quinta-feira, 19 de junho de 2008

Que Chico Buarque fale por mim

Honestamente: hoje não tive nenhuma boa idéia de conto. Estou com vontade de escrever sobre uma dúzia de coisas, mas não tenho idéia de como deixar essas milhões de coisas interessantes.
Então resolvi abrir um novo marcador. Chama-se "Que fale por mim". Afinal, existem coisas tão geniais já escritas que acho válido, vez ou outra, apresentar tais coisas. A estréia de hoje é uma música do Chico Buarque. Chama-se Outros Sonhos.

Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava quando me via
Sonhei que ao meio dia
Havia intenso luar
e o povo se embebecia
Se enpetecava João,
se emperiquitava Maria
Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia
Belo e sereno era o som
Que lá no morro se ouvia
Eu sei que o sonho era bom porque ela sorria
Até quando chovia
Guris inertes no chão
falavam de astronomia
E me jurava o diabo
que Deus existia
De mão em mão o ladrão
Relógios distribuia
E a polícia já não batia
De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava na tabacaria
Drogas, na drogaria
Um passarinho espanhol
cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
de sua autoria
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhar o impossível, ai
Sonhei que tu me querias
Soñé que el fuego heló
Soñé que la neve ardia
Y por soñar lo imposible, ay, ay
Soñé que tu me querias

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Ajuda com a pipoca

Apesar de aparentemente sem solução, as crises neuróticas de Ângela deixaram de existir lá pelo 18º aniversário de Fabiana. Foi quando, ainda casada, ela conheceu Gustavo.

Gustavo era o filho de uma das senhoras do curso de cerâmica, Dona Inês. Uma vez por mês, Dona Inês oferecia uma festa em sua casa, ou melhor, não era bem uma festa. Apaixonada por clássico do cinema, ela fazia uma seção, com direito à pipoca, refrigerante e até vinho, se fosse do gosto de algum convidado. O evento era um sempre um sucesso, e toda a sala, de 5 mulheres, ia.

Ângela já havia visto Gustavo uma vez, quando, após jantar com a mãe, ele ia embora no mesmo momento que a festa começava. Mas foi só quando Dona Inês quebrou a perna que ela pôde conhecer mesmo Gustavo.

Ele estava lá, para se a mãe precisasse de alguma coisa e para garantir que ela se comportasse. Médico, não deixava a mãe sequer levantar para alcançar o controle remoto. Havia sido inclusive contra a festa, mas não conseguiu convencer Dona Inês a cancelar a tradição.

Então alguém lembrou que cinema na Dona Inês sem pipoca, não é cinema na Dona Inês. E lá foi Ângela se oferecer para fazê-las.

- Ih, Dona Inês, não acho o sal!

- To indo a...

- Não, mãe. Fica aí. Eu vou lá.

E foi bem essa coisa boba mesmo, de um ajudar o outro na cozinha, e deixar cair o milho, e se abaixarem os dois para pegar o milho, e risadas, e constrangimentos. Foi, digamos, um primeiro flerte, que Ângela nunca pensou que fosse passar disso. Desejou, é verdade, mas estava certa de que seria incapaz de trair o marido.

- Uma simpatia, esse teu filho, Dona Inês!

- É! É médico!

terça-feira, 17 de junho de 2008

Mãe imperfeita

Ângela era uma boa mãe. Nunca deixara faltar nada aos filhos, emocionalmente e financeiramente. Ela cometia sim alguns erros, mas nada condenável. É verdade, porém, seu temperamento nunca foi dos mais fáceis.

Se algum filho a desobedecia, instintivamente Ângela gritava, esperneava, dava a maior bronca. Nunca bateu, embora talvez tanto Fabiana quanto Pedro preferissem um tapa ao escândalo, que não tinha hora e nem lugar para acontecer.

Certa vez, em comemoração aos 14 anos de Fabiana, a família toda foi jantar em uma pizzaria. Na hora do parabéns, Pedro gritou: “Vamos levantar ela na cadeira!”. Ângela logo cortou: “Não, Pedro, essa pizzaria não é que nem a que você vai com os seus amigos. É um ambiente sério, este. Vai chamar muita atenção”.

Pedro abaixou a cabeça e fingiu obedecer à mãe. Cinco minutos depois, porém, quando ela estava distraída pensando em qual outro sabor de pizza pedir, Pedro e Matheus, um primo, seguraram as pernas da cadeira onde Fabiana estava sentada e em um grande impulso jogaram a menina para o ar, que, imediatamente, soltou um grito de susto, seguido por uma forte gargalhada.

