quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Dia do Perdão

Enquanto “rezam” com um livro na mão, o que passa pela cabeça de algumas (muitas) pessoas em algumas (muitas) sinagogas de São Paulo, em Iom Kipur – o Dia do Perdão?

Na ala das mulheres:

- Nossa, coitada da filha da Dona Betty, como está envelhecida!

- Olha como esse rabino é bonito... Será que é casado? Deve ser...

- Meu deus, mas isso não acaba nunca? Que enrolação!

- Fala que podemos nos sentar! Fala que podemos nos sentar! Não devia ter vindo de salto!

- Nossa, mas cada ano as pessoas vêm mais mal vestidas, não? Nem salto mais usam!

- Ih, esse penteado não ficou bom nessa senhora da frente... Talvez se ela desse uma tingida nos fios brancos...

- Não gostei dessa decoração. No ano passado tava mais bonita.

- Ai que fome... Acaba logo pra eu poder comer! Preciso comer! O jejum inclusive já deve ter acabado a essa hora... O que será que vai ter na casa da minha sogra? Podia ter lasanha... Hum... Uma lasanha cairia tão bem...

Na ala dos homens:

- Por que eu ainda venho de gravata? Por que inventaram a gravata?

- Essas meninas do coral já foram mais bonitinhas...

- Olha, o Elias ta aí. Com que carro será que ele veio hoje?

- Como as filhas do Nelson tão bonitas... Meu filho podia ir conversar com elas.

- Que bom que comprei esse lugares logo aqui na frente. Olha só, estou num dos melhores lugares. Que bom! Isso é que é ser bem-sucedido! Nem todo mundo consegue um lugar tão na frente!

- Acho que essa minha calça já ta muito velha. Ta até meio rasgada...

- Será que o Gabriel ta tomando bomba? Ele não era tão forte assim...

- Ai que fome... Acaba logo pra eu poder comer! Preciso comer! O jejum inclusive já deve ter acabado a essa hora... O que será que vai ter na casa da minha sogra? Podia ter lasanha... Hum... Uma lasanha cairia tão bem...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Em São Luis do Maranhão

Em São Luis do Maranhão, lá na pracinha clara às 8 horas da noite, os pratos de 70 reais para duas pessoas são vendidos como água a um real para turistas suados, fatigados e fatigantes. É vendido também um barulho, que os garçons dos restaurantes chamam de Música Ao Vivo. Cada um da mesa deve pagar cerca de 7 reais, querendo ou não ouvir o barulho.

O lugar também funciona à tarde. Mas se algum turista cansar de almoçar mini pizza de 15 reais, pode perguntar a algum moço de roupas rasgadas – obviamente um maranhense – onde é que ele costuma comer.

Ele então te indicará um lugar escondido, ainda que bem próximo. Indo em frente por ali, depois do restaurante com música ao vivo – Qual? Aquele ali? – Não. Aquele um pouco mais vazio. Não aquele, nem aquele ali... O das cadeiras com capas azuis. Esse. Indo em frente por ali, vira-se a segunda à direita. Depois primeira à esquerda, segunda à esquerda. O lugar parece uma casa. Tem que ir perguntando onde servem comida.

Ok. Frente, direita, esquerda – Estamos certo? Ele falou alguma coisa sobre uma feira com urubus? – Não. Mas deve ser por aqui. – Espero que não seja. São muitos urubus.

Chegando à provável rua certa, deve-se observar bem cada construção. Uma casa de tijolos mal construídos pode na verdade ser um restaurante. O prato custa 5 reais. Vem frango ou carne, arroz, feijão, macarrão e salada. Com exceção do frango ou da carne, o resto dá para duas pessoas. A Coca de dois litros sai quatro reais, mas o dono te oferece, caso você nunca tenha provado, um copo de suco de murici. Acha pouco um copo? Acredite, você não vai querer beber mais do que um gole. Ou melhor: vai se arrepender de ter dado um gole. Melhor gastar os quatro reais na Coca.

O negócio com o bom moço leva ainda vantagem em relação aos restaurantes da mini pizza porque lá não tem barulho – nem pago e nem de graça. No lugar, o simpático homem que te fez beber a pior coisa da sua vida bate um papo com os clientes. De onde são, o que fazem, como é a vida... Nada muito profundo, mas tudo muito gostoso.

