segunda-feira, 11 de agosto de 2008

10 perguntas não respondidas

Por que a escrita, apesar de tão antiga e de ter passado por tantas transformações, não cumpre 100% a necessidade humana de comunicação?

Por que insistem em servir melancia de sobremesa?

Por que TPM dá carência e vontade comer chocolate?

Como é possível uma mesma pessoa ter preguiça de dormir, de acordar, de tomar banho e de sair do banho?

Por que o motor 1.0 do Fox seria melhor do que o motor 1.0 do Gol?

Por que a divisão de papeis em um grupo de teatro nunca é justa?

Por que o bom-senso não é atributo de todas as pessoas do mundo?

Por que não é divulgado por aí que um barra de cereal pode ter mais calorias do que 6 Pringles e que 6 Pringles têm a mesma quantidade de calorias do que uma colher de sopa de Moça Fiesta de brigadeiro?

Por que pessoas que fazem Letras gostam de não se pentear e de pôr roupas grandes?

Por que cheiro não sai em fotografia?

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Querido Sol,

Sei que sua ausência estava sendo clamada por muitos brasileiros. Sei que não houve egoísmo algum em sua escolha de não comparecer hoje. Confio em você, sol. Sei que, no fundo, você só quer o nosso bem.

Mas sol! Como posso dizer isso? Sol! Preciso de você de novo. Você não entende?

Sem você, eu tenho preguiça. Sabe o que é preguiça? Provavelmente não. Você está sempre com tanta energia, não é?

Preguiça é uma vontade anormal de não fazer nada. De ficar em casa o dia inteiro, debaixo do cobertor, comendo e assistindo à televisão. Não! Isso não pode acontecer, não pode.

Primeiro, porque estou em ano de TCC e preciso ler um texto enorme pra uma faculdade, e um livro pra outra. Não tenho tempo para ficar debaixo do cobertor assistindo a televisão o dia todo.

Segundo, porque não tem nada de bom passando na tv. Tem a abertura das olimpíadas, mas que saco! Ok, é bonito, mas não compensa a voz irritante daquele cara que só fala besteira. E como demora... Mesmo com preguiça, não agüento tanto tempo de chineses batucando.

Terceiro, porque eu não posso passar o dia comendo. Domingo é dia dos pais, sabe o que isso significa? Muita comida. Muita mesmo. E foi tão difícil perder aqueles quilinhos... Não quero ganhar tudo de volta em apenas um dia.

Por isso sol, me ajude. Eu imploro, volte! Venha iluminar meu dia. Mande-me para a piscina. Fico sob os seus raios lendo o livro, ou o texto. Faça-me querer uma salada no lugar de um chocolate quente. Tire-me de casa! Passe a mim um pouco de sua tão abundante energia. Por favor, sol, por favor. Atenda a esse meu pedido egoísta. Só dessa vez...

Espero te ver em breve,

Com amor,

Diana

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Em círculos

- Alô

- Oi, sou eu

- Oi!! Você não vem?

- Já cheguei, to aqui embaixo.

- Então sobe.

- Preciso estacionar o carro. Não tem vaga.

- Como não. Na rua, não tem?

- Não. Ta lotado. Provavelmente com o carro de amigos seus. Quantas pessoas você chamou?

- Umas trinta.

- E todas tinham que vir de carro?

- Você ta dirigindo com o celular?

- Não, to parado num lugar proibido com o pisca. Cansei de ficar dirigindo em círculos. Mas e aí?

- E aí o quê?

- E aí onde eu deixo meu carro, oras.

- Tenta estacionar em outro lugar.

- Não tem. Já rodei uns cinco quarteirões por aqui. Não tem nenhum lugar. Nenhum.

- E o que você quer que eu faça?

- Sei lá. Você me convidou. Acha uma vaga pra mim.

- Você quer que eu crie uma vaga? Quer que eu mande algum amigo embora pra você pegar a vaga dele? Não tem o que fazer. Eu sinto muito, mesmo, mas acho que você vai ter que deixar seu carro longe.

- É perigoso.

- Deixa no shopping, que é aqui perto. Aí você pega um táxi.

- To duro. Não dá pra pagar táxi.

- Ai... Eu pago pra você.

- Não posso aceitar.

- Olha, eu vou voltar pra minha festa. Se quiser vir vem, se não quiser não vem. Eu te falei desde o começo que você não precisava vir se não quisesse.

- Você não pode me buscar no shopping?

- E deixar meus convidados sozinhos?

- Ué? Você não confia nos seus próprios amigos?

- Claro que confio.

- Então.

- Então que prefiro gastar 7 reais no seu táxi do que ir até o shopping só pra te buscar.

- Nossa.

- Que foi?

- Eu não faria isso com você.

- É, pois é, somos diferentes. Talvez foi por isso mesmo que terminamos, se não me engano.

- Talvez ainda estaríamos juntos se você...

- Se eu?... Alo? Se eu o que? Ooooi! Ficou mudo agora?

- Alo?

- E aí, não vai responder?

