quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A biblioteca da FAU (Como saber que ele é o grande amor, parte 5)

- Se você até me citou Kafka, amiga, eu vou.

Fabiana foi na segunda-feira seguinte até a biblioteca da FAU. Nunca tinha estado lá, e ficou surpresa com a quantidade de estudantes sentados em frente a grandes volumes abertos. Sentiu-se uma péssima estudante.

Também não estava muito à vontade. Havia caprichado muito na roupa e na maquiagem e, claramente, não pertencia àquele lugar.

Então, na mesa de estudos mais central, avistou Cristhian. Pegou uma revista de decoração francesa – a primeira que viu – e sentou-se na mesa da frente, como se não o houvesse notado.

Como aparentemente o rapaz estava muito entretido com um livro de cenários, ela achou melhor passar mais tempo escolhendo uma revista. Quem sabe o excesso de tempo que uma menina poderia passar em frente a uma pequena estante não chamaria atenção...

Deve ter ficado em pé, parada, por cinco minutos. Então teve a brilhante idéia de jogar algumas revistas no chão, acidentalmente, claro. Um segundo depois já não achava a idéia tão brilhante assim, pois não apenas Cristhian, mas toda a biblioteca voltou os olhares a ela, a menina barulhenta e desastrada.

Achou a idéia menos brilhante ainda quando percebeu que deveria ficar agachada com sua micro saia para retirar as revistas do chão. Teve a esperança de que alguém a ajudasse, mas ninguém se manifestou.

Voltou a se sentar, sem compreender porque Cristhian não fora falar com ela, apesar de certamente tê-la visto. Ficou envergonhado, só podia ser. Talvez não gostasse da forma como ela havia se vestido. Achou-a feia, devia ser isso. Lembrava ela bonita e agora que vira a verdadeira Fabiana desiludiu-se.

Ah, não. A culpa era toda de Marcela. Hoje mesmo iria tirar satisfação com a amiga. Afinal, não era a ela que Cristhian se referia no filme, mas talvez àquela menina estranha sentada ao lado dele.

Queria morrer. Era como se o livro de sua vida fosse queimado, e o príncipe encantado tivesse deixado de existir. Pior: ainda existia, mas não era mais dela.

Inspirou fundo, levantou para ir embora.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Sono

Se eu pudesse voar, me jogaria desta janela imediatamente. Mas apenas se eu pudesse voar.

Se eu pudesse voar, daria mortais triplos. Ou melhor, quíntuplos. Um atrás do outro. Mesmo já tonta. Muitos mortais, sem nenhum risco de morte.

Se eu pudesse voar, não voaria tão alto que fosse impossível às pessoas me verem. Mas, se eu pudesse voar, voaria o mais alto possível, até quase me perder sem gravidade, para o infinito.

Iria para todos os lugares, mas, se apenas eu e só eu pudesse voar, não voaria para o frio. Só para o quente.

Talvez, se eu pudesse voar, eu não voaria, mas sim dançaria. Feito uma criança gordinha que começa a fazer aula de balé. Ou os hipopótamos de Fantasia.

Estaria sempre com um lenço, para nunca espirrar no ar, sobre as pessoas.

Voaria de pijama. É mais confortável.

Voaria com um travesseiro, para ter um apoio para a cabeça, ou para as costas, ou mesmo para a bunda quando estivesse cansada.

Voaria agarrada a um bichinho de pelúcia.

Voaria ouvindo música bem baixinho.

Voaria pensando na vida. No dia. Nos problemas que acabaram e nos que estão para começar. Nas coisas boas que passaram e que podem continuar.

Voaria um sonho. Desses que eu tinha quando eu sabia dormir sem ser de mentirinha.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Método simples para dar ânimo aos estudos

Eu descobri que uma das pessoas que caiu neste blog procurava no google "Ficar animado para estudar". Não sei se essa pessoa voltará ao blog - creio que não - mas resolvi deixar registrado aqui a minha fórmula para ficar animada para estudar. Devo apenas dizer que ela pode gerar alguns efeitos colaterais, como aumento de peso e vício em joguinhos de computador.

Também não sei se funciona com qualquer um. Sou muito métodica, creio que por isso ajude comigo. Mas não custa nada tentar.

Trata-se de você ir se premiando conforme estuda. Se o estudo é a leitura de um texto de, digamos, 50 páginas, você estabelece que a cada 10 páginas você vai fazer uma pausa - de 2 a 5 minutos - para comer um chocolate, comer uma bolacha, fazer um micro lanche, ou jogar um joguinho no computador. Vale paciência, campo minado, free cell... Até coisas simples, como ver se chegou email, entram no intervalinho.

Atenção: O intrevalo deve ser curto. Por isso, pode-se fazer apenas uma coisa durante ele. "Ah, mas não perco nenhum tempo vendo meu email. Não posso ver e jogar paciência?" Não, não pode. Jogue paciência e deixe o email para as próximas 10 páginas.

