Naquele dia de verão, foi a vez de Pedro ser uma das oito pessoas que diariamente são assassinadas na cidade.
Foi a toa. Desse tipo de coisa que a gente nunca acha que nos pode acontecer. João estava no banco quando assaltantes invadiram o local e o fizeram refém. Ninguém achou mesmo que iriam matá-lo. Nem ele, nem sua família, nem a mídia, nem os policiais, nem a população. Mas mataram.
Ele não estava sozinho no momento de sua morte. Seu amigo José estava junto. Por algum motivo não divulgado, José também foi baleado. Talvez tenha reagido para salvar o amigo. A bala atingiu seu antebraço, que um dia depois, enquanto os médicos ainda tentavam salva a vida de Pedro, já estava intacto.
Com o assassinato na boca de toda a população, o governador achou melhor ir até o hospital prestar condolências ao amigo do morto. Achou-o deprimido e perguntou se podia fazer algo para ajudar.
- Gostaria de conhecer ao vivo a Daniela Cicarelli, respondeu José.
O pedido foi prontamente atendido. E eu ainda gostaria de saber como a Daniela Cicarelli diminuiria a dor de se perder um amigo. Mais: por que o amigo que teve um antebraço machucado merece a visita do governador e os amigos e familiares de todas as oito pessoas assassinadas por dia não merecem sequer uma carta de “Meus pêsames”?
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Calor
Tem muito sol na piscina do clube A Hebraica de São Paulo. E muita gente com muita energia. Corre-se muito lá, apesar do calor que amolece o corpo.
Muita criança, muita mãe, muitas sacolas e mochilas e toalhas. Muitas cadeiras, mas menos do que adultos e crianças e mochilas e sacolas.
Nessas cadeiras, repousam alguns homens, algumas mulheres, meia criança e uma infinidade de mochilas e sacolas que em nenhum momento tocam o chão.
Nesse chão, feito de plataformas de madeira, pelando, forrado por toalhas, dezenas de pessoas que chegaram depois das sacolas e mochilas tomam sol desconfortavelmente. Livros, bóias, revistas, protetores solares, jornais e celulares preenchem os poucos cantos vazios que restam.
Os livros, revistas e jornais abertos abafam um pouco o barulho. São de quem tem os dedos manchados com tinta de impressora, sensível a suor com protetor solar. As mochilas e sacolas, privilegiadas sob os poucos guarda-sóis, não suam nem têm protetor solar. Aquele lugar lhes pertence. Ninguém as enfrenta.
Dez cartazes cobrem as grades da área da piscina. Dizem "Não guarde lugar", mas só são visíveis a quem está no chão. Para quem está nas cadeiras e sob os guarda-sóis, eles desaparecem, como num passe de mágica.
Por todo o lado, um barulho que não tem começo nem fim. Pertencente à piscina, está sempre lá, e sempre igual, desde 1986, o mesmo barulho de água, mãe e criança. Na mesma intensidade, no mesmo tom, no mesmo ritmo, no mesmo cheiro de cloro com protetor solar lotados.
A piscina da Hebraica não é uma piscina. É um emaranhado apertado de gente seleta. O ar quente condensa arrogância, mas não atinge quem, mesmo no chão quente, com dedos coloridos de tinta e melado por suor, consegue sentir, com a ajuda do barulho infinito, um delicioso cheiro de infância.
Muita criança, muita mãe, muitas sacolas e mochilas e toalhas. Muitas cadeiras, mas menos do que adultos e crianças e mochilas e sacolas.
Nessas cadeiras, repousam alguns homens, algumas mulheres, meia criança e uma infinidade de mochilas e sacolas que em nenhum momento tocam o chão.
Nesse chão, feito de plataformas de madeira, pelando, forrado por toalhas, dezenas de pessoas que chegaram depois das sacolas e mochilas tomam sol desconfortavelmente. Livros, bóias, revistas, protetores solares, jornais e celulares preenchem os poucos cantos vazios que restam.
Os livros, revistas e jornais abertos abafam um pouco o barulho. São de quem tem os dedos manchados com tinta de impressora, sensível a suor com protetor solar. As mochilas e sacolas, privilegiadas sob os poucos guarda-sóis, não suam nem têm protetor solar. Aquele lugar lhes pertence. Ninguém as enfrenta.
