- Tudo o que vocês podem imaginar. Pronto, chegamos. Chegamos. Meninos? Vem, saiam do carro.
- Ué, você não vai comprar a camiseta pra gente?
- Vou, mas vocês acham que vou deixar o carro e a chave com vocês? Posso achar vocês gente boa, mas nos conhecemos não faz nem uma hora. Não sei o nome completo de vocês, onde vocês moram... Isso aqui é São Paulo. Não confio nem no meu irmão!
- Ta, falou. Te esperamos do lado de fora então.
Ela entrou. Pensou que talvez não encontrasse os meninos quando voltasse, mas não se preocupou muito com isso.
- Tiramos a sorte grande, Cabeça. Vamos ganhar uma camiseta, comer bem, andar no gelo, e ainda tirar 50 reais.
- É... Mas sei lá o que essa mulher ta pretendendo com a gente. Não sei não. Boba a gente já viu que ela não é.
- Não esquenta. Se for problema, a gente dá um jeito. Memorizei a placa do carro dela já. Se ela quiser fazer mal pra gente, a gente ameaça.
Veio um segurança. Perguntou o que eles queriam ali, na porta do Shopping. Disseram que estavam esperando uma moça, que iam ajudar ela a levar compras para o carro. Ele achou melhor ficar com eles esperando a tal moça.
- É aquela ali.
- Dona, você está esperando aqueles dois moleques?
- Estou sim. Eles estão comigo. Vão me ajudar com um...
- Levar compras pro carro, né? Então é verdade. Ta bom.
- Isso. Obrigada.
O segurança se afastou. Os meninos vestiram as camisetas, passaram o desodorante. Nunca se sentiram tão cheirosos. Entraram. Correram para o banheiro. Queriam se ver no espelho. Fazia tanto tempo que não se viam no espelho.
Saíram com o rosto molhado.
- Que que é isso?
- É que a gente quis lavar o rosto com aquele sabão lá. Muito cheiroso, nunca vi. E não achamos papel. Aí perguntamos pra um cara e ele disse que era um troço lá que soltava um ar quente, mas aquilo lá não seca é nada!
- É, eu sei. Tó, seca na camiseta que vocês tavam usando.
Secaram. Foram para a praça de alimentação. Compraram milk shake no Bob’s, pizza na Pizza Hut, batata no Burger King, Sunday no Mc Donalds, sanduíche no Subway, pipoca no Cinemark. Jogaram jogos eletrônicos no Jogos Eletrônicos. E, finalmente, a tão esperada pista de patinação.
- Caralho, como é frio aqui.
- É que é gelo, seu troxa.
- Cala a boca, Cabeça.
- Se liga, mano. To zuando só. Caralho! Olha quanto custa essa parada!
Ela disse que não tinha problema. Eles entraram, ela não. Não sabiam o número que calçavam. Olharam nos chinelos, mas não tinha nada neles. Experimentaram três pares diferentes de patins. Foram para a pista. Caíram. Levantaram. Caíram. Levantaram. Caíram. Levant, caíram. A instrutora veio ajudar. Conseguiram deslizar um pouco antes de cair novamente.
- To todo dolorido. – Falou Pulu, apoiado na grade da pista.
- Se quiserem sair já, tudo bem. Ainda falta tempo.
- Ta bem louca? É a melhor dor que já senti na vida!
quinta-feira, 31 de julho de 2008
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Colorindo (2a parte)
- Então ta. É só pedir pra alguém da loja. Aí separem e me chamem pra pagar.
Separaram. Pagou. Saíram.
- E aí? Já pensaram o que fariam com todo o dinheiro do mundo?
- Acho que eu compraria um mercado desses cheios de coisa. Bicicleta, chocolate, tevê, dvd, todas essas coisas.
- E você, Cabeça?
- O mercado não é idéia ruim não, mas, com todo o dinheiro do mundo, eu compraria o shopping... aquele lá, que tem o parque... qual é o nome? Na Marginal lá...
- Eldorado?
- É, esse mesmo!
- Pô! Verdade! O Cabeça só tem idéia boa, por isso a gente chama ele assim. Esse Shopping deve ser da hora. A mãe do Celsão, um amigo nosso, trabalha de faxineira lá. Ela disse que tem de tudo. Tem mercado, tem loja, tem restaurante, tem boliche, cinema. Até patinação no gelo disse que tem. Nossa, já pensou, patinar no gelo? Nunca vi isso!
