- Ai... Que frio!!! E essa fila que não anda de jeito nenhum!
- Relaxa, Má! Frio é psicológico. Ahhhhhh!
- Que foi?
- Disfarça. Ta vendo um cara ali, de camisa listrada azul e branco, com um cara de camisa preta...?
- Ãhn?
- Olha quem está atrás deles! Mas disfarça!
- Quem... Não acredito!
- É... Parece que é hoje que alguém esquece um tal de Nathan...
- Ta louca?! Ele conseguiu ficar ainda mais lindo do que já era! Só daqui eu já vejo umas 10 meninas secando ele. Ele veio só pra eu ter algo bonito pra olhar nesse frio!
- Bom, pelo menos já melhorou o seu humor.
- Ih, Fabi, esse cara melhora qualquer humor...
- Vai lá falar com ele.
- Há Há
- Por que não?
- (dramatizando a voz) “E aí, Cadu, tudo bem?”, “Tudo e você?”, “Tudo”, “Você vai na balada?”, “É, né, to na fila...”, “Ah, então, legal, a gente se vê lá dentro”;
- Hahaha... Até parece... O Cadu é tão sussa...
- Exatamente. Já tentou puxar papo com ele?
- Não, mas agora fiquei curiosa. Cadu!
- Ta louca???
- (se aproximando) E aí Fabi?! Tudo bem, Marcelinha?
- Tudo, e você?
- Tudo também. E aí, vão pra festa?
Rápido olhar de Marcela para Fabiana, que responde rápido:
- Tamos aí. Será que a fila demora ainda?
- Ih, não sei. E olha que vocês ainda estão na frente. Eu to lá atrás...
- Entra com a gente! – solta Marcela, sem querer.
- Olha, é uma boa idéia viu Marcelinha. Vou ficar com vocês então.
- E seus amigos?
- Já ta interessada, né, Fabí?
- Hahaha... É, Cadu... Não são de se jogar fora.
- É que se eu chamar todos aqui o pessoal vai chiar. Mas deixa eles lá e lá dentro eu apresento pra vocês.
terça-feira, 10 de junho de 2008
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Como esquecer um homem, 1a parte
- Alô! Oi, tia, é a Fabiana. A Marcela ta aí?
- Oi Fabí. Ta sim, vou chamar.
...
- Oi, amiga.
- Ta pronta? To saindo em 10 minutos pra te buscar.
- Ah, Fabí... Eu... não vou, tá?
- Como assim não vai?! Má, você tem que ir! Faz uns cinco anos que a gente espera por uma festa de faculdade! Meu pai nunca deixou...
- Eu, sei, Fabí. Desculpa. Você pode ir, vai um monte de gente lá, que eu sei. É só que... Eu não to muito no clima, sabe?
- Hum, acho que isso aí tem outro nome. Por algum acaso o Nathan vai?
- (em tom baixo e triste) Vai...
- Ah, sabia! Sem essa, Má. To passando aí. Subo, te ajudo a se vestir e a gente vai. Todo o mundo diz que só tem cara gato nessa festa! Você nunca mais vai pensar em Nathan nenhum.
- Só por um milagre...
- Então um milagre está prestes a acontecer! Você vai ver! Mas muda este humor, porque de braços cruzados é que você não vai atrair ninguém.
- Se fosse só os braços...
- Ai, meu deus, o que um homem não é capaz de fazer! Que auto estima é essa?
- Sei lá...
- Quer meu vestido preto emprestado?
- Você ta falando sério?
- Ah, eu sei que você sempre gostou dele. Se vai fazer você se sentir bem...
- Ai... E se acontecer alguma coisa...?
- Não vai acontecer nada! E se acontecer você me dá aquela sua blusa frente única!
- Fechado!
- Oi Fabí. Ta sim, vou chamar.
...
- Oi, amiga.
- Ta pronta? To saindo em 10 minutos pra te buscar.
- Ah, Fabí... Eu... não vou, tá?
