segunda-feira, 30 de junho de 2008

A menina pobre que não estuda

Karina ficou conhecida como a menina pobre que não gostava de estudar. Dentro de casa, na escola e mesmo entre os vizinhos do prédio. Parecia tão impossível para todos a existência de uma menina pobre que não gostava de estudar, que no dia seguinte à declaração foi o único assunto do elevador social.

A notícia, é claro, chegou aos ouvidos da tia cerca de uma semana depois. Foi quando ela foi perguntar à então filha:

- Karina, ouvi dizer que você não tem feito os deveres do colégio. É verdade?

- Não.

- Então deixa eu ver.

E Karina mostrou. Tava lá. Tudo feito.

Como um mês depois o assunto ainda aparecia por vezes dentro de casa, a tia achou melhor ir averiguar o fato com a professora:

- A Karina... A menina nova, né? Sim, ela faz os deveres todos sim. Apresenta algumas dificuldades, principalmente com português. E é verdade que poderia se esforçar mais com as tarefas, porque ela faz só o mínimo. Mas todos fazem isso. Criança gosta mesmo é de ir brincar.

A tia concordou, satisfeita. Só não ficou feliz quando escutou de Pedro, assim que chegou à casa:

- Sabe, é uma pena. Comprei um jogo novo de vídeo game que só dá pra jogar em dois, e a Fabiana nunca quer jogar comigo. Aí pensei em convidar você, mas minha mãe não deixou. Disse que você tem que estudar.

- Ô, Pedro, é verdade isso? – interferiu a tia.

- É sim... Mas não conta pra minha mãe que eu te falei isso, por favor...

- A Karina ta indo bem no colégio. Vem, filha, vai lá no meu quarto ver televisão.

- Não posso ir na sala? É maior.

- Não, filha. Hoje não.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Reflexões de um ser de regime

Epicuro dizia que o homem deve sempre lembrar-se de momentos bons que já viveu quando estiver em uma situação ruim. Assim, se ele tem fome, deve lembrar dos momentos de fartura, de como estava feliz. E então ficar contente em saber que o que já aconteceu de bom não poderá jamais deixar de ter acontecido.

O filósofo ainda diz que, caso não haja boas lembranças, a pessoa deve imaginar um futuro melhor e se prender a ele, vendo-se em melhores condições do que as atuais.

Eu já acho que às vezes o melhor é, em um momento ruim, lembrar-se de piores ou projetar-se em um futuro pior.

Se você está de regime, por exemplo, em vez de se lembrar de quando podia comer um bolo de chocolate, lembrar de quando comia batata frita sem culpa, ou de quando pão de queijo era um lanche diariamente obrigatório, lembre-se de quando o regime era ainda mais pesado e nem um macarrão ao sugo você se permitia.

E não havendo passados assim, pense que você começou o regime agora, e que se começasse só um ano depois, teria que comer salada – sem azeite – no café da manhã no almoço e no jantar.

Dei o exemplo do regime por motivos pessoais e também porque casou bem com a proposta do post. Mas faz sentido também com outras coisas.

Por exemplo: Você tem que estudar muito para uma matéria em que está indo mal. Em vez de pensar como você já foi bom aluno, como as notas eram altas, como você era super inteligente, pense como poderia ser pior. Como você poderia estar estudando bem mais para nem uma nota 4 tirar.

Pensar em brigadeiro e elogios de ex-professores não ajuda em nada quem sofre por não poder comer ou se ferrar nos estudos. Mas ninguém vai jogar nenhuma pedra no Epicuro já que certamente ele recomendava seu método a pessoas com problemas mais sérios do que os dos meus exemplos.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Primeiro encontro

Estava certa de que seria incapaz de trair o marido. Ainda mais porque nem haveria ocasião para encontrar-se com Gustavo novamente.

Mas a oportunidade não tardou a aparecer. Duas semanas depois, Gustavo foi buscar Dona Inês na aula. Ela tinha médico. Mas justo a Dona Lourdes, uma colega, morava exatamente na rua do médico.