- Mas vocês nunca entraram no shopping?
- A gente? Entrar, já entrou. Mas não durou muito não. Os seguranças não deixam.
- E eles podem fazer isso?
- O quê?
- Expulsar vocês do shopping?
- Ah, se não pode, expulsa do mesmo jeito. Quem é que vai impedir? A gente?
- E quem vai acreditar na gente quando o cara falar pra polícia que a gente tava querendo roubar?
- É, o Cabeça falou tudo. Quem acredita na gente?
- Bom, já ta na hora do almoço. O Shopping não é longe daqui. Querem ir almoçar lá? Não vai dar pra ir em tudo, porque, se não, não dá tempo de fazer o que eu tenho que fazer. Mas pelo menos o almoço e a patinação no gelo eu garanto.
- Pô, irado. Mas como a gente vai entrar assim? Vão achar estranho, uma moça como você, com a gente.
- Ai... Verdade. Faz assim. Eu entro antes. Vou numa loja, compro uma camiseta limpa pra vocês. Acho que só precisa disso.
- É, se pá a camiseta só dá.
- E um desodorante. (pausa). Ah, gente, desculpa. Mas vocês são meninos que ficam horas de baixo do sol. Acham mesmo que não vem cheiro.
- Você que sabe, é você que vai pagar.
- Combinado, então. Já estamos chegando, vão pensando onde vão querer comer. Tem tudo o que vocês podem imaginar.
Separaram. Pagou. Saíram.
- E aí? Já pensaram o que fariam com todo o dinheiro do mundo?
- Acho que eu compraria um mercado desses cheios de coisa. Bicicleta, chocolate, tevê, dvd, todas essas coisas.
- E você, Cabeça?
- O mercado não é idéia ruim não, mas, com todo o dinheiro do mundo, eu compraria o shopping... aquele lá, que tem o parque... qual é o nome? Na Marginal lá...
- Eldorado?
- É, esse mesmo!
- Pô! Verdade! O Cabeça só tem idéia boa, por isso a gente chama ele assim. Esse Shopping deve ser da hora. A mãe do Celsão, um amigo nosso, trabalha de faxineira lá. Ela disse que tem de tudo. Tem mercado, tem loja, tem restaurante, tem boliche, cinema. Até patinação no gelo disse que tem. Nossa, já pensou, patinar no gelo? Nunca vi isso!
- Mas vocês nunca entraram no shopping?
- A gente? Entrar, já entrou. Mas não durou muito não. Os seguranças não deixam.
- E eles podem fazer isso?
- O quê?
- Expulsar vocês do shopping?
- Ah, se não pode, expulsa do mesmo jeito. Quem é que vai impedir? A gente?
- E quem vai acreditar na gente quando o cara falar pra polícia que a gente tava querendo roubar?
- É, o Cabeça falou tudo. Quem acredita na gente?
- Bom, já ta na hora do almoço. O Shopping não é longe daqui. Querem ir almoçar lá? Não vai dar pra ir em tudo, porque, se não, não dá tempo de fazer o que eu tenho que fazer. Mas pelo menos o almoço e a patinação no gelo eu garanto.
- Pô, irado. Mas como a gente vai entrar assim? Vão achar estranho, uma moça como você, com a gente.
- Ai... Verdade. Faz assim. Eu entro antes. Vou numa loja, compro uma camiseta limpa pra vocês. Acho que só precisa disso.
- É, se pá a camiseta só dá.
- E um desodorante. (pausa). Ah, gente, desculpa. Mas vocês são meninos que ficam horas de baixo do sol. Acham mesmo que não vem cheiro.
- Você que sabe, é você que vai pagar.
- Combinado, então. Já estamos chegando, vão pensando onde vão querer comer. Tem tudo o que vocês podem imaginar.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Como fazer um comentário
Atendendo a pedidos:
"Como faço para comentar um texto (também conhecido como post)?"
1) Vá até o final do texto que gostaria de comentar. Lá estará escrito:
"Postado por Diana às x horas x comentários
Marcadores: x"
Sendo que x é um número qualquer.