- Como assim não vai?! Má, você tem que ir! Faz uns cinco anos que a gente espera por uma festa de faculdade! Meu pai nunca deixou...
- Eu, sei, Fabí. Desculpa. Você pode ir, vai um monte de gente lá, que eu sei. É só que... Eu não to muito no clima, sabe?
- Hum, acho que isso aí tem outro nome. Por algum acaso o Nathan vai?
- (em tom baixo e triste) Vai...
- Ah, sabia! Sem essa, Má. To passando aí. Subo, te ajudo a se vestir e a gente vai. Todo o mundo diz que só tem cara gato nessa festa! Você nunca mais vai pensar em Nathan nenhum.
- Só por um milagre...
- Então um milagre está prestes a acontecer! Você vai ver! Mas muda este humor, porque de braços cruzados é que você não vai atrair ninguém.
- Se fosse só os braços...
- Ai, meu deus, o que um homem não é capaz de fazer! Que auto estima é essa?
- Sei lá...
- Quer meu vestido preto emprestado?
- Você ta falando sério?
- Ah, eu sei que você sempre gostou dele. Se vai fazer você se sentir bem...
- Ai... E se acontecer alguma coisa...?
- Não vai acontecer nada! E se acontecer você me dá aquela sua blusa frente única!
- Fechado!
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Na quadra
Esta é a história de um jogador de basquete. Podia ser de futebol, mas achei muito clichê começar com “Esta é a história de um jogador de futebol”. Também poderia ser de handebol, mas no momento preferi basquete. Pode ser que me arrependa depois, mas a decisão foi tomada. E na verdade não se trata da história propriamente dita, mas de alguns detalhes sobre o nosso amigo. Adriano, ele se chama.
Bom, Adriano, o jogador, nosso amigo, era a pessoa mais calma do mundo. Um amorzinho, um fofo. Desses que têm mais amigas que amigos, que toda a mãe pede para a filha namorar, que é só abraços.
A calma não vinha do esporte, da yoga, da alimentação... de nada. Ele nasceu assim. De bem com todos e de bem com a vida. Não achava que nada lhe sobrava nem faltava. Vivia como vivia.
Isso todos os dias do ano, menos os de jogo.
Quando estava na quadra, chamá-lo de estressado era pouco. Talvez por isso mesmo fosse tão bom jogador. Fazia de tudo para pegar a bola e tudo para chegar ao destino dela. Fominha, ultrapassava não apenas seus adversários, mas também os companheiros de time. Um olé atrás do outro.
Ficava surdo. Não escutava o técnico, nem a torcida, nem o apito do juiz. Parava a jogada somente quando percebia que todos os demais jogadores estavam imóveis, de barcos cruzados, esperando ele devolver a bola, caso estivesse com ele – provavelmente estaria.
Não ouvia, mas falava bastante. Urrava, gritava, dizia palavrões, xingava.
Sua face ficava contraída. Os dentes rangiam. Cuspia. Nunca tinha fumado, mas ficava com vontade de fumar. Tinha vontade de bater. De atirar, de matar alguém.
Um dia o técnico resolveu que preferia um jogador não tão bom mas que o respeitasse do que um excelente e insuportável. Foi conversar com Adriano. Adriano não entendeu, ele mesmo não percebia o quão irado ficava durante as competições. O técnico, então deixou que ele jogasse mais um jogo. O técnico filmou o jogo, e mostrou-o ao atleta.
Impressionado, Adriano nunca mais jogou.
Assim como tem gente que, depois de muitas multas, nunca mais dirige. Na verdade não tem muita gente. Mas deveria.
Bom, Adriano, o jogador, nosso amigo, era a pessoa mais calma do mundo. Um amorzinho, um fofo. Desses que têm mais amigas que amigos, que toda a mãe pede para a filha namorar, que é só abraços.
A calma não vinha do esporte, da yoga, da alimentação... de nada. Ele nasceu assim. De bem com todos e de bem com a vida. Não achava que nada lhe sobrava nem faltava. Vivia como vivia.