Dez cartazes cobrem as grades da área da piscina. Dizem "Não guarde lugar", mas só são visíveis a quem está no chão. Para quem está nas cadeiras e sob os guarda-sóis, eles desaparecem, como num passe de mágica.
Por todo o lado, um barulho que não tem começo nem fim. Pertencente à piscina, está sempre lá, e sempre igual, desde 1986, o mesmo barulho de água, mãe e criança. Na mesma intensidade, no mesmo tom, no mesmo ritmo, no mesmo cheiro de cloro com protetor solar lotados.
A piscina da Hebraica não é uma piscina. É um emaranhado apertado de gente seleta. O ar quente condensa arrogância, mas não atinge quem, mesmo no chão quente, com dedos coloridos de tinta e melado por suor, consegue sentir, com a ajuda do barulho infinito, um delicioso cheiro de infância.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Garganta seca
A- Me traz uma copo de água
B- Não.
A- Não?
B- Não.
A- Por que?
B- Porque eu deveria te trazer?
A- Porque eu tenho sede.
B- Pois eu também tenho sede.
A- Está bem, então traga dois copos de água.
B- Não.
A- Por que?
B- Por que eu deveria trazer?
A- Porque nós dois temos sede. Então um copo vai para mim e outro vai para você.
B- Mas eu não quero um copo.
A- Não tem sede?
B- Tenho.
Pausa
A- E não quer água?
B- Não sei.
A- O que você quer?
B- Eu?
A- É, você.
B- Eu não quero nada.
A- Mas não tem sede?
B- Tenho. (pausa) E você?
A- Eu também. Por isso te mandei buscar o copo de água.
B- Pois eu não vou buscar.
A- Vai ficar com sede?
B- Você também.
A- Não se importa de ficar com sede?
B- Não sei.
A- Aposto que se importa.
B- Já volto.
A- Onde vai?
B- Buscar água.
A- Finalmente.
...
A- Ué?! Cadê minha água?
B- Sua água?
A- A água que você ia buscar.
B- Ia não: fui.
Pausa
A- A água que você foi buscar.
B- Ah.
A- E então?
B- Bebi.
A- Bebeu?
B- É.
A- Por que?
B- Porque eu tava com sede.
A- Mas eu também estou com sede!
B- É ruim, né?
A- O quê?
B- Ter sede.
A- É. Agora vai me buscar água.
B- Agora?
A- É?
B- Por que?
A- Porque ainda estou com sede.
B- Coitado.
A- A água!
B- Onde?
A- Na cozinha, oras!
B- O que tem?
A- Eu quero.
B- O quê?
B- Não.
A- Não?
B- Não.
A- Por que?
B- Porque eu deveria te trazer?
A- Porque eu tenho sede.
B- Pois eu também tenho sede.
A- Está bem, então traga dois copos de água.
B- Não.
A- Por que?
B- Por que eu deveria trazer?
A- Porque nós dois temos sede. Então um copo vai para mim e outro vai para você.
B- Mas eu não quero um copo.
A- Não tem sede?
B- Tenho.
Pausa
A- E não quer água?
B- Não sei.
A- O que você quer?
B- Eu?
A- É, você.
B- Eu não quero nada.
A- Mas não tem sede?
B- Tenho. (pausa) E você?
A- Eu também. Por isso te mandei buscar o copo de água.
B- Pois eu não vou buscar.
A- Vai ficar com sede?
B- Você também.
A- Não se importa de ficar com sede?
B- Não sei.
A- Aposto que se importa.
B- Já volto.
A- Onde vai?
B- Buscar água.
A- Finalmente.
...
A- Ué?! Cadê minha água?
B- Sua água?
A- A água que você ia buscar.
B- Ia não: fui.
Pausa
A- A água que você foi buscar.
B- Ah.
A- E então?
B- Bebi.
A- Bebeu?
B- É.
A- Por que?
B- Porque eu tava com sede.
A- Mas eu também estou com sede!
B- É ruim, né?
A- O quê?
B- Ter sede.
A- É. Agora vai me buscar água.
B- Agora?
A- É?
B- Por que?
A- Porque ainda estou com sede.
B- Coitado.
A- A água!
B- Onde?
A- Na cozinha, oras!
B- O que tem?
A- Eu quero.
B- O quê?