2) Clique em "x comentários" uma vez com o mouse. Não clique no envelope. Ele é outra coisa. Após o clique, uma janela deverá aparecer. Caso não apareça, é porque o seu computador deve ter um bloqueador de pop-up. Nesse caso, ou chame algum jovem próximo que entenda sobre isso, ou tente o seguinte:
2a) Sob a barra do internet explorer provavelmente está escrito algo como: "Pop-up bloqueada. Clique aqui para desbloquear a pop-up temporariamente."
3) Após aberta a janela, faça o seu comentário na caixa debaixo dos dizeres "Faça um comentário". Ignore o que está escrito embaixo, "Você pode usar algumas tags HTML, como < b >, < i >, < a > ". Isso não é importante.
4) Agora, você deve escolher uma identidade. Você não vai entender todas as opções, então fique com a mais simples, a "Nome/URL". Clique na bolinha do lado esquerdo dessa opção. Vai aparecer então uma opção para você escrever seu nome, e outra para você escrever sua URL. Escreva apenas o seu nome, ou um apelido. O que quiser.
Outra opção é clicar na bolinha ao lado de Anônimo, caso você não queira que eu ou outros leitores saibam quem você é.
5) Clique em "Publicar Comentário"
6) Pronto. Seu comentários foi publicado!
"Como faço para comentar um texto (também conhecido como post)?"
1) Vá até o final do texto que gostaria de comentar. Lá estará escrito:
"Postado por Diana às x horas x comentários
Marcadores: x"
Sendo que x é um número qualquer.
2) Clique em "x comentários" uma vez com o mouse. Não clique no envelope. Ele é outra coisa. Após o clique, uma janela deverá aparecer. Caso não apareça, é porque o seu computador deve ter um bloqueador de pop-up. Nesse caso, ou chame algum jovem próximo que entenda sobre isso, ou tente o seguinte:
2a) Sob a barra do internet explorer provavelmente está escrito algo como: "Pop-up bloqueada. Clique aqui para desbloquear a pop-up temporariamente."
3) Após aberta a janela, faça o seu comentário na caixa debaixo dos dizeres "Faça um comentário". Ignore o que está escrito embaixo, "Você pode usar algumas tags HTML, como < b >, < i >, < a > ". Isso não é importante.
4) Agora, você deve escolher uma identidade. Você não vai entender todas as opções, então fique com a mais simples, a "Nome/URL". Clique na bolinha do lado esquerdo dessa opção. Vai aparecer então uma opção para você escrever seu nome, e outra para você escrever sua URL. Escreva apenas o seu nome, ou um apelido. O que quiser.
Outra opção é clicar na bolinha ao lado de Anônimo, caso você não queira que eu ou outros leitores saibam quem você é.
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6) Pronto. Seu comentários foi publicado!
Colorindo (1a parte)
Virando à esquerda, encontrando finalmente o seu caminho, teve uma súbita vontade de levar a sério uma idéia antiga.
O semáforo ficou vermelho. Parou o carro. Era domingo, não havia nenhum outro veículo na rua, nem pessoas, a exceção de dois meninos de rua. A situação não poderia ser mais perfeita.
Um dos meninos começou a lançar bolas para o outro. Ela saiu do carro. Eles se assustaram, e pararam com as bolas.
- Preciso de uma ajuda.
- O que é? – perguntou um deles.
- Se eu disser vocês não vão acreditar. Prometo que não vou fazer nada de mal com vocês, mas vocês também têm que prometer que não farão nada de mal comigo. Não pretendo dar dinheiro para vocês, mas garanto que irão se divertir.
- Precisamos de dinheiro. Se formos com você, é um dia sem receber nada além do que já recebemos. Que não dá quase nada. Nosso pai é gente boa, mas o que que a gente vai falar pra ele quando chegarmos em casa?
- Ok, verdade. Não pensei nisso. Quanto vocês precisam?
- Cem reais pra cada um fecha.
- Haha! Eu também não sou besta! Vocês não fariam 200 reais aqui nunca!
- Então ficamos aqui.
- 50 para cada um? Mais o almoço de hoje.
- Ta fechado.
- Entrem aí.
- Oh, Cabeça, por que você que vai na frente? Sai daí, cara.
- Vocês revezam. Deixa o... Cabeça ir na frente agora. Qual é o seu nome?