Está dado o recado: quando for a São Luis do Maranhão, não deixe de almoçar no restaurante próximo à feira com urubus. Mas é melhor perguntar a localização exata, porque eu dei aqui direções aleatórias. A comida é boa e barata. Limpa, eu não posso garantir. Mas não tive nenhum problema intestinal, eu garanto. Apenas lembre-se de não beber suco de murici.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Desculpa do dia: sou mesária

Direto ao ponto:

Estou criativamente esgotada. Ou preguiçosa. Não sei direito.

Então pensei em me dar o luxo de não escrever, com essa desculpa. Mas também pensei que ainda não estou na última semana antes de entregar o maior trabalho da minha vida, e deveria deixar esse dia luxuoso só para quando for essa semana.

Aí lembrei que domingo fui mesária, e que mesários ganham um dia de folga no trabalho. E como o blog não deixa de ser um trabalho, posso usar esse dia de folga.

E como haverá segundo turno, eu serei mesária novamente. Aí terei mais um dia de folga antes da entrega do trabalho.

Resolvido, então. Por hoje, abandono-os. O domingo foi triste, comprido e chato. A terça vai ter que ser melhor do que isso.

Até amanhã!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Neve no Reino da Morangolândia

Fazia sol no Reino da Morangolândia. Um sol gostoso. Suave, com sombra e água fresca.

As crianças-morangos brincavam de roda, enquanto os pais-morangos estavam deitados sob o sol para ganhar uma cor. Afinal, todos sabem que, quando se trata de um morango, quanto mais vermelhinho, melhor.

Então, como acontecia de tempos em tempos, a Grande Mão acolheu alguns e levou-os para serem banhados no Grande Rio Com Cachoeira.

Os escolhidos ficaram em estado de êxtase! Sempre quiseram ir banhar-se no Grande Rio Com Cachoeira. Era verdade que os que iam jamais voltavam. Mas e daí? A vida de um morango não é longa mesmo... Eles queriam mais era aproveitar e se jogar em tanta água.

E agora era a vez deles. Mergulharam e, então, foram levados para outro vale, bem pequeno, onde ficaram uns sobre os outros. De pé, cabeça para baixo, deitados, de cócoras...

De repente, sem mais nem menos, começou a nevar. Neve no Reino da Morangolândia! Isso nunca havia acontecido! E era uma neve tão docinha, mas tão docinha... até parecia açúcar. Os morangos começaram a sugar a neve, e só caía mais. Mais e mais, até que ficaram todos soterrados.

Sentiram então um estranho tremor, e um grito do Morango-Ligeirinho. Olharam para cima. Morango-Ligeirinho estava sendo levado para cima por um gigante prateado de quatro pernas, que nunca antes haviam visto. As pernas do gigante tinham perfurado o corpo do colega, que agora era dirigido à entrada de uma caverna escura, que se fechou tão logo ele entrou.

E, de um em um, todos os morangos foram perfurados pelo gigante e levados à caverna, que se abria e fechava a todo instante.

Ninguém nunca mais os viu, mas, até hoje, todos os morangos da Morangolândia esperam pelo dia de mergulhar no Grande Rio com Cachoeira.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Ela

- Como está o papai?

- Não sei o que te dizer. Até ontem estava como sempre, mal humorado, mas quieto. Essa manhã que acordou falante.

- Ué? Isso não é bom?

- Não sei... Ele só fala de uma moça. Deve ser uma namorada de infância, dos tempos do sítio. Diz que precisa dela, que não aguenta mais a vida sem ela. “Ela, ela, ela”, é só o que diz. Nem quis andar com o Heitor no Parque do Ibirapuera. Ele nunca recusa dar uma volta no parque.

- Mas ele também nunca gostou de andar neste calor. Depois do almoço vou para o clube. Quem sabe ele não gosta da idéia de dar um mergulho na piscina? Agora tem até uma aquecida.

- É...