- Ângela, vou de carona com a Dona Lourdes. Quando meu filho chegar diga isso a ele, que não é preciso se preocupar.

- Não é melhor ligar para ele?

- Não, porque se não ele vai dizer que não, que ele me leva, que não confia em mim...

- Está bem.

Gustavo chegou dois minutos depois que Dona Inês partia. Encontrou Ângela. Sorriu. Ela deu o recado. O sorriso desapareceu.

- Bom... Já to aqui... Toma um café comigo?

- É... Claro, por que não?

Foram tomar um café. Ângela não acreditava como era possível um homem tão bonito, filho tão dedicado, tão inteligente, tão simpático... Não ser casado. Queria tê-lo conhecido antes. Precisava de um amigo assim. Tão bom ouvinte. Era tão preocupado. Olhava nos olhos quando falava. E como falava. E a boca. Devia beijar tão bem, se ao menos pudesse se aproximar mais de seus lábios e. Não. Que é isso, Ângela. Comporte-se. Você é uma mulher casada, tem filhos...

- Está tudo bem? Você ficou pálida de repente.

Ah, e como ele repara nas emoções de uma mulher.

- Está. Só acho melhor eu ir embora.

- Bom, você que sabe. Mas aí você vai ter que aceitar tomar outro café comigo, porque não aceito programas terminados na metade.

- É que... Eu sou casada, e meu marido...

- Seu marido não deixa você tomar café com um amigo? Ah, duvido! Vamos sair de novo sim. Semana que vem. No mesmo horário.

- Está bem.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Chorar

Difícil trabalho
esse das emoções
Não há fixo horário
tampouco comissões

Às vezes é breve,
Mas anos pode durar
Nunca entra em greve
Não pode parar

Algumas tanto trabalho têm
que suam com freqüência
Causam tontura, falta de ar, vertigem
E as lágrimas vêm como conseqüência.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Estudar é chato

A manhã passou rapidamente. Dona Ângela chamou Karina para ficar assistindo televisão na sala. Passavam uns programas que a menina nunca tinha visto. Era tanto canal... Tinha uns que passavam desenho animado o tempo todo. Mesmo à noite. Foi o que Dona Ângela disse.

Mas houve um diálogo com Dona Ângela que deixou Karina meio confusa. A moça perguntou:

- E aí? Animada para ir à escola?

Karina não entendeu bem a pergunta. “Quem se anima para ir à escola?” Pensou. Mas fez como de costume, respondendo o que achava que esperavam que ela respondesse:

- Animada? É. To.

- Ah, mas no seu lugar eu também estaria. Muito animada. Você vai ver! Depois que começarem suas aulas, acho que já começam semana que vem, você nem vai querer saber de desenho animado. É muito bom estudar.

A menina ficou então imaginando o que as pessoas dessa cidade chamavam de escola. Com certeza seria diferente da que ela conheceu na Bahia. Não era possível. Estudar era muito chato. Se na Bahia pegava em um livro, era por não ter mais o que fazer. Mas com canais que passavam desenho animado o dia todo! Há! Quem ia querer estudar.

À tarde aconteceu algo que deixou Karina ainda mais atordoada. Ela acabava de lavar a louça do almoço quando ouviu Dona Ângela conversando com Pedro:

- Está bem. Se você estudar por mais duas horas poderá ver televisão.

- Duas horas??? Mas mãe, é muito tempo!

- Eu sei, filho. É chato mesmo ter que ficar estudando, mas você ta indo mal nas provas. É o jeito.

- Dona Ângela – chamou a menina.

- Pode me chamar de Ângela só.

- Ta. Ângela, não entendi. É chato ou é legal ficar estudando?

- Mas que menina espertinha! O Pedro acha chato, porque, por ele, ele passaria a vida na frente da tevê.

- Eu também passaria.

Ângela fingiu que não ouviu. Mas a resposta seria a discussão do jantar, quando tia e sobrinha já dormiam:

- E vocês não sabem o absurdo: a menina, a... Karina. Uma graça, mas diz que não gosta de estudar. Veja só! Uma menina, sem oportunidades na vida, que prefere ver tevê do que estudar! Onde já se viu! Se ainda fosse rica... Mas meninas como ela adoram estudar! Sabem dar valor, claro: estudam se pagar! Mas essa menina...