- Pulu.
- Então, Pulu, você vai na frente mais tarde.
Entraram. Ela perguntou-lhes as idades. Ambos tinham 13. Mais ou menos. “Deve ser por volta disso”, disse Pulu, mais falante, deitado nos bancos de trás. Era a primeira vez que andavam de carro. Ela teve que insistir muito para que Cabeça colocasse o cinto de segurança. Ensinou a ele como se mexia no rádio. Ele ficou brincando de escolher música. Mas preferiu ouvir notícia. Ela tentou saber onde eles moravam, como viviam, mas:
- Faz assim: nós não perguntamos onde você mora, não perguntamos quanto dinheiro você tem, não perguntamos se você tem família, e você pára de querer saber da nossa vida.
Ela concordou. Só:
- Só me deixa eu perguntar mais duas coisas. Por favor. Se quiser não precisa responder. Do que vocês mais gostam na vida?
- Sei lá. Na vida não tem o que gostar não.
- Eu gosto de batata frita – respondeu Cabeça.
- É... Taí. Batata frita. Mandou bem, Cabeça.
- E se vocês tivessem todo o dinheiro do mundo, com o que gastariam?
- Essa é difícil dona. Vou ter que pensar.
- Então vai pensando porque chegamos no nosso primeiro destino: a loja de tintas. Vamos entrar. Eu vou pedir uma tinta roxa e uma rosa. Vocês podem escolher da cor que quiserem, mas não pode ser nem preto nem cinza. Nem amarelo.
- Pra que que é toda essa tinta? Vamos pintar sua casa? Hahaha
- Não minha casa. Mas vamos pintar. Vai ser divertido, confia em mim.
- Fechou. Cabeça, que cor você vai pegar?
- Azul. E você?
- Não sei. Mas olha que cor bonita naquela parede. É um verde claro.
- Chama verde-água.
- Vou querer essa aí.
- Então ta. É só pedir pra alguém da loja. Aí separem e me chamem pra pagar.
O semáforo ficou vermelho. Parou o carro. Era domingo, não havia nenhum outro veículo na rua, nem pessoas, a exceção de dois meninos de rua. A situação não poderia ser mais perfeita.
Um dos meninos começou a lançar bolas para o outro. Ela saiu do carro. Eles se assustaram, e pararam com as bolas.
- Preciso de uma ajuda.
- O que é? – perguntou um deles.
- Se eu disser vocês não vão acreditar. Prometo que não vou fazer nada de mal com vocês, mas vocês também têm que prometer que não farão nada de mal comigo. Não pretendo dar dinheiro para vocês, mas garanto que irão se divertir.
- Precisamos de dinheiro. Se formos com você, é um dia sem receber nada além do que já recebemos. Que não dá quase nada. Nosso pai é gente boa, mas o que que a gente vai falar pra ele quando chegarmos em casa?
- Ok, verdade. Não pensei nisso. Quanto vocês precisam?
- Cem reais pra cada um fecha.
- Haha! Eu também não sou besta! Vocês não fariam 200 reais aqui nunca!
- Então ficamos aqui.
- 50 para cada um? Mais o almoço de hoje.
- Ta fechado.
- Entrem aí.
- Oh, Cabeça, por que você que vai na frente? Sai daí, cara.
- Vocês revezam. Deixa o... Cabeça ir na frente agora. Qual é o seu nome?
- Pulu.
- Então, Pulu, você vai na frente mais tarde.
Entraram. Ela perguntou-lhes as idades. Ambos tinham 13. Mais ou menos. “Deve ser por volta disso”, disse Pulu, mais falante, deitado nos bancos de trás. Era a primeira vez que andavam de carro. Ela teve que insistir muito para que Cabeça colocasse o cinto de segurança. Ensinou a ele como se mexia no rádio. Ele ficou brincando de escolher música. Mas preferiu ouvir notícia. Ela tentou saber onde eles moravam, como viviam, mas:
- Faz assim: nós não perguntamos onde você mora, não perguntamos quanto dinheiro você tem, não perguntamos se você tem família, e você pára de querer saber da nossa vida.
Ela concordou. Só:
- Só me deixa eu perguntar mais duas coisas. Por favor. Se quiser não precisa responder. Do que vocês mais gostam na vida?