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Quando eu crescer, eu vou:
- Abrir um restaurante de sanduíches do tipo misto quente. Vai ter opção pra cada pessoa montar o seu próprio e cada um vai custar cerca de 3 reais. Esse lugar vai ser, ao mesmo tempo, uma sorveteria, com cara dos anos 50, mas não com cara de Fifties, porque vai ser pequeno e não barulhento. E não vão ter garçons. Eu é que vou servir, junto de algum sócio talvez.
- Abrir um pipocaria. Pipocas de todos os sabores possíveis e impossíveis. Para beber, vai ter raspadinha de Coca-Cola. Por que nunca mais vi raspadinha de Coca-Cola pra vender?
- Fazer um parque de diversões que você não precisa pagar a mais pra ir nos brinquedos que dão brinde. As pessoas vão poder escolher entre não pagar e não concorrer ao brinde, ou pagar e concorrer. Assim, nenhuma criança vai ficar triste porque não pode tentar acertar água na boca do palhaço.
- Abrir uma casa de cinema com duas salas para cada filme: a sala “pode atender celular, pode cochichar, pode fazer barulho de abrir bala”, e a sala “silêncio!!!”. Em ambas, só vai passar trailer de suspense ou terror quando o filme for de suspense ou terror.
Por enquanto, acho que é isso.
- Abrir um pipocaria. Pipocas de todos os sabores possíveis e impossíveis. Para beber, vai ter raspadinha de Coca-Cola. Por que nunca mais vi raspadinha de Coca-Cola pra vender?
- Fazer um parque de diversões que você não precisa pagar a mais pra ir nos brinquedos que dão brinde. As pessoas vão poder escolher entre não pagar e não concorrer ao brinde, ou pagar e concorrer. Assim, nenhuma criança vai ficar triste porque não pode tentar acertar água na boca do palhaço.
- Abrir uma casa de cinema com duas salas para cada filme: a sala “pode atender celular, pode cochichar, pode fazer barulho de abrir bala”, e a sala “silêncio!!!”. Em ambas, só vai passar trailer de suspense ou terror quando o filme for de suspense ou terror.
Por enquanto, acho que é isso.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
O grito
Foi em Viena, numa manhã de verão, onde ouvi um grito desesperador. Certamente, foi o mais agudo, o mais apavorante, o mais estridente que já havia escutado na vida real e ao vivo.
Eu tomava o meu café-da-manhã sozinha. Eram já oito horas da manhã, e todos deveriam estar no refeitório do hotel de piso forrado com carpete avermelhado com estampas. Mas estavam atrasados.
Em todo o caso, me servi de café, iogurte de morango, pão, cream chease, um pedaço de bolo e alguma fruta. Estava meio infeliz com a comida. O legal de café-da-manhã em hotel grande é a variedade de frutas maduras, as porções de pão de queijo e os croissants de chocolate. Mas eu não estava no Brasil, e sim em Viena. As frutas eram sem-graça, ninguém sequer conhecia um pão de queijo e... não sei exatamente porquê, mas também não havia nenhum croissant de chocolate.
Fui para uma mesa vazia. Antes de me sentar, dei uma boa olhada ao redor para ter certeza de que ninguém havia chegado e, sem ter me visto, ido se instalar em outro lugar. Não vi ninguém, tive raiva, fiquei com vontade de dormir mais, fiquei com vontade de sair logo e ir explorar a cidade sozinha, sentei, comecei a cortar um melão branco e duro.
E então o escutei. O barulho. Era muito alto, não vinha do refeitório. Deveria vir do hall. Logo em seguida, alguém gritou “Help!!!”. Como todos os outros hóspedes, fiquei com medo e curiosa. Mais curiosa do que com medo. Mas ao contrário da maioria, não tive coragem de ir ver o que acontecera.
É impossível descrever o grito. Era certamente de uma mulher. E de dor. Certamente era de dor. Como se alguém tivesse sido esfaqueado, ou tivesse um membro do corpo amputado. Imaginei que um desses lustres enormes, estilo O Fantasma da Ópera, tivesse caído sobre alguém, que gritou e morreu. O carpete, agora, estaria banhado em sangue. Vai saber se a cabeça não estaria separada do corpo! Não, isso era demais. Mas uma perna era bem capaz... Não pude ver. E as pessoas do refeitório que iam olhar não voltavam! Deviam ter desmaiado com o que viram.
Ninguém dizia nada, minha família não chegava, a comida era ruim, eu queria ir embora, alguém tinha morrido, havia sangue no carpete do hotel... E minha irmã chegou.
- Oi, a mamãe não chegou ainda?