Isso todos os dias do ano, menos os de jogo.
Quando estava na quadra, chamá-lo de estressado era pouco. Talvez por isso mesmo fosse tão bom jogador. Fazia de tudo para pegar a bola e tudo para chegar ao destino dela. Fominha, ultrapassava não apenas seus adversários, mas também os companheiros de time. Um olé atrás do outro.
Ficava surdo. Não escutava o técnico, nem a torcida, nem o apito do juiz. Parava a jogada somente quando percebia que todos os demais jogadores estavam imóveis, de barcos cruzados, esperando ele devolver a bola, caso estivesse com ele – provavelmente estaria.
Não ouvia, mas falava bastante. Urrava, gritava, dizia palavrões, xingava.
Sua face ficava contraída. Os dentes rangiam. Cuspia. Nunca tinha fumado, mas ficava com vontade de fumar. Tinha vontade de bater. De atirar, de matar alguém.
Um dia o técnico resolveu que preferia um jogador não tão bom mas que o respeitasse do que um excelente e insuportável. Foi conversar com Adriano. Adriano não entendeu, ele mesmo não percebia o quão irado ficava durante as competições. O técnico, então deixou que ele jogasse mais um jogo. O técnico filmou o jogo, e mostrou-o ao atleta.
Impressionado, Adriano nunca mais jogou.
Assim como tem gente que, depois de muitas multas, nunca mais dirige. Na verdade não tem muita gente. Mas deveria.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Chegando em São Paulo
Karina causara tanta inveja a seus amigos, que pensou ser impossível não gostar da cidade grande. Chegou à rodoviária às 5 da manhã de uma segunda-feira. Estava em êxtase e, ao mesmo tempo, assustada com o tamanho do lugar e a quantidade de gente.
O barulho então... Infernal. Mas não para Karina. Para ela, a partir daquele singular momento ela seria a protagonista de uma novela. E não qualquer novela, mas uma das 8, que é mais divertida e não tem tanto drama.
Sua tia segurou forte em sua mão e foi puxando-a para fora, até o ponto de ônibus.
- Vamos para sua casa?
- A tia tem duas casas, na verdade, menina. Uma de segunda a sexta e uma no fim-de-semana.
- Duas casas? – perguntou a menina, mais do que admirada – Se eu tivesse dinheiro para ter duas casas, compraria um castelo.
Por um instante a tia não compreendeu o que a sobrinha dizia. Mas logo soltou uma gargalhada e disse:
- Não, Karina. Eu moro em duas casas. Uma, a melhor, é a casa onde eu trabalho, que eu te disse na Bahia. A outra que é minha mesmo, quer dizer, alugada. É pra lá que eu vou nos finais de semana que eu não vou visitar vocês. Hoje é segunda, então já vamos direto para a casa grande.
- Mas não é em São Paulo as duas?
- É.
- Então porque você não volta todo o dia para sua casa? Prefere dormir na casa dos outros todo dia?
- É que é muito longe uma da outra.
- Mas se é na mesma cidade!
- Ih, já vi que você ainda há de estranhar muita coisa aqui, filha.
Karina não estranhou esse “filha”. E nem haverá de estranhar as outras tantas milhões de vezes que assim a tia a chamar. Agora, são mãe e filha, ligadas pelo desejo mútuo de aproveitarem cada vez mais e mais todas as belezas, novidades e riquezas que existem na complexa metrópole e que, na cidadezinha do interior da Bahia, apenas tinham ouvido falar.
O barulho então... Infernal. Mas não para Karina. Para ela, a partir daquele singular momento ela seria a protagonista de uma novela. E não qualquer novela, mas uma das 8, que é mais divertida e não tem tanto drama.
Sua tia segurou forte em sua mão e foi puxando-a para fora, até o ponto de ônibus.
- Vamos para sua casa?