- Sei lá. Na vida não tem o que gostar não.
- Eu gosto de batata frita – respondeu Cabeça.
- É... Taí. Batata frita. Mandou bem, Cabeça.
- E se vocês tivessem todo o dinheiro do mundo, com o que gastariam?
- Essa é difícil dona. Vou ter que pensar.
- Então vai pensando porque chegamos no nosso primeiro destino: a loja de tintas. Vamos entrar. Eu vou pedir uma tinta roxa e uma rosa. Vocês podem escolher da cor que quiserem, mas não pode ser nem preto nem cinza. Nem amarelo.
- Pra que que é toda essa tinta? Vamos pintar sua casa? Hahaha
- Não minha casa. Mas vamos pintar. Vai ser divertido, confia em mim.
- Fechou. Cabeça, que cor você vai pegar?
- Azul. E você?
- Não sei. Mas olha que cor bonita naquela parede. É um verde claro.
- Chama verde-água.
- Vou querer essa aí.
- Então ta. É só pedir pra alguém da loja. Aí separem e me chamem pra pagar.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
A paisagem e a cadeia alimentar
- Você tá vendo, não tá?
- O quê? A paisagem? É linda mesmo... Sua irmã tinha razão sobre as montanhas. Parecem... que querem ser escaladas.
- São de fato extraordinárias. Mas não é delas que estou falando. Lá embaixo, atrás daquela ali, tem um rio. Tá vendo? Ali. Tem umas casinhas gêmeas, que minha mãe acha lindas, mas eu na verdade acho um pouco cafonas. Aí, à direita delas, tem o rio.
- Ah, to vendo. Que que tem?
- O que será que aconteceria se eu pulasse até ele?
- Como assim, "pulasse até ele"?
- Pulasse até ele, oras. Simples. Eu passasse essa grade, desse um pulo, e caísse sobre ele. O que será que aconteceria?
- Como assim??? Você ficou louco? "Pular sobre ele"... E você pergunta como se perguntasse o que eu quero comer de jantar. Tá tudo bem com você?
- Tá, não estou entendendo a sua raiva. Não estou falando que vou pular. Só fiquei curioso para saber o que aconteceria.
- Quer saber o que aconteceria se você MORRESSE??? Isso é o quê? Um acesso de arrogância? Você quer saber como eu ficaria sem você? É um pedido para ouvir como você é importante para mim?
- Calma, tanbém não precisa chor..
- Ah, não? Você me pergunta como eu ficaria se meu namorado resolvesse se jogar a 20 metros de altura, dois dias antes do nosso casamento, e não espera que eu chore. Essa é ótima. Mas eu só vou te dizer uma coisa, que no fundo sei que é o que você queria ouvir: eu te amo, e se você se afundar naquele lago, toda a minha felicidade, meu ar, afundará com você.
- Meu deus, acho que na verdade você não entendeu nada! Pra começar, o rio é raso, então eu nem afundaria. E não foi essa minha pergunta. Não quero saber o que aconteceria com você, quer dizer, obrigada pelas suas palavras. Agora fiquei meio sem jeito. (pausa) Mas minha dúvida é: se eu pular até lá, se meu corpo chegar até lá, chega inteiro? Se chegar, e a correnteza não me levar para margem, será que transformo a cadeia alimentar dos seres do rio?
- Quê???- Nossa, se for um grande choque para os vizinhos das casas, será que eles mudarão um pouco o jeito de olhar pro mundo e pra linda paisagem?
- Desisto, você de fato enlouqueceu.
- Se eles deixassem de ser cafonas, talvez até valesse a pena.
- O quê? A paisagem? É linda mesmo... Sua irmã tinha razão sobre as montanhas. Parecem... que querem ser escaladas.
- São de fato extraordinárias. Mas não é delas que estou falando. Lá embaixo, atrás daquela ali, tem um rio. Tá vendo? Ali. Tem umas casinhas gêmeas, que minha mãe acha lindas, mas eu na verdade acho um pouco cafonas. Aí, à direita delas, tem o rio.
- Ah, to vendo. Que que tem?
- O que será que aconteceria se eu pulasse até ele?
- Como assim, "pulasse até ele"?