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Café-da-manhã paulistano

“Só podia ser um sonho”, pensava Karina enquanto ajudava a tia-mãe a colocar a mesa. Toddynho, queijo, presunto, pão, iogurte, requeijão, DANONINHO!!!

- Posso pegar um?

- Claro. Pode pegar o que quiser. Só tem que me avisar se for o último porque aí compro mais.

- Mas você tem dinheiro pra isso?

- Quem me dera... É com o dinheiro da Dona Ângela, minha patroa. É uma moça muito boa, você vai gostar dela. Ela tem dois filhos, a Luciana e o Pedro. São mais velhos do que você. A Luciana tem 14 e o Pedro tem 16. Tem também o Seu Rodrigo, mas ele quase nunca ta aqui. Mal toma o café da manhã direito e volta bem tarde, quando a gente já foi dormir.

- Com tudo isso ele toma o café rápido?

- É. Na verdade nem um deles come muito no café, só a Dona Ângela.

Não havia dado nem 5 minutos desde que a mesa estava posta quando entrou o Seu Rodrigo.

- Olha, Seu Rodrigo, essa é minha sobrinha, a Karina, que eu falei pro senhor.

Seu Rodrigo deu uma olhada sonolento. Disse “Oi como vai”, engoliu o café e foi embora. Bastou isso para que Karina o temesse pelo resto de sua vida.

Os minutos foram passando, cada um foi acordando, tomando café, sendo apresentado à Karina... Ângela foi a mais simpática. Recepcionou a menina com um abraço e um beijo. Disse que.., como é que era... “qualquer coisa é só pedir”. Os filhos foram legais também, mas quase não falaram nada. A tia disse que é porque eles estavam com pressa e com sono.

- O que é pressa?

- Pressa... é... apressado. Quando a pessoa ta atrasada... sabe? – Karina continuou com o olhar interrogativo – Assim, quando faz tudo correndo.

- Como em uma competição de quem vai mais rápido?

A tia desistiu:

- É, mais ou menos isso. Uma competição. Só que em São Paulo todo mundo está sempre assim.

- Competindo o tempo todo?

- É... não... Ah, menina, deixa de bobagens. Vem me ajudar com a louça, que hoje temos muito o que fazer.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

O bom professor

Quinta-feira, (...)
..................................
"Caro Professor Geraldo Oliveira,

Sou estudante de jornalismo da Faculdade de (...) e eu estou fazendo um trabalho sobre a revista (...) q vc q criou.

Se trata de fazer analises sobre as primeiras 5 ediçoes, e para isso, seria otimo se vc pudesse me passar algum material...

A entrega do trabalho é na segunda-feira, e preciso fazer uma apresentação em power point com imagens de materias, das capas, numeros de vendas, analises comparativas... Tem como me passar para mim esse material por email?

Brigada,

Nathália"

Sexta-feira, (...)
................................

"Cara Nathália,

Possuo sim esse material, mas ele é muito pesado - não consigo mandar tudo em apenas um e-mail. Mesmo que conseguisse, não mandaria, pois estaria te passando cola, e o correto é que você mesma vá atrás da tarefa que foi proposta pelo seu professor. Afinal, o trabalho do jornalista consiste exatamente em pesquisas e apurações, e não vejo nada disso na maneira como você está agindo.

Se você tivesse entrado em contato comigo mais cedo, eu poderia ter recomendado que você fosse até a Editora da revista. Eu pediria então a Fátima, minha secretária, que já deixasse alguns exemplares separados para sua consulta.

Aliás, tratando-se de uma análise de uma revista criada por mim, seria interessante para o seu trabalho uma entrevista comigo, não?

Sugiro que você negocie com o seu professor uma nova data de entrega.

Bom final de semana,
Geraldo.

Ps.: encontrei em seu e-mail dez erros de português. Penso que você não esteja indo por um caminho muito acertado..."