Fazia 27º em São Paulo. Seu Luís, que tinha lá seus 80 e poucos anos, assistia, da janela de um prédio no Itaim, onde morava, seu neto Heitor chegar da caminhada. A solidão do rapaz apertou seu coração. Mas estava muito quente para sair na rua, e, afinal, desde que se mudara para o apartamento de Julia, sua filha mais velha, nunca recusou um convite do neto para passear.

Neste momento, ao meio-dia, Izabel, sua caçula, chegara para o almoço. Como sabia que as meninas não perdiam uma só oportunidade para discutir sua saúde física e mental, deixou-as conversando a sós na sala por um tempo, fingindo não ter escutado a campainha. Até que ouviu o chamado de Julia, e foi juntar-se à família.

Foi, mas com relutância. Estava cansado dos esforços das filhas para tirá-lo de casa. “É importante tomar ar fresco, papai”, diria Izabel. “O dia está tão lindo, e o médico disse que você precisa andar todos os dias”, diria Julia. E, em uníssono: “Vamos, papai!”

De fato, Seu Luís precisava de ar fresco. Mas hoje em dia, pensava, não se acha essa preciosidade em qualquer lugar. Lá sim. Lá onde estava ela... Ah, se pudesse ir ao seu encontro... Aí estaria completo. Aí inspiraria profunda e tranquilamente. Caminharia por horas, sem reclamar.

- Papai! – gritou Julia – o Heitor já chegou!

- Pronto, estou aqui. Fiz falta, Heitor?

- Que pergunta, vô!

- Não responde porque não fiz. Mas tudo bem. Sei que, para um jovem como você, caminhar na minha velocidade exige muita paciência e concentração.

- Vê, Bel? Responde assim para tudo. É um grosso! Para quê ser sarcático com o Heitor, papai? Ele quer o seu bem.

- Mas estou sendo sincero, Julia! Sarcástico... Acho que vocês não estão acostumados a ouvir palavras gentis ou bonitas. Acham sempre que o outro está ofendendo, querendo brigar. Talvez se vocês a conhecessem, se passassem um tempo com ela, seria diferente.

- Ela, ela... Tá bom, com ela seria diferente. Mas ela não existe mais, pelo visto. Então chega, papai.

- Não existe? Mas ontem mesmo ela saiu no jornal, numa matéria sobre reservas florestais.

- Como?

- To falando da cachoeira do sítio, onde nasci. Passei por momentos tão bons nela. Ficava bem no meio de um bosque, sabem? A gente fazia um pique-nique e depois se jogava nela. Aquilo sim era um parque. Aquilo sim era água de verdade, sem cloro! Ah, minha cachoeira, que saudades que tenho de você.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Um vestido e o mundo

(adaptação de piada do livro Fim de Partida, de Samuel Beckett)

É ainda julho quando uma jovem senhora se dá conta de que não possui em seu armário nenhum belo vestido para o Natal.

Ela então vai a uma costureira e encomenda um modelo razoavelmente simples, ao mesmo tempo que belo.

A costureira pede para que ela volte em um mês, para fazer a primeira prova.

Um mês depois, a senhora é apresentada para uma peça bastante bonita. Mas:

- Errei no zíper. Volte daqui uma semana e estará tudo ajustado perfeitamente.

“Errar com algo tão simples?”, pensa a senhora. Mas tudo bem, acontece.

Uma semana depois, a costureira volta a se desculpar. Agora, havia ajustado mal o decote. As rendas do dos lados estavam desiguais. Pediu então para que a senhora voltasse dentro de duas semanas, que o vestido estaria “um brinco!”

Puxa, mais duas semanas? Mas o que se vai fazer? E está mesmo bonito o vestido, vamos dar essa chance.

Passam duas semanas e a senhora encontra a costureira apressada:

- Já estou terminando, já estou terminando – diz. – É que achei melhor fazer um último ajuste na alças, mas se a senhora me der mais dez minutinhos...

Então, a senhora enfureceu-se, e disse:

- Minha cara: Deus fez o mundo em uma semana e você, em quase dois meses, não foi capaz de fazer apenas um vestido???

E a costureira respondeu, em tom de súplica:

- Mas senhora, repare bem: olhe para o mundo, e olhe para o seu vestido.