- A tia tem duas casas, na verdade, menina. Uma de segunda a sexta e uma no fim-de-semana.
- Duas casas? – perguntou a menina, mais do que admirada – Se eu tivesse dinheiro para ter duas casas, compraria um castelo.
Por um instante a tia não compreendeu o que a sobrinha dizia. Mas logo soltou uma gargalhada e disse:
- Não, Karina. Eu moro em duas casas. Uma, a melhor, é a casa onde eu trabalho, que eu te disse na Bahia. A outra que é minha mesmo, quer dizer, alugada. É pra lá que eu vou nos finais de semana que eu não vou visitar vocês. Hoje é segunda, então já vamos direto para a casa grande.
- Mas não é em São Paulo as duas?
- É.
- Então porque você não volta todo o dia para sua casa? Prefere dormir na casa dos outros todo dia?
- É que é muito longe uma da outra.
- Mas se é na mesma cidade!
- Ih, já vi que você ainda há de estranhar muita coisa aqui, filha.
Karina não estranhou esse “filha”. E nem haverá de estranhar as outras tantas milhões de vezes que assim a tia a chamar. Agora, são mãe e filha, ligadas pelo desejo mútuo de aproveitarem cada vez mais e mais todas as belezas, novidades e riquezas que existem na complexa metrópole e que, na cidadezinha do interior da Bahia, apenas tinham ouvido falar.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Por 24 horas.
Ninguém sabe como foi este dia. Não há sequer um ser vivo que se lembre dele. Ninguém para ter saudades, ninguém para querer esquecê-lo.
Neste dia, no mais especial dos dias que já existiram desde que o mundo recebeu o nome de mundo, todos dormiram.
Do vírus ao homem, dos fungos aos vegetais. Todos dormiram. 24 horas dormindo.
Ah, mas como foi silencioso este dia. Nunca houve tal silêncio, calmo, melódico.
Se uma alma acordasse, sozinha, talvez morresse de pavor. Talvez ficasse assustada. Ou, talvez, alcançaria a felicidade em segundos. Entregaria-se totalmente àquele espaço em que tudo levava a crer que estava vazio, mas, na realidade, estava lotado como sempre, com todos os mesmos zilhões de seres – conhecidos ou não – que acordaram no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.
Neste dia, por 24 horas, ninguém trabalhou. Ninguém se estressou. Ninguém buzinou. Ninguém morreu. Ninguém matou. Ninguém foi roubado, ninguém se arrependeu, ninguém chorou, ninguém sofreu. Por 1.440 minutos, não houve maldade e nem tristeza.
Mas nada disso compensou a existência deste terrível dia, em que ninguém amou. Ninguém dançou, nem cantou. Não houveram abraços, beijos, carinhos, palavras, olhares, pulos, alegria, fascinação, nem risadas. E, o pior de tudo: ninguém comeu sobremesa.
Neste dia, no mais especial dos dias que já existiram desde que o mundo recebeu o nome de mundo, todos dormiram.
Do vírus ao homem, dos fungos aos vegetais. Todos dormiram. 24 horas dormindo.
Ah, mas como foi silencioso este dia. Nunca houve tal silêncio, calmo, melódico.
Se uma alma acordasse, sozinha, talvez morresse de pavor. Talvez ficasse assustada. Ou, talvez, alcançaria a felicidade em segundos. Entregaria-se totalmente àquele espaço em que tudo levava a crer que estava vazio, mas, na realidade, estava lotado como sempre, com todos os mesmos zilhões de seres – conhecidos ou não – que acordaram no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.
Neste dia, por 24 horas, ninguém trabalhou. Ninguém se estressou. Ninguém buzinou. Ninguém morreu. Ninguém matou. Ninguém foi roubado, ninguém se arrependeu, ninguém chorou, ninguém sofreu. Por 1.440 minutos, não houve maldade e nem tristeza.
