susto, seguido por uma forte gargalhada.

Se nem toda a pizzaria percebeu o berro de Fabiana, com certeza ninguém deixou de arregalar os olhos para a cena que se sucedeu. A doce Ângela parecia que ia ter um ataque nervoso. Gritava, esperneava, chorava, pedia pelo amor de Deus o respeito de seus filhos. Para Pedro, finalmente ficou claro como poderia ser tão horrível a sensação de chamar a atenção de todos da pizzaria. E a culpa, em parte, era dele.

A mulher descabelada só sossegou na manhã seguinte. Não quis sair em nenhuma foto, e nem aceitou uma colherada do pudim de leite que Matheus, com peso na consciência, ofereceu-lhe. E o desassossego não era nem mais pela desobediência do filho. Era, sim, porque, mais uma vez, ela havia exagerado. Havia dado escândalo. Odiava dar escândalo, mas era impossível conter.

Pediu desculpas no dia seguinte, como de praxe. Dizia que não deveria ter feito isso, mas que às vezes essas coisas escapam. Perguntava aos filhos e ao marido se eles não tinham uma idéia de repente para que ela conseguisse controlar os acessos de fúria. Mas não tinham. E o caso dava-se, assim, por encerrado.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Como esquecer um homem, final

- Ô, Caduzinho! Abandonou a gente, mano?

- Que é isso, João. É que achei essas amigas lá na frente e fiquei lá com elas.

- Ah, ta explicado, então. Não quer apresentar não?

As duas ficam tímidas.

- Opa! Essa aqui é a Marcela e a piradinha do lado é a Fabi.

- Mas que bela reputação eu tenho!

No ouvido de Fabi:

- Você não falou que ta interessada? To te ajudando!

- Piradinha, é? Com essa cara de anjo?

- Ih, você não viu nada...

- Cadu!!

- Haha, não fica brava não... As piradinhas são as mais legais.

- Legais, sei. João, né? Sei muito bem o que são meninas legais.

- Ô, não fala assim! Vai, vamos fazer as pazes. Vem pegar uma breja comigo.

- Quer alguma coisa, Má?

- (cochichando) Como se você fosse mesmo voltar... haha

- Acho que sua amiga te abandonou, Marcelinha.

- É, tudo bem. Foi por uma boa causa.

- E a sua “boa causa”, cadê?

- (corando) Minha boa causa? É. Boa pergunta.

- Ah, é que você também não ta olhando direito.

- Então me ensina a olhar.

(Marcela passaria o resto de sua vida imensamente grata por esse momento inacreditável em que sua timidez simplesmente desapareceu)

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- Hahahaha Boa causa??? Ai, Má. O Cadu já foi melhor em cantadas... Mas e aí? Como foi? Você acha que vocês ficam de novo?

- Não sei... talvez em outra baladinha, mas não acho que ele vá me ligar não. Mas se você quer saber, to ótima assim. No final da balada vi o Nathan pegando uma menina. Não senti nada. Juro! Precisava mesmo de outro cara...

- Outro cara nada amiga. O cara. É só uma coisa que você precisa enfiar na sua cabecinha. Você não amava mesmo o Nathan. Não foi problema de coração partido. Foi problema de vaidade ferida, de auto-estima baixa. Tipo... “Como assim eu não sou perfeita para esse cara?”. Vai dizer que você nunca pensou nisso.

- Ah... assim assim também não... Mas faz sentido isso. Porque, agora que eu peguei o cara "mais lindo do mundo", não dou a mínima pra Nathan nenhum.

- Auto-estima recuperada. Simples assim.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Como esquecer um homem, 2a parte

- Ai... Que frio!!! E essa fila que não anda de jeito nenhum!

- Relaxa, Má! Frio é psicológico. Ahhhhhh!

- Que foi?

- Disfarça. Ta vendo um cara ali, de camisa listrada azul e branco, com um cara de camisa preta...?

- Ãhn?

- Olha quem está atrás deles! Mas disfarça!

- Quem... Não acredito!

- É... Parece que é hoje que alguém esquece um tal de Nathan...

- Ta louca?! Ele conseguiu ficar ainda mais lindo do que já era! Só daqui eu já vejo umas 10 meninas secando ele. Ele veio só pra eu ter algo bonito pra olhar nesse frio!

- Bom, pelo menos já melhorou o seu humor.

- Ih, Fabi, esse cara melhora qualquer humor...

- Vai lá falar com ele.

- Há Há

- Por que não?

- (dramatizando a voz) “E aí, Cadu, tudo bem?”, “Tudo e você?”, “Tudo”, “Você vai na balada?”, “É, né, to na fila...”, “Ah, então, legal, a gente se vê lá dentro”;

- Hahaha... Até parece... O Cadu é tão sussa...

- Exatamente. Já tentou puxar papo com ele?

- Não, mas agora fiquei curiosa. Cadu!

- Ta louca???

- (se aproximando) E aí Fabi?! Tudo bem, Marcelinha?

- Tudo, e você?

- Tudo também. E aí, vão pra festa?

Rápido olhar de Marcela para Fabiana, que responde rápido:

- Tamos aí. Será que a fila demora ainda?

- Ih, não sei. E olha que vocês ainda estão na frente. Eu to lá atrás...

- Entra com a gente! – solta Marcela, sem querer.

- Olha, é uma boa idéia viu Marcelinha. Vou ficar com vocês então.

- E seus amigos?

- Já ta interessada, né, Fabí?

- Hahaha... É, Cadu... Não são de se jogar fora.


- É que se eu chamar todos aqui o pessoal vai chiar. Mas deixa eles lá e lá dentro eu apresento pra vocês.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Como esquecer um homem, 1a parte

- Alô! Oi, tia, é a Fabiana. A Marcela ta aí?

- Oi Fabí. Ta sim, vou chamar.

...

- Oi, amiga.

- Ta pronta? To saindo em 10 minutos pra te buscar.

- Ah, Fabí... Eu... não vou, tá?

- Como assim não vai?! Má, você tem que ir! Faz uns cinco anos que a gente espera por uma festa de faculdade! Meu pai nunca deixou...

- Eu, sei, Fabí. Desculpa. Você pode ir, vai um monte de gente lá, que eu sei. É só que... Eu não to muito no clima, sabe?

- Hum, acho que isso aí tem outro nome. Por algum acaso o Nathan vai?

- (em tom baixo e triste) Vai...

- Ah, sabia! Sem essa, Má. To passando aí. Subo, te ajudo a se vestir e a gente vai. Todo o mundo diz que só tem cara gato nessa festa! Você nunca mais vai pensar em Nathan nenhum.

- Só por um milagre...

- Então um milagre está prestes a acontecer! Você vai ver! Mas muda este humor, porque de braços cruzados é que você não vai atrair ninguém.

- Se fosse só os braços...

- Ai, meu deus, o que um homem não é capaz de fazer! Que auto estima é essa?

- Sei lá...

- Quer meu vestido preto emprestado?

- Você ta falando sério?

- Ah, eu sei que você sempre gostou dele. Se vai fazer você se sentir bem...

- Ai... E se acontecer alguma coisa...?

- Não vai acontecer nada! E se acontecer você me dá aquela sua blusa frente única!

- Fechado!