- Desculpa, é que livrou uma das vagas aqui e eu fui estacionar. Já to subindo. O que estávamos falando mesmo?

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

As dúvidas de Karina

Com a separação de Ângela e o conseqüente afastamento de seus filhos, Karina começou a ganhar mais e mais atenção da dona de casa. Pôde jogar videogame, ver tv e até faltar à escola apenas porque queria.

Foi nessa época também que Karina notou uma subida mudança de humor em sua tia-mãe. Ela andava cabisbaixa, melancólica, deprimida. Karina teve medo de ter dito ou feito algo de errado. Mas não sabia o quê. Comentou com Ângela.

- Triste? Não, não. Deve ser só cansaço, por causa da idade.

Karina não entendeu como a idade poderia deixar a mãe cansada. Tampouco como a tia poderia estar cansada.

- Ela diz que ta com falta de sono! Nem dorme muito a noite.

- Pergunta pra ela, então.

- Mas e se for alguma coisa que eu fiz?

- Então não pergunta.

Por dias Karina, aquela menininha que então contava 11 anos, observou cada gesto e cada palavra da mãe. Pensou, refletiu, repassou mentalmente todos os acontecimentos de que havia reparado na mudança de humor. Escreveu uma carta. Rasgou. Escreveu outra. Começou a escutar vozes em sua cabeça da mãe gritando com ela. Gritos que nunca havia ouvido, mas escutava em sua mente. Após um Mês, tomou coragem e perguntou.

A coisa era simples. A mãe estava enciumada.

- Eu... Acho bom para você que a Dona Ângela goste de você... É só que... Você... Vai me trocar por ela, não vai?

- Te trocar? Por que eu faria isso?

A mãe tentou explicar, mas era algo tão inviável para a menina que nada que a mãe dissesse faria sentido. A não ser o “eu te amo, filha”, para concluir a conversa, que foi correspondido por Karina.

O ciúme acabou aí, mas esse mês definiu a personalidade de Karina pelo resto de sua vida. Por tanto ter pensado e conversado consigo mesma sobre o que teria acontecido com a mãe, sem ter chegado à conclusão alguma, achou, quase sem querer, que precisava treinar mais o pensar. E começou a usá-lo com tudo. Tudo mesmo. “Por que aquele homem na padaria deixou a mulher ficar com o troco? Será que ele tava com muita pressa?”, “Por que quando eu tomo banho prefiro começar a me ensaboar pelos pés?”, “Por que quando as pessoas casam, elas precisam usar anéis?”. Dia após dia, ia conversando consigo mesma sobre tudo o que via e ouvia.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Velozes e furiosos

Adianta ter pressa? Não vou conseguir andar mais rápido do que isso. Não com esse dedo. Pelo menos assim eu observo um pouco as coisas em volta. Aquele prédio antigo, por exemplo, acho que nunca tinha reparado nele. Deve ser tombado. Olha! Uma banca que recarrega bilhete único. Achei que nenhuma por aqui carregasse mais. Gente, mas essa calçada... Pelo amor de deus.

Essas pessoas podiam ser mais bonitas. Mais agradáveis pelo menos. Será que eu consigo fazer alguém olhar no meu olho? Hum... Alguém? Sou mais bonita que o chããão! Olhem pra mim! Ooooi! Não? Mesmo? Eu prometo, dou um sorriso. Mas também nessa velocidade nem olhando em frente dá tempo de olhar nos meus olhos.

Não vou chegar nunca! Devia ter vindo de carro. Não é uma sensação muito boa ficar sendo ultrapassada por pessoas bufantes. Será que se eu parar de repente alguém esbarra em mim? Não vou tentar.

Ah, aquele homem. Ele não ta vindo tão rápido assim. Ele ta levantando a cabeça! Eba! Isso, isso, olha pra mim! Olha pra mim! Meu, deus, acho que ele ta sorrindo! E o braço! Ele ta levantando o braço. Ah, não, daí até já é meio bizarro. Ele deve estar vendo alguém atrás de mim. Não, ninguém. Ué, mas ele ta com um lenço na mão? Ok, ele só queria espirrar. Ainda bem que eu ainda não tinha começado a retribuir o sorriso.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Colorindo (final)

- Já vi que vamos desenhar florzinha...

- Não é bem isso.

Trafegaram por mais 15 minutos. A moça estacionou. Desceram com as latas de tinta. Houve a explicação:

- Vai ser assim. Vamos pintar a rua mesmo, onde os carros passam, com a tinta rosa. A calçada, de roxo. E depois podemos usar o verde e o azul pra fazer os desenhos. Nem florzinhas, nem super-herói, nem protestos... Não quero passar mensagem nenhuma, entendem? Quero apenas mudar a cara de uma rua. Torná-la mais... interessante.

- Por que isso?

- Por que você fez esse buraco aí na orelha?

- Porque é da hora, sei lá, pra ficar diferente.

- A tinta é o buraco na orelha da rua.

- Que que ela ta falando?