Se nem toda a pizzaria percebeu o berro de Fabiana, com certeza ninguém deixou de arregalar os olhos para a cena que se sucedeu. A doce Ângela parecia que ia ter um ataque nervoso. Gritava, esperneava, chorava, pedia pelo amor de Deus o respeito de seus filhos. Para Pedro, finalmente ficou claro como poderia ser tão horrível a sensação de chamar a atenção de todos da pizzaria. E a culpa, em parte, era dele.

A mulher descabelada só sossegou na manhã seguinte. Não quis sair em nenhuma foto, e nem aceitou uma colherada do pudim de leite que Matheus, com peso na consciência, ofereceu-lhe. E o desassossego não era nem mais pela desobediência do filho. Era, sim, porque, mais uma vez, ela havia exagerado. Havia dado escândalo. Odiava dar escândalo, mas era impossível conter.

Pediu desculpas no dia seguinte, como de praxe. Dizia que não deveria ter feito isso, mas que às vezes essas coisas escapam. Perguntava aos filhos e ao marido se eles não tinham uma idéia de repente para que ela conseguisse controlar os acessos de fúria. Mas não tinham. E o caso dava-se, assim, por encerrado.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Vida em sociedade

O ano era 1988. Na porta do prédio do “vermelhinho” – como é chamada a pré-escola do Colégio I. L. Peretz – dezenas de crianças barulhentas ganhavam balas. Como eu não estava chorando, eu não ganhei, assim como minha irmã, de 3 anos e meio, dois mais velha do que eu.

Minha mãe foi instruída a continuar no prédio, bem como todas as mães de novos alunos. Ela esperava ansiosa para o momento em que eu sentisse sua falta e chorasse copiosamente até que ela viesse me resgatar com um abraço e as ternas palavras de consolo “Não chora, mamãe tá aqui”. Mas, para sua grande decepção, isso não aconteceu. Durante as três horas do meu primeiro dia de aula, eu desenhei, brinquei e fiz amigos. Principalmente, fiz amigos.

Em julho do mesmo ano, eu passeava no parquinho do Guarujá com a minha mãe quando repentinamente soltei da mão dela e saí correndo. Parei em frente a uma menina ruiva e comecei a pular, enquanto ela, como um espelho, repetia os mesmo gestos na minha frente. Em menos de cinco minutos, minha mãe achou a responsável pela menina ruiva e descobriu que éramos colegas de classe. E, assim, também em menos de cinco minutos, eu descobri as vantagens de se ter amigos: o pai dela pagou para que eu fosse a um monte de brinquedos. Se fosse minha mãe que estivesse bancando a brincadeira, eu teria que escolher dois, no máximo.

Viramos melhores amigas. Eu, a menina ruiva, e uma loirinha, cuja mãe era amiga da mãe da ruiva. Minha mãe perdeu lugar de vez em meu ciclo social. As meninas de cabelos coloridos eram muito mais legais, e os pais delas sempre me ofereciam doces importados. Na casa da loirinha, havia um boneco vermelho que, ao ter o braço pressionado para baixo, deixava cair em sua mão branca um monte de MM’s, aquele chocolate. Mas isso não era nada comparado à máquina de Coca-Cola só dela.

Nossa amizade foi tão intensa, mas tão intensa, que, ao passar para o Ensino Fundamental, a orientadora de escola nos separou, alegando que precisávamos interagir com outras crianças. A partir de então, cada uma de nós assistiria às aulas em uma sala diferente das demais. Foi o começo do fim do nosso trio. Na terceira série, eu escrevi um bilhete para a menina loirinha, para que continuássemos amigas. No dia, ela me deu um abraço e combinamos que nossa amizade não mudaria por causa da escola. Mas, um ano depois, ela era popular e, eu, nerd. Nunca mais nós três fomos amigas.

Outras coisas, porém, não mudaram. A menina que não precisava da mãe para acolhê-la na pré-escola, também rapidamente aprendeu, com as amigas, a andar de ônibus e metrô, dispensando as caronas da mãe. Com quinze anos, tinha independência e a confiança da para viajar sozinha ou chegar em casa a altas horas. Ao mesmo tempo, a perda de amigos a cada mudança de ciclo estudantil também a acompanhou até hoje. Do Ensino Fundamental para o Médio, do Médio para o cursinho, do cursinho para a faculdade. É como se a vida fosse a escola, sempre dizendo: “Está na hora de interagir com outras pessoas”.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Seis espelhos!!

- Outro ônibus? Pensei que a gente já tava em São Paulo – disse Karina quando a tia puxou-a para dentro do veículo.

- É que São Paulo é grande. Já estamos aqui, mas precisa de ônibus pra ir pra casa. E vai se preparando porque a viagem é longa e nem sempre dá pra sentar.

Desta vez, por sorte, deu. Foram as duas sentadas até a casa de Dona Ângela, onde trabalhava a tia, agora mãe, de Karina. Chegaram uma hora depois.