- Pulasse até ele, oras. Simples. Eu passasse essa grade, desse um pulo, e caísse sobre ele. O que será que aconteceria?
- Como assim??? Você ficou louco? "Pular sobre ele"... E você pergunta como se perguntasse o que eu quero comer de jantar. Tá tudo bem com você?
- Tá, não estou entendendo a sua raiva. Não estou falando que vou pular. Só fiquei curioso para saber o que aconteceria.
- Quer saber o que aconteceria se você MORRESSE??? Isso é o quê? Um acesso de arrogância? Você quer saber como eu ficaria sem você? É um pedido para ouvir como você é importante para mim?
- Calma, tanbém não precisa chor..
- Ah, não? Você me pergunta como eu ficaria se meu namorado resolvesse se jogar a 20 metros de altura, dois dias antes do nosso casamento, e não espera que eu chore. Essa é ótima. Mas eu só vou te dizer uma coisa, que no fundo sei que é o que você queria ouvir: eu te amo, e se você se afundar naquele lago, toda a minha felicidade, meu ar, afundará com você.
- Meu deus, acho que na verdade você não entendeu nada! Pra começar, o rio é raso, então eu nem afundaria. E não foi essa minha pergunta. Não quero saber o que aconteceria com você, quer dizer, obrigada pelas suas palavras. Agora fiquei meio sem jeito. (pausa) Mas minha dúvida é: se eu pular até lá, se meu corpo chegar até lá, chega inteiro? Se chegar, e a correnteza não me levar para margem, será que transformo a cadeia alimentar dos seres do rio?
- Quê???- Nossa, se for um grande choque para os vizinhos das casas, será que eles mudarão um pouco o jeito de olhar pro mundo e pra linda paisagem?
- Desisto, você de fato enlouqueceu.
- Se eles deixassem de ser cafonas, talvez até valesse a pena.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Absurdos acadêmicos
Fabiana resolveu ir mais cedo para a academia naquele dia. Ela sabia que Marcela estava indo todos os dias de manhã, e como fazia tempo que não encontrava a amiga, resolveu arriscar, mesmo que de última hora e sem telefonar.
- Má!!!
- Fabi!!
- Que cara é essa, amiga?
- Ai, Fabi, to puta! – começando a chorar – Não agüento mais esse lugar. Odeio essa academia. Odeio essas pessoas. Quero ir embora.
- Calma, amiga, o que aconteceu? Eu to aqui. Vamos. Você vai fazer esteira agora?
- É, eu tava fazendo, mas me expulsaram de lá.
- Quem?
- Aquela imbecil de camiseta branca. Dez milhões de esteiras livres e ela tem que querer a que eu to! E que regra imbecil é essa de que tem que marcar horário? Porque ninguém me avisa dessas regras. Ai, que ódio!
- Você ta de TPM, né? Má! Chorar por que te expulsaram da esteira?
- Eu sei que é imbecil. Sei lá. Acho que eu não consigo brigar com as pessoas aí eu choro. Mas também não teria chorado se não tivesse te encontrado – riem.
- Bom, vamos fazer naquelas duas. Calma... Não tem jeito, aqui é assim mesmo, só que tinham que ter te avisado.
Começam a fazer esteira juntas.
- Então – se acalmando – uma vez me expulsaram da esteira já porque a mulher tinha pego a senha e foi se alongar. Aí eu peguei a esteira dela. Ok, já achei um absurdo porque eu já tava há um tempo e ninguém tinha me avisado nada de senha, mas a mulher tinha chegado antes. Só que hoje... Eu cheguei antes, só que não avisei que tava indo na esteira. Aí chega a menina, pede justo a esteira que eu to, e dão, porque eu não marquei??? Porra, não tão vendo que eu to lá??? Não dá na mesma do que ter marcado? Eu já tava lá! Há 10 minutos! Eu não paro a esteira nem pra beber água. Eu tava correndo, não posso parar, preciso melhorar minha resistência. Por isso eu acordei cedo. Aí vem uma imbecil e me tira de lá. E me mandam pra outra que nem tava funcionando! Sério, Fabi, eu não sei o que me revolta mais: esse sistema imbecil que tem que marcar que você vai pra esteira ou essas pessoas imbecis que expulsam você da esteira sendo que tem outras dez livres!