Mas nada disso compensou a existência deste terrível dia, em que ninguém amou. Ninguém dançou, nem cantou. Não houveram abraços, beijos, carinhos, palavras, olhares, pulos, alegria, fascinação, nem risadas. E, o pior de tudo: ninguém comeu sobremesa.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Como saber que ele é o grande amor, parte 2
Antes mesmo de dirigir seu olhar para a figura ao seu lado, Fabiana já sentia uma imensa vontade de voltar no tempo e nunca ter dito aquilo. Não. Melhor. Nunca ter visto o filme. Não! Poderia nunca ver filmes cults.
Depois de pensar por longuíssimos segundos em palavras que poderiam tirá-la da saia-justa, dirigiu seu olhar para a amiga. Esta, por sua vez, para se ver livre o quanto antes do suposto diretor, soltou:
- É, não gostamos.
Fabiana arregalou o olhar para Marcela, que deu de ombros. Ela então tomou coragem para encarar o desconhecido. E foi aí que as palavras lhe faltaram de vez.
Não porque o rapaz fosse bonito. Também não era feio: tinha seu charme. Mas alguma coisa em seus olhos não era normal. Era como se fumegassem. Não de raiva. Simplesmente fumegavam, como se soubessem de tudo, ou tivessem sede para saber de tudo. Fabiana sentiu-se transparente, de uma hora para outra.
E o rapaz sorria simplesmente, malicioso. Adorava que não gostassem de seus filmes. Fazia-os propositadamente ruins. Mas, melhor do que ouvir alguém falando mal de seu filme, era ver uma doce e delicada jovem sem palavras, querendo desculpar-se por ter criticado a obra, com medo dele, que só conseguiu que o filme fosse exibido no cinema porque o gerente era amigo de seu pai.
- Ah, não é que não gostamos, né, Má?! É que é difícil de entender mesmo. Talvez para pessoas que se liguem mais em cinema e literatura... Eu faço arquitetura, não sei nada dessas coisas.
- Qual é seu nome?
- Fabiana.
- Prazer, Fabiana. Sou Cristhian. Espero que goste mais do meu próximo filme.
- Qual é?
- Ainda não tem nome.
- Quando lança?
- Talvez no ano que vem.
- E como vou saber que lançou, então? – perguntou, desdenhosa.
- Eu deixo um aviso no cardápio daqui. Só vamos esperar para que ele não feche até lá. Mas acho que não. A freqüência aqui costuma ser boa, se é que você me entende.
Saiu.
- Babaca, disse Marcela.
Fabiana não disse nada. Pelo resto do dia.
Depois de pensar por longuíssimos segundos em palavras que poderiam tirá-la da saia-justa, dirigiu seu olhar para a amiga. Esta, por sua vez, para se ver livre o quanto antes do suposto diretor, soltou:
- É, não gostamos.
Fabiana arregalou o olhar para Marcela, que deu de ombros. Ela então tomou coragem para encarar o desconhecido. E foi aí que as palavras lhe faltaram de vez.
Não porque o rapaz fosse bonito. Também não era feio: tinha seu charme. Mas alguma coisa em seus olhos não era normal. Era como se fumegassem. Não de raiva. Simplesmente fumegavam, como se soubessem de tudo, ou tivessem sede para saber de tudo. Fabiana sentiu-se transparente, de uma hora para outra.
E o rapaz sorria simplesmente, malicioso. Adorava que não gostassem de seus filmes. Fazia-os propositadamente ruins. Mas, melhor do que ouvir alguém falando mal de seu filme, era ver uma doce e delicada jovem sem palavras, querendo desculpar-se por ter criticado a obra, com medo dele, que só conseguiu que o filme fosse exibido no cinema porque o gerente era amigo de seu pai.
- Ah, não é que não gostamos, né, Má?! É que é difícil de entender mesmo. Talvez para pessoas que se liguem mais em cinema e literatura... Eu faço arquitetura, não sei nada dessas coisas.
- Qual é seu nome?
- Fabiana.