Se você não curte nada dessas coisas, encontre algo que curta. Ligue para o namorado, ouça uma música, toque uma música, assista um vídeo no YouTube, entre no msn...

Se ainda assim estiver impossível ler as 10 páginas, mude para 5. Se o estudo for fazer exercícios, estabeleça o intervalo a cada 10 exercícios, ou 20, ou 5, dependendo da dificuldade. Se preferir, o intervalo pode ser estabelecido não de acordo com o número de páginas, mas de acordo com o tempo de estudo. Por exemplo: a cada meia hora, haverá um intervalo.

Vale atentar para o fato de que estudar é chato de qualquer jeito. Ainda com o método será chato ficar sentado lendo um texto quando tá passando um filme ótimo na televisão. Os intervalinhos apenas são um incentivo para continuar estudando. Para pensar "Só mais duas páginas, e vou comer um pedaço daquele bolo de chocolate".

Bons estudos, espero que funcione!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

E se morrer?

Dia após dia, Karina ia conversando consigo mesma sobre tudo o que via e ouvia.

Um dia, já com 15 anos, voltando do colégio para a casa, distraída com o pensar, atravessou a rua sem perceber o semáforo aberto aos carros.

Deu sorte. Justo naquele momento, apenas um carro estava passando, e não em uma velocidade suficientemente rápida que o impedisse de desviar da menina.

Houve buzinas. Mas nenhum acidente.

- Que louca. Nossa. Essa foi por pouco. Já pensou? E se eu tivesse sido atropelada? Até que não seria tão mal... Tem prova de matemática amanhã, eu não precisaria estudar. Se fosse feio, e eu morresse, nunca mais ia precisar estudar. Mas, pensando assim, que seria bom morrer, eu mesma poderia me matar, não precisaria de um carro pra fazer isso. Sem contar que se eu morresse atropelada, o motorista poderia ser preso, ficar traumatizado, e tal. Não. E se ele tiver uma filha? Coitada... Eu não ia gostar se minha mãe fosse presa só por que uma menina não quis estudar pra prova de matemática do dia seguinte. Quanto egoísmo! Seria horrível se minha mãe fosse presa por isso... O pior é que não é tão improvável assim acontecer. Acidentes de carro acontecem o tempo todo. O bom é que minha mãe não dirige, mas a Dona Ângela. Ai, já pensou se neste momento a Dona Ângela está se envolvendo em algum acidente de carro. Tudo ficaria muito diferente se a Dona Ângela morresse. Espero que não aconteça nada. O que poderia acontecer também é de o motorista que quase me atropelou ter ficado bravo. Vai ver agora mesmo ele está bem atrás de mim prestes a me lançar um tiro nas costas. Prefiro morrer a ficar um vegetal. Posso ficar paralítica também. Não sei se prefiro.

Chegou a casa e o pensamento deu um tempo com as distrações da hora do almoço. Karina nem se deu conta de quão macabros poderiam ser seus pensamentos. Ela não desejava morrer. Tampouco gostaria que algo de ruim acontecesse à sua mãe ou a Ângela. Ela simplesmente ia pensando, sem temer a morte. Ou melhor, temer a morte, até que ela temia. Só que, em momentos como esse, ela não estava preocupada com nada. Apenas pensava suposições. E achava normal.

Dia após dia, passou a imaginar formas improváveis de ser morta. Ou de que alguém próximo a ela o fosse. Cair no metrô, levar um tombo, pegar câncer, ser mordida por um cachorro...

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A incerteza é sempre um tormento (Como saber que ele é o grande amor, parte 4)

- Não, amiga. Semana que vem.

Fabiana passou uma semana procurando críticas sobre o filme na internet. Descobriu que era romântico, e que seria mais agradável ao público do Cinemark do que ao do Espaço Unibanco. Desde quarta-feira já tinha em mente qual roupa usaria. Só não estava certa quanto ao brinco e ao perfume. Afinal, ele poderia aparecer por lá.

Foi surpreendida pelo pai algumas vezes falando sozinha.

- Ai, claro que ele não vai. Já faz mais de uma semana que o filme estreou. Nem sei porque vou assistir... Mas talvez... Né? Se ele estiver me procurando...

O sábado chegou. Foi buscar Marcela e, duas horas antes de começar a sessão, já tinham os ingressos em mãos.

- Duas horas, Fabi?

- Desculpa, Má, me enganei. Achei que fosse mais cedo – mentiu.

Ficaram no café até entrar no filme, do qual saíram, duas horas depois, assustadas, perplexas, ansiosas, entusiasmadas, curiosas, duvidosas. Atormentadas. Marcela foi quem quebrou o silêncio.