- Mas é importante marcar que você ta em alguma esteira, Má. Pensa: você sai pra ir no banheiro, volta, e tão na sua. E se não tiver outra livre? É chato, mas tem que ter isso.
- Então, com isso eu até concordo. Foi o que aconteceu da outra vez e eu só fiquei puta porque ninguém me avisou que isso existia aqui. Tinha que ter um aviso. Mas dessa vez... Eu cheguei primeiro. A menina chegou dez minutos depois de mim. Disse: eu quero ir na esteira 8. A mulher viu que tava ocupada. Mas como eu não avisei, ela falou pra menina me expulsar! É ridículo isso! Não faz nenhum sentido! O que importa que eu não disse “Estou indo na esteira 8”? Eu não to lá? Não cheguei antes? Que regras ridículas são essas? Vou reclamar, juro.
- De boa, Má, desencana. Não vai adiantar. E quem faz as regras nem são as mulheres lá da frente. O negócio e aderir ao sistema. Toda vez quando você chegar avisa que você está indo em determinada esteira. E pronto, isso não vai mais acontecer.
- Sabe o que eu vou fazer? Todo dia vou ver quem está na esteira e não marcou. E vou pedir a da pessoa. E vou fazer isso de 5 em 5 minutos, expulsando todo mundo. Fazendo todo mundo mudar de esteira. Essa que a gente ta é mais lenta? To correndo 10 km por hora. Na outra corro 9.
- Acho que não.
- É, a raiva me dá mais resistência.
- Ai, Má...
- Má!!!
- Fabi!!
- Que cara é essa, amiga?
- Ai, Fabi, to puta! – começando a chorar – Não agüento mais esse lugar. Odeio essa academia. Odeio essas pessoas. Quero ir embora.
- Calma, amiga, o que aconteceu? Eu to aqui. Vamos. Você vai fazer esteira agora?
- É, eu tava fazendo, mas me expulsaram de lá.
- Quem?
- Aquela imbecil de camiseta branca. Dez milhões de esteiras livres e ela tem que querer a que eu to! E que regra imbecil é essa de que tem que marcar horário? Porque ninguém me avisa dessas regras. Ai, que ódio!
- Você ta de TPM, né? Má! Chorar por que te expulsaram da esteira?
- Eu sei que é imbecil. Sei lá. Acho que eu não consigo brigar com as pessoas aí eu choro. Mas também não teria chorado se não tivesse te encontrado – riem.
- Bom, vamos fazer naquelas duas. Calma... Não tem jeito, aqui é assim mesmo, só que tinham que ter te avisado.
Começam a fazer esteira juntas.
- Então – se acalmando – uma vez me expulsaram da esteira já porque a mulher tinha pego a senha e foi se alongar. Aí eu peguei a esteira dela. Ok, já achei um absurdo porque eu já tava há um tempo e ninguém tinha me avisado nada de senha, mas a mulher tinha chegado antes. Só que hoje... Eu cheguei antes, só que não avisei que tava indo na esteira. Aí chega a menina, pede justo a esteira que eu to, e dão, porque eu não marquei??? Porra, não tão vendo que eu to lá??? Não dá na mesma do que ter marcado? Eu já tava lá! Há 10 minutos! Eu não paro a esteira nem pra beber água. Eu tava correndo, não posso parar, preciso melhorar minha resistência. Por isso eu acordei cedo. Aí vem uma imbecil e me tira de lá. E me mandam pra outra que nem tava funcionando! Sério, Fabi, eu não sei o que me revolta mais: esse sistema imbecil que tem que marcar que você vai pra esteira ou essas pessoas imbecis que expulsam você da esteira sendo que tem outras dez livres!
- Mas é importante marcar que você ta em alguma esteira, Má. Pensa: você sai pra ir no banheiro, volta, e tão na sua. E se não tiver outra livre? É chato, mas tem que ter isso.
- Então, com isso eu até concordo. Foi o que aconteceu da outra vez e eu só fiquei puta porque ninguém me avisou que isso existia aqui. Tinha que ter um aviso. Mas dessa vez... Eu cheguei primeiro. A menina chegou dez minutos depois de mim. Disse: eu quero ir na esteira 8. A mulher viu que tava ocupada. Mas como eu não avisei, ela falou pra menina me expulsar! É ridículo isso! Não faz nenhum sentido! O que importa que eu não disse “Estou indo na esteira 8”? Eu não to lá? Não cheguei antes? Que regras ridículas são essas? Vou reclamar, juro.