- Sei lá, ficou doida.

- De qualquer forma, vamos pintar a rua. E com formas. Desenhos abstratos. Sabem? Traços, figuras geométricas...

- Não peguei não.

- Eu vou fazer um exemplo antes aí você vão se inspirando. Melhor vocês colocarem as camisetas velhas se quiserem que as novas continuem limpas.

A rua possuía uma leve inclinação. Ela subiu na parte mais alta. Abriu a lata. Deixou que toda a tinta rosa escorresse, como um rio. Ia da direita para a esquerda, para que cada canto da rua recebesse sua parte. Os meninos, imitando-a, deixaram as calçadas roxas. Então depararam-se com outro erro de planejamento da mulher:

- Vamos ter que esperar essa tinta toda secar.

Resolveram ficar dentro do carro ouvindo música. Chegou um policial.

- O que ta acontecendo aqui?

- Estamos pintando a rua.

- Isso é proibido.

- Gostaria de ver minha identidade, policial?

- Por favor.

Ele examinou, enquanto ela dizia:

- Imagino que esteja interessado em uma posição mais privilegiada dentro da polícia. Pois bem. Por que não me deixa seu nome e sobrenome, e eu dou um jeito nisso?

- Seria muita gentileza sua.

- É um agradecimento pela sua gentileza em nos deixar pintar a rua.

- Pinte a rua.

Escreveu em um pedaço de papel seu nome e sobrenome. Ela colocou o papel dentro da carteira. Ele saiu. Os meninos se entreolharam, mas, lembrando do combinado, não fizeram perguntas.

Depois de um tempo, voltaram à pintura.

Desenharam curvas, traços, círculos, espirais, triângulos. Verdes, azuis, rosas – somente nas calçadas – e roxos – somente na área de tráfego. A rua ficou especial, não se pode dizer o contrário. Ela não errou quando definiu o projeto como o buraco na orelha. Pois, como esperado em um mundo real, o resultado não foi bonito. Nenhum dos três tinha muitos dons para as artes. O rosa, fraco, mal conseguiu esconder o forte cinza do cimento. Mas a rua ficou diferente. Interessantemente diferente. Virou atração do bairro. Um mês depois da obra, quando o prefeito decretou, por insistência de sua irmã, um Dia Nacional das Cores, centenas de pessoas, inclusive a imprensa, foram comemorar no minúsculo local.

Ninguém se perguntou quem havia feito o trabalho. Acharam que era coisa da Prefeitura mesmo. Os meninos contaram a todos do bairro que haviam sido eles, mas ninguém acreditou. Ficaram apenas com o gosto bom daquele dia. E com a terrível sensação de que, sim, para que a vida fosse boa, era necessário ter dinheiro e poder.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Colorindo (4a parte)

- É a melhor dor que já senti na vida!

Patinaram por toda a uma hora a que tinham direito. Saíram reclamando como nunca da dor que sentiam, mas também agradeciam a moça de minuto em minuto pelo dia.

- Só to com medo do que vai ser essa coisa que você vai pedir pra gente. Pra ta sendo tão boazinha assim... É coisa ilegal, é, Dona?

- Não vou responder. Falta pouco pra vocês saberem. Só garanto o seguinte: Nada de ruim irá acontecer com vocês. Nada mesmo. E... se vocês querem saber, a patinação no gelo já faz parte do favor.

- Como?

- Sei lá. Dá uma sensação tão boa ser a responsável pela felicidade dos outros.

- Pô. Se quiser pode ser a responsável pela minha felicidade quantas vezes quiser! Não ligo não!

- É, bom, mas agora são vocês que vão me deixar feliz. E ficarem felizes também. É tudo uma via de duas mãos, tão percebendo? Não, né? Tudo bem. Vamos embora porque se não não vai dar tempo.

- Pra onde vamos?

- Pra uma rua pequenininha, aqui perto. Com certeza ela estará vazia. Em dia de semana, fica um trânsito lá insuportável. E é tão feia... Então... Nós vamos...

- Pintar a rua?

- Você é mesmo inteligente, Cabeça!

- Mas, moça, isso não é proibido?

- Você também é inteligente, Pulu. Mas não se preocupem. Eu sou a favor de ser ilegal quando a coisa é pro bem.

- Mas e se pegarem a gente? Não sei não...

- Olha: palavra de honra que, com ou sem polícia, ninguém vai prender nem multar a gente. Eu não conheço a família de vocês, vocês não conhecem a minha.

- São da polícia?

- Sem peguntas. Não interessa quem são ou o que fazem. Interessa que, se eu quero pintar a rua, eu posso pintar a rua. E eu vou pintar a rua. Tenho certeza que vai ser uma das coisas mais divertidas que vou ter feito na vida. Mais legal do que patinação no gelo. E aí? Vão me ajudar ou não?

- To dentro!

- Eu também! Posso desenhar o super-homem?

- É , então, sobre isso eu tenho que colocar algumas restrições...

- É, Pulu, já vimos que vamos desenhar florzinha...