Foram comprar pão. Seis pães. Karina achou caro, sua tia a advertiu de que era assim em São Paulo – tudo mais caro.

- Nossa, mas esse prédio é muito grande! A casa que vamos é muito no alto?

- É. A última. Mas a gente pega o elevador e vai rapidinho.

- Elevador?

- Não vai dizer que não sabe o que é um elevador!

- Saber eu sei, é que nunca vi um de perto, né?

A empolgação de Karina só aumentava. Sentia que não estava em outro Estado, mas em outro país, outro planeta, outro mundo!

- Tem campainha!! Posso apertar?

- Agora não porque tem gente dormindo lá dentro. De tarde eu te deixo. Se quiser eu deixo você rodar a chave. To aqui.

Entraram.

- Ih, tia... – decepcionada – pelo jeito que você falou achei que ia ter um sofá desses bem grandes, que ia ter vários quartos...

- E tem.

- Cadê então? Aqui só to vendo um banheiro do tamanho do da casa da Bahia, e só dois quartos. E em um nem tem cama.

- Então faz assim: vai até lá no canto, onde tem o armário. E olha atrás dele, no canto.

- Ah, tem uma porta. Que que tem atrás, mais um quarto?

- Não, Karina. Aqui é só a área de serviço, onde eu durmo, lavo roupa... Onde ficam os produtos e limpeza, a dispensa. Atrás dessa porta tem tudo o que eu te falei.

A tia não precisou acabar de falar para que Karina abrisse a porta. A casa era ainda maior do que as das novelas. Uma sala duas vezes maior do que sua própria casa. Ainda outra, um pouco menor – quase do tamanho mesmo de sua casa.

Saiu correndo para contar quantos banheiros. Um, dois... Dois, só?

- Em cada quarto tem outro banheiro – explicou a tia.

Eram quatro quartos. Então deviam ser seis banheiros. Seis!!

- Os dos quartos também têm espelhos?

- Do tamanho dos de salão de beleza.

Ah, era demais. Só podia ser um sonho.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

O copo furado

Queria ser
um copo furado
Deveria ser
Deveriam
ser um copo furado.

Não há limite
para um copo furado
Ele não enche
Ele não transborda

O copo furado
se alivia aos pouco
Não de uma vez
como os comuns

Queria ser leve
sã, simples, ampla
Como um copo furado

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Como esquecer um homem, final

- Ô, Caduzinho! Abandonou a gente, mano?

- Que é isso, João. É que achei essas amigas lá na frente e fiquei lá com elas.

- Ah, ta explicado, então. Não quer apresentar não?

As duas ficam tímidas.

- Opa! Essa aqui é a Marcela e a piradinha do lado é a Fabi.

- Mas que bela reputação eu tenho!

No ouvido de Fabi:

- Você não falou que ta interessada? To te ajudando!

- Piradinha, é? Com essa cara de anjo?

- Ih, você não viu nada...

- Cadu!!

- Haha, não fica brava não... As piradinhas são as mais legais.

- Legais, sei. João, né? Sei muito bem o que são meninas legais.

- Ô, não fala assim! Vai, vamos fazer as pazes. Vem pegar uma breja comigo.

- Quer alguma coisa, Má?

- (cochichando) Como se você fosse mesmo voltar... haha

- Acho que sua amiga te abandonou, Marcelinha.

- É, tudo bem. Foi por uma boa causa.

- E a sua “boa causa”, cadê?

- (corando) Minha boa causa? É. Boa pergunta.

- Ah, é que você também não ta olhando direito.

- Então me ensina a olhar.

(Marcela passaria o resto de sua vida imensamente grata por esse momento inacreditável em que sua timidez simplesmente desapareceu)

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- Hahahaha Boa causa??? Ai, Má. O Cadu já foi melhor em cantadas... Mas e aí? Como foi? Você acha que vocês ficam de novo?

- Não sei... talvez em outra baladinha, mas não acho que ele vá me ligar não. Mas se você quer saber, to ótima assim. No final da balada vi o Nathan pegando uma menina. Não senti nada. Juro! Precisava mesmo de outro cara...

- Outro cara nada amiga. O cara. É só uma coisa que você precisa enfiar na sua cabecinha. Você não amava mesmo o Nathan. Não foi problema de coração partido. Foi problema de vaidade ferida, de auto-estima baixa. Tipo... “Como assim eu não sou perfeita para esse cara?”. Vai dizer que você nunca pensou nisso.

- Ah... assim assim também não... Mas faz sentido isso. Porque, agora que eu peguei o cara "mais lindo do mundo", não dou a mínima pra Nathan nenhum.

- Auto-estima recuperada. Simples assim.