- Prazer, Fabiana. Sou Cristhian. Espero que goste mais do meu próximo filme.
- Qual é?
- Ainda não tem nome.
- Quando lança?
- Talvez no ano que vem.
- E como vou saber que lançou, então? – perguntou, desdenhosa.
- Eu deixo um aviso no cardápio daqui. Só vamos esperar para que ele não feche até lá. Mas acho que não. A freqüência aqui costuma ser boa, se é que você me entende.
Saiu.
- Babaca, disse Marcela.
Fabiana não disse nada. Pelo resto do dia.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Como saber que ele é o grande amor
Uma das maiores diversões de Fabiana era ir assistir, sempre com Marcela, a algum filme conceitual e simbolista. Do tipo cult.
As meninas eram honestas. Nenhuma nunca entendia bem o filme, e admitiam o fato. Era daí que vinha a diversão: após cada sessão, elas iam tomar um café – ou um milk shake, se uma das duas estivesse em um dia ruim – e tentavam, juntas, entendê-lo. Não era um debate sério. Nem precisava ser um grande conhecedor de cinema para participar. Estava mais para uma brincadeira, em que a conclusão final jamais representaria a verdadeira história que o diretor quis contar. Se é que quis contar alguma.
Mas as amigas não estavam preocupadas com isso, que era apenas um pretexto para que, uma vez por semana, brincassem de ser roteiristas, criando um filme ao mesmo tempo excêntrico, cômico e inteligível. A brincadeira ainda garantia que a forte amizade não acabasse com a falta de tempo que as duas recém universitárias tinham para se ver.
E foi durante um programa desses que teve início um dos grandes capítulos da vida de Fabiana. Chamava-se Como saber que ele é o grande amor, o filme que discutiam. Nunca fora tão difícil entender um filme, e, no momento, o mais importante de tudo era desvendar qualquer coisa que tivesse aparecido na tela e que pudesse ter alguma relação com o título.
- Como saber que ele é um grande amor... Que raios tem a ver as meias do cara dançarem com isso? Seria muito mais interessante se elas também cantassem – disse Fabiana soltando uma alta e gostosa risada.
Marcela, em vez de rir, olhou para uma figura que se colocava ao lado de Fabiana, com ar sério.
- É... Pois não? – disse Marcela, segurando o riso.
- Então não gostaram do meu filme? – respondeu a figura.
As meninas eram honestas. Nenhuma nunca entendia bem o filme, e admitiam o fato. Era daí que vinha a diversão: após cada sessão, elas iam tomar um café – ou um milk shake, se uma das duas estivesse em um dia ruim – e tentavam, juntas, entendê-lo. Não era um debate sério. Nem precisava ser um grande conhecedor de cinema para participar. Estava mais para uma brincadeira, em que a conclusão final jamais representaria a verdadeira história que o diretor quis contar. Se é que quis contar alguma.
Mas as amigas não estavam preocupadas com isso, que era apenas um pretexto para que, uma vez por semana, brincassem de ser roteiristas, criando um filme ao mesmo tempo excêntrico, cômico e inteligível. A brincadeira ainda garantia que a forte amizade não acabasse com a falta de tempo que as duas recém universitárias tinham para se ver.
E foi durante um programa desses que teve início um dos grandes capítulos da vida de Fabiana. Chamava-se Como saber que ele é o grande amor, o filme que discutiam. Nunca fora tão difícil entender um filme, e, no momento, o mais importante de tudo era desvendar qualquer coisa que tivesse aparecido na tela e que pudesse ter alguma relação com o título.
- Como saber que ele é um grande amor... Que raios tem a ver as meias do cara dançarem com isso? Seria muito mais interessante se elas também cantassem – disse Fabiana soltando uma alta e gostosa risada.
Marcela, em vez de rir, olhou para uma figura que se colocava ao lado de Fabiana, com ar sério.
- É... Pois não? – disse Marcela, segurando o riso.
- Então não gostaram do meu filme? – respondeu a figura.