- Não, só estou eu.
- Eles devem ter se atrasado.
- É.
- Que que tem de bom pra comer?
- Nada. O iogurte ta razoável.
- Vou me servir.
- O que aconteceu lá?
- Onde?
- Lá fora.
- Como assim?
- Lá fora, no hall. Ouvi um grito. O que aconteceu?
- Ah, nada. Uma mulher escorregou e caiu. Machucou o braço. Deve ter torcido...
- Nossa, mas precisava gritar daquele jeito?
- Não sei, ela já tava caída quando eu cheguei.
- Que horror!
- Horror? Mas foi só um braço torcido.
- To falando do grito.
Eu tomava o meu café-da-manhã sozinha. Eram já oito horas da manhã, e todos deveriam estar no refeitório do hotel de piso forrado com carpete avermelhado com estampas. Mas estavam atrasados.
Em todo o caso, me servi de café, iogurte de morango, pão, cream chease, um pedaço de bolo e alguma fruta. Estava meio infeliz com a comida. O legal de café-da-manhã em hotel grande é a variedade de frutas maduras, as porções de pão de queijo e os croissants de chocolate. Mas eu não estava no Brasil, e sim em Viena. As frutas eram sem-graça, ninguém sequer conhecia um pão de queijo e... não sei exatamente porquê, mas também não havia nenhum croissant de chocolate.
Fui para uma mesa vazia. Antes de me sentar, dei uma boa olhada ao redor para ter certeza de que ninguém havia chegado e, sem ter me visto, ido se instalar em outro lugar. Não vi ninguém, tive raiva, fiquei com vontade de dormir mais, fiquei com vontade de sair logo e ir explorar a cidade sozinha, sentei, comecei a cortar um melão branco e duro.
E então o escutei. O barulho. Era muito alto, não vinha do refeitório. Deveria vir do hall. Logo em seguida, alguém gritou “Help!!!”. Como todos os outros hóspedes, fiquei com medo e curiosa. Mais curiosa do que com medo. Mas ao contrário da maioria, não tive coragem de ir ver o que acontecera.
É impossível descrever o grito. Era certamente de uma mulher. E de dor. Certamente era de dor. Como se alguém tivesse sido esfaqueado, ou tivesse um membro do corpo amputado. Imaginei que um desses lustres enormes, estilo O Fantasma da Ópera, tivesse caído sobre alguém, que gritou e morreu. O carpete, agora, estaria banhado em sangue. Vai saber se a cabeça não estaria separada do corpo! Não, isso era demais. Mas uma perna era bem capaz... Não pude ver. E as pessoas do refeitório que iam olhar não voltavam! Deviam ter desmaiado com o que viram.
Ninguém dizia nada, minha família não chegava, a comida era ruim, eu queria ir embora, alguém tinha morrido, havia sangue no carpete do hotel... E minha irmã chegou.
- Oi, a mamãe não chegou ainda?
- Não, só estou eu.
- Eles devem ter se atrasado.
- É.
- Que que tem de bom pra comer?
- Nada. O iogurte ta razoável.
- Vou me servir.
- O que aconteceu lá?
- Onde?
- Lá fora.
- Como assim?
- Lá fora, no hall. Ouvi um grito. O que aconteceu?
- Ah, nada. Uma mulher escorregou e caiu. Machucou o braço. Deve ter torcido...
- Nossa, mas precisava gritar daquele jeito?
- Não sei, ela já tava caída quando eu cheguei.
- Que horror!
- Horror? Mas foi só um braço torcido.
- To falando do grito.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Um mundo ideal
Quis dar à postagem de número 100 um tom mais... musical!
Confesso que ela é quase uma bobagem. Uma brincadeira, vai.
Leia como se cantasse Um mundo ideal (A Whole New World), a música do Aladdin quando ele voa no tapete com a Jasmin.
Olha eu vou lhe mostrar
Como é belo esse mundo
Não tem trabalho ou estudo
E até dá pra descansar
Posso até namorar
Talvez também fazer compras
Os meus livros pra ler
São só os que eu quiser
Um mundo ideal
É um privilégio ter aqui
Ninguém pra nos dizer
Faça o tcc
Até parece um sonho
Um mundo ideal
Um mundo que eu nunca vi
E agora eu posso ver
e lhe dizer
Que nesse mundo novo eu vou dormir
(2ª voz: Que nesse mundo novo eu vou sorrir)
Confesso que ela é quase uma bobagem. Uma brincadeira, vai.