- Você acha que...

- Não pode ser, né?

- Mas é tanta coincidência.

- Mas vai saber quantas meninas ele não encontra falando mal de um filme dele.

- Em um café. E uma faz arquitetura, e chama Fabiana...

- E ele promete escrever quando será o lançamento do novo filme no cardápio e não consegue...

- Só porque agora os cardápios são plastificados e.

As duas se olharam. Correram até o café. Sim, os cardápios estavam plastificados. Não era possível. Fabiana não se achava tão atraente assim para tornar-se personagem principal do filme de um diretor que conheceram por apenas 2 minutos. Não podia ser. Mas a história de como haviam se conhecido, os diálogos... Tudo tão igual. Será?

- Só tem um jeito de a gente descobrir?

- Como?

- Continuando o filme. Faz sentido, Fabi. O cara conhece a menina. Não consegue encontrá-la...

- Ele sabe que todo sábado estamos aqui.

- Vai ver ele só quer te encontrar se tiver certeza de que você também quer vê-lo. Homem!

- É. Mas isso significa que... a biblioteca da FAU?

- Acho que sim. Se no filme o cara passa todas as manhãs de segunda-feira na biblioteca da FAU na esperança de um dia te encontrar...

- Encontrar a menina.

- Tanto faz. E com certeza ele não passa de fato todas as segundas lá. Talvez desde que estreou o filme.

- To achando isso meio estranho, Má. Sei lá. Qual a chance de eu ter sabido do filme e assistido?

- Mas seria muita coincidência. Não custa tentar. Além do mais, se você não for, vai ficar pra sempre se perguntando. Acaba logo com a dúvida.

- Você acha?

- “Mesmo a mínima incerteza no assunto mais insignificante é sempre um tormento, e quando é fácil eliminá-la, como neste caso, então é melhor fazê-lo o quanto antes”.

- Drummond?

- Kafka.

- Se você até me citou Kafka, amiga, eu vou.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O mau professor

Não sabe, não,
Não sabe
A quem quer enganar?

“Olha no dicionário”, diz
Aos alunos o bom professor
Enche-se de graça:
“Assim aprenderão melhor”

Mentira, sim
Mentira
Tem é vergonha de tornar pública sua ignorância

Sagaz, porém,
Não há quem contra ele possa
“Reclame, sim. O que não gosta na aula?”
“Deixa quieto”, digo. Preciso de nota.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Como saber que ele é o grande amor, parte 3

Mais de um ano havia se passado desde a situação embaraçosa que Marcela e Fabiana tiveram com o diretor brasileiro no café. Também mais de um ano havia passado desde que Fabiana resolvera sempre dar uma olhada no cardápio, mesmo que, afinal de contas, o pedido sempre fosse:

- Um expresso puro, por favor.

A menina mantinha a esperança de que o cineasta deixasse algum aviso sobre seu novo filme entre o preço de um capuccino e o de um chá quente.

- E aí? Alguma mudança no cardápio dessa vez? Quem sabe um café com licor de frutas vermelhas, marshmallow e castanhas?

- Quê?

- Poxa, faz uns dois anos que a gente vem aqui. Você sempre pede a mesma coisa. Mas toda vez fica olhando o cardápio e TODA vez fica com essa carinha emburrada.

- Não fico nada.

- Fica sim. Se você quer alguma coisa especial, pede pro garçom, talvez tenha. Ou a gente pode começar a ir em outro café, tem um legal

- NÃO! Não, eu gosto daqui.

- Ta bom...

- É que... Ai, ta bom. Você vai me achar uma idiota, mas ok. Lembra do Cristhian?

- Cristhian?

- É, o diretor daquele filme que a gente encontrou faz mó tempo...

- Ah, sei. Aquele babaca.

- É, então. Ele disse que ia fazer outro filme, e que deixava um aviso no cardápio. Por isso, eu sempre procuro um aviso, mas nunca tem nada!

- E por que você estaria interessada no novo filme dele?

- Não sei. Nem é no filme que eu to interessada.

- Hum...

- Não é isso! É que se ele falou que ia deixar anotado no cardápio, por que não deixou? É ridículo isso! É como pedir o telefone e depois não ligar! Não pede o telefone, então!

- Ah, sim, a mesma situação mesmo. É. Igualzinho. Mas bom, eu não tinha te falado porque não achei que você fosse se interessar tanto. O novo filme dele entrou em cartaz semana passada. Chama... Como saber que ela é o grande amor. Criativo ele, não? O de antes era Como saber que ele... Agora é ela. A gente pode ir semana que vem.

- Ah, também, não é que eu faça questão de ir no filme, só fiquei brava por causa da história do cardápio.

- Fabi. Nós vamos. Aposto que por você a gente iria agora.

- Quer?

- Não, amiga. Semana que vem.