- De boa, Má, desencana. Não vai adiantar. E quem faz as regras nem são as mulheres lá da frente. O negócio e aderir ao sistema. Toda vez quando você chegar avisa que você está indo em determinada esteira. E pronto, isso não vai mais acontecer.
- Sabe o que eu vou fazer? Todo dia vou ver quem está na esteira e não marcou. E vou pedir a da pessoa. E vou fazer isso de 5 em 5 minutos, expulsando todo mundo. Fazendo todo mundo mudar de esteira. Essa que a gente ta é mais lenta? To correndo 10 km por hora. Na outra corro 9.
- Acho que não.
- É, a raiva me dá mais resistência.
- Ai, Má...
quinta-feira, 24 de julho de 2008
O fim
Nunca mais Ângela viu Gustavo. E a conversa com Rodrigo também não existiu. Não porque o marido tivesse ficado muito decepcionado, coração partido, nada disso. Em verdade, o ocorrido foi um felicíssimo acaso para ele, que há quatro anos mantinha uma amante, a quem, havia dois anos, havia prometido que terminaria o casamento.
Mas, como a todo homem, faltava-lhe coragem. Fora o medo que tinha de que os filhos ficassem do lado da mãe, o que certamente aconteceria. Ângela, porém, deixou tudo mais simples. Agora ele saía como bom homem de coração partido e com o apoio dos filhos. Não precisaria mais agüentar a mulher, a amante ficaria felicíssima com a notícia e só teria que aguardar uns três meses mais para poder mostrar a cara sem o risco de que alguém desconfiasse que a relação existia há muito mais tempo.
Rodrigo, em suma, se deu bem.
Já Ângela perdeu o amigo que tanto amava, que tanto queria que virasse amante, mas que havia rejeitado, em nome de sua família. Família que ela perdeu também. Os dois filhos foram, naquele dia, dormir em casa de amigos. E não voltariam mais para casa, se não uma vez ou outra para pegar alguma coisa.
Odiavam a mãe. Mais do que tudo. E idolatravam o pai.
Ângela chegou a pensar em suicídio. Não teria coragem. Tentou ligar para Gustavo todos os dias durante um mês. Até que tomou coragem e perguntou a Dona Inês o que tinha acontecido com o filho.
- Mudou de telefone. Eu te entendo, Ângela, não te condeno pelo que fez, pela sua escolha. Mas esquece meu filho. Ele mesmo não quer te ver nem pintada.
Ela chorou por dois meses seguidos, sem ninguém para consolá-la. Ninguém.
A não ser Karina, a filha da empregada.
Mas, como a todo homem, faltava-lhe coragem. Fora o medo que tinha de que os filhos ficassem do lado da mãe, o que certamente aconteceria. Ângela, porém, deixou tudo mais simples. Agora ele saía como bom homem de coração partido e com o apoio dos filhos. Não precisaria mais agüentar a mulher, a amante ficaria felicíssima com a notícia e só teria que aguardar uns três meses mais para poder mostrar a cara sem o risco de que alguém desconfiasse que a relação existia há muito mais tempo.
Rodrigo, em suma, se deu bem.
Já Ângela perdeu o amigo que tanto amava, que tanto queria que virasse amante, mas que havia rejeitado, em nome de sua família. Família que ela perdeu também. Os dois filhos foram, naquele dia, dormir em casa de amigos. E não voltariam mais para casa, se não uma vez ou outra para pegar alguma coisa.
Odiavam a mãe. Mais do que tudo. E idolatravam o pai.
Ângela chegou a pensar em suicídio. Não teria coragem. Tentou ligar para Gustavo todos os dias durante um mês. Até que tomou coragem e perguntou a Dona Inês o que tinha acontecido com o filho.
- Mudou de telefone. Eu te entendo, Ângela, não te condeno pelo que fez, pela sua escolha. Mas esquece meu filho. Ele mesmo não quer te ver nem pintada.
Ela chorou por dois meses seguidos, sem ninguém para consolá-la. Ninguém.
A não ser Karina, a filha da empregada.