Leia como se cantasse Um mundo ideal (A Whole New World), a música do Aladdin quando ele voa no tapete com a Jasmin.
Olha eu vou lhe mostrar
Como é belo esse mundo
Não tem trabalho ou estudo
E até dá pra descansar
Posso até namorar
Talvez também fazer compras
Os meus livros pra ler
São só os que eu quiser
Um mundo ideal
É um privilégio ter aqui
Ninguém pra nos dizer
Faça o tcc
Até parece um sonho
Um mundo ideal
Um mundo que eu nunca vi
E agora eu posso ver
e lhe dizer
Que nesse mundo novo eu vou dormir
(2ª voz: Que nesse mundo novo eu vou sorrir)
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Um desenho no rosto
Foi no primeiro dia em que um homem e uma mulher estiveram no planeta Terra.
Não sei se eram exatamente Eva e Adão, nem quem os colocou lá – se é que alguém o fez. Talvez já estivessem lá há tempos, mas no formato de crianças, e não de jovens. Sim, eram jovens.
O fato é que o dia estava muito quente, e essas duas pessoas banhavam-se em um riacho.
Então veio uma mosca e ficou rodeando a cabeça do homem. Ele ficou longos segundo tentando despistá-la, mas sem sucesso. Finalmente perdeu o equilíbrio e caio com o corpo todo no riacho, as pernas dançantes para cima.
E a mulher sentiu – não tenho certeza se pela primeira vez – seu rosto todo se contrair. Seus lábios forçavam-se um contra o outro e foram abrindo mais e mais, deixando pouco espaço para as bochechas que, por sua vez, foram ocupando o lugar dos olhos que por muito pouco não se fecharam.
Sem que ela pudesse conter, começou a emitir um som. Meio nasal, meio tosse. Seu nariz não parava de soltar ar em pequenos intervalos, sua barriga começou a doer de tantas contrações que realizara em tão pouco tempo.
Quando o homem retomou a si e viu a mulher em tal estado, também abriu seus lábios em forma de meia lua. Não teve tantas contrações e sons como a mulher, mas, sem que soubesse, era um sentimento igual ao dela, com menos intensidade, que tomava conta de seu espírito.
A partir desse dia, ambos começaram a inventar coisas que pudessem causar no outro e em si mesmos aquela estranha sensação, que hoje chamamos de felicidade. Foi a partir desse dia que o ser humano descobriu como é bom ouvir uma piada, ver uma palhaçada.
Não sei dizer com clareza, porém, qual foi o dia em que os ser humano se permitiu esquecer-se dessa delícia.
Não sei se eram exatamente Eva e Adão, nem quem os colocou lá – se é que alguém o fez. Talvez já estivessem lá há tempos, mas no formato de crianças, e não de jovens. Sim, eram jovens.
O fato é que o dia estava muito quente, e essas duas pessoas banhavam-se em um riacho.
Então veio uma mosca e ficou rodeando a cabeça do homem. Ele ficou longos segundo tentando despistá-la, mas sem sucesso. Finalmente perdeu o equilíbrio e caio com o corpo todo no riacho, as pernas dançantes para cima.
E a mulher sentiu – não tenho certeza se pela primeira vez – seu rosto todo se contrair. Seus lábios forçavam-se um contra o outro e foram abrindo mais e mais, deixando pouco espaço para as bochechas que, por sua vez, foram ocupando o lugar dos olhos que por muito pouco não se fecharam.
Sem que ela pudesse conter, começou a emitir um som. Meio nasal, meio tosse. Seu nariz não parava de soltar ar em pequenos intervalos, sua barriga começou a doer de tantas contrações que realizara em tão pouco tempo.
Quando o homem retomou a si e viu a mulher em tal estado, também abriu seus lábios em forma de meia lua. Não teve tantas contrações e sons como a mulher, mas, sem que soubesse, era um sentimento igual ao dela, com menos intensidade, que tomava conta de seu espírito.
A partir desse dia, ambos começaram a inventar coisas que pudessem causar no outro e em si mesmos aquela estranha sensação, que hoje chamamos de felicidade. Foi a partir desse dia que o ser humano descobriu como é bom ouvir uma piada, ver uma palhaçada.
Não sei dizer com clareza, porém, qual foi o dia em que os ser humano se permitiu esquecer-se dessa delícia.