A senhora só pôde suspirar, sorrir, e concordar.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Que Tuiávii fale por mim

Tuiávii era o chefe de uma tribo indígena chamada Tiavéa. Ele esteve na Europa durante algum período da primeira metade do século XX – acredito eu - observando os costumes do homem branco, ou, como ele se refere, do “Papalagui”.

Com base nas observações, Tuiávii escreveu relatos destinados apenas à sua tribo, mas um contemporâneo seu, Erich Scheurmann, organizou-os em um livro, chamado O Papalagui.

Tive a felicidade de receber aulas de antropologia com um tremendo professor, que me apresentou a esse livro há uns três anos. Lembrei do livro recentemente e fui relê-lo. Gostei ainda mais do que já tinha gostado. Impressionei-me mais do que já havia me impressionado.

Sei que não vou resistir, e farei uma série de bons trechos d’O Papalagui aqui no blog.

Por hoje, contentem-se com este:

“É difícil dizer o que é profissão, mas todo Papalagui tem uma. É uma coisa que se deve ter muita alegria ao fazer, mas raramente isso acontece. Ter uma profissão significa fazer sempre a mesma coisa, e tantas vezes que se consegue fazê-la de olhos fechados e sem esforço algum. (...) Todo homem branco precisa ter uma profissão. (...)

Mas se o Papalagui, mais tarde, chega a perceber que prefere construir cabanas a tecer esteiras, dizem: “Ele errou de profissão” (...) Isso é uma coisa muito séria porque é contra a moral adotar, simplesmente, outra profissão. O Papalagui decente corre o risco de perder sua honra se disser: “Não posso fazer isto, não tenho nenhum prazer”. (...)

Não há, a bem dizer, coisa alguma que um homem seja capaz de fazer que o Papalagui não transforme em profissão. (...)

Ter profissão quer dizer: saber apenas correr ou apenas provar ou apenas cheirar ou apenas lutar, em todos os casos, saber apenas uma coisa. Esse só-saber-fazer-uma-coisa é uma grande fraqueza e um grande perigo porque qualquer um pode se ver, um dia, obrigado a remar numa canoa pela lagoa.(...)

Existem brancos que já não podem correr pois criam muita gordura no ventre, como os puaas [porco] porque têm de estar sempre parados, obrigados pela profissão; já não podem levantar e lançar um dardo pois suas mãos estão muito habituadas a segurar o osso que lhes serve para escrever e eles estão sempre sentados à sombra, só escrevendo tussi; não são capazes de dominar um cavalo selvagem porque estão sempre ocupados em olhar para as estrelas ou inventar idéias. (...)

É daí que vem a miséria do Papalagui. É agradável ir buscar água no riacho uma vez, até várias vezes por dia; mas quem tiver de ir buscá-la de manhã à noite, todos os dias, em todos os momentos, enquanto tiver forças, e isso sem cessar, afinal há de enfurecer-se, há de querer romper as correntes que o prendem, pois não há coisa que pese tanto ao homem quanto fazer sempre a mesma coisa (...)

Todos estão sempre comparando as suas profissões cheios de inveja e má-vontade; fala-se em profissões elevadas e baixas, embora todas sejam apenas atividades parciais(...) Mão, pé, cabeça são feitos para formarem um todo. Se todos os membros e sentidos trabalham juntos, o coração se alegrará, sadio; não acontecerá isso quando só uma parte tem vida e as outras estão mortas. Daí vem a confusão, o desespero, a doença. (...)

Mas o Papalagui nunca conseguiu nos fazer compreender por que havemos de trabalhar mais do que Deus exige para que possamos comer à vontade, cobrir a cabeça com um teto, nos divertimos com as festas da aldeia. (...) O Papalagui suspira quando fala no seu trabalho, como se uma carga o sufocasse; mas é cantando que os jovens samoanos vão para os campos de taro; cantando, as moças lavam as tangas na correnteza do riacho. O Grande Espírito não quer, certamente, que fiquemos cinzentos por causa das profissões, nem que nos arrastemos feito as tartarugas e os pequenos animais rasteiros da lagoa. Ele deseja que continuemos orgulhosos e tesos em tudo quanto fazemos; que não percamos a alegria de nossos olhos nem a agilidade dos nossos membros.”