O trecho que segue é de uma peça do Brecht chamada A exceção e a regra.
Só não vou dizer que é uma de suas melhores peças, porque admito não ter lido muitas. De qualquer forma, recomendo, não só a leitura deste pequeno trecho que aparece no começo da obra, como a de toda ela.
“Vejam bem o procedimento desta gente:
Estranhável, conquanto não pareça estranho
Difícil de explicar, embora tão comum
Difícil de entender, embora seja a regra.
Até o mínimo gesto, simples na aparência,
Olhem desconfiados! Perguntem
Se é necessário, a começar do mais comum!
E, por favor, não achem natural
O que acontece e torna a acontecer
Não se deve dizer que nada é natural!
Numa época de confusão e sangue,
Desordem ordenada, arbítrio de propósito,
Humanidade desumanizada
Para que imutável não se considere
Nada"
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
A vaidade
Ela acompanha-o o tempo todo
É por ela que se esforça
É por ela que não dorme
É por ela que não come
É por ela que não vive.
Desde o dia em que levou a teoria para a prática
Ela guia-o e lhe dá ambição
De ser o melhor, melhor que o melhor
Ela cega-o e o torna arrogante
Ela o faz alterar o tom de voz
Admita, jornalista: ela o possui
É por ela que se esforça
É por ela que não dorme
É por ela que não come
É por ela que não vive.
Desde o dia em que levou a teoria para a prática
Ela guia-o e lhe dá ambição
De ser o melhor, melhor que o melhor
Ela cega-o e o torna arrogante
Ela o faz alterar o tom de voz
Admita, jornalista: ela o possui
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Uma mulher de atitude
Então não podia ir da aula de ginástica até sua casa, a pé, sem que nenhum homem, carro ou moto se opinasse sobre sua beleza, as curvas de seu corpo, seu cabelo, seu cheiro? Assim já era demais. Até a calça legging substituíra pela jeans. Andava com passos firmes, pesados, e, propositalmente, de vez em quando coçava as axilas ou cutucava o nariz para afastar as babas dos cães famintos. Mas a possível solução mostrara-se inútil. Tinha que fechar os ouvidos e manter o olhar sempre no horizonte se quisesse se sentir o menos “comida com o olhar” que fosse possível.
Estava chegando, faltava pouco. O ouvido esquerdo então detectou um som. Algo como:
- Caprichou hoje, coração!
Coração? Que coração? Que capricho? Estava suada. Sem maquiagem. Cabelo preso. Tênis!
- Quer carona, linda?
Acelerou o passo. Estava trânsito. Se andasse bem rápido, fugia do carro. O sinal abriu, os carros andaram, e lá vem o mesmo carro... Diminuiu o passo, pensando que, assim, da próxima vez que o sinal abrisse, o carro certamente a ultrapassaria. Ledo engano.
- Não adianta fugir, gostosa.
Parou. Suspirou. Virou. Disse:
- É, tem razão.
Foi até o carro. Entrou.
- Puxa, se eu sou gostosa, você é um tesão. Faz assim, eu vou descer não no próximo quarteirão, no próximo. Aí você pára o carro, a gente dá umazinha, e todo o mundo sai feliz.
- Ô, moça, desculpa, sabe como é, não vai dar não... Sou casado, tenho filhos...
- Ah, deixa de papo, eu sei que você quer. Você deixou bem claro.
- Era só brincadeirinha, moça. Você é bonita mesmo, mas assim, é melhor você sair do carro.
- É, foi o que eu pensei. Fala mas não faz. Mas não se preocupa não, porque todo cara que tem problema pra subir o... é assim.
Saiu do carro. Pegou um caderno na mochila, abriu a última página, e riscou o item
“Corresponder a um xaveco na rua só para ver no que dá”. Sorriu, satisfeita. “Sabia”, disse.
Estava chegando, faltava pouco. O ouvido esquerdo então detectou um som. Algo como:
- Caprichou hoje, coração!
Coração? Que coração? Que capricho? Estava suada. Sem maquiagem. Cabelo preso. Tênis!
- Quer carona, linda?
Acelerou o passo. Estava trânsito. Se andasse bem rápido, fugia do carro. O sinal abriu, os carros andaram, e lá vem o mesmo carro... Diminuiu o passo, pensando que, assim, da próxima vez que o sinal abrisse, o carro certamente a ultrapassaria. Ledo engano.
- Não adianta fugir, gostosa.
Parou. Suspirou. Virou. Disse:
- É, tem razão.
Foi até o carro. Entrou.
- Puxa, se eu sou gostosa, você é um tesão. Faz assim, eu vou descer não no próximo quarteirão, no próximo. Aí você pára o carro, a gente dá umazinha, e todo o mundo sai feliz.
- Ô, moça, desculpa, sabe como é, não vai dar não... Sou casado, tenho filhos...
- Ah, deixa de papo, eu sei que você quer. Você deixou bem claro.
- Era só brincadeirinha, moça. Você é bonita mesmo, mas assim, é melhor você sair do carro.
- É, foi o que eu pensei. Fala mas não faz. Mas não se preocupa não, porque todo cara que tem problema pra subir o... é assim.
Saiu do carro. Pegou um caderno na mochila, abriu a última página, e riscou o item
“Corresponder a um xaveco na rua só para ver no que dá”. Sorriu, satisfeita. “Sabia”, disse.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Eu gosto de...
- Então, Flavia, quer dizer que você vai acampar com a gente? Quantos anos você tem?
- Seis.
- E sua irmãzinha, vai pro acampamento com você?
- Não, ela é muito pequena.
- Quantos anos ela tem?
- Quatro.
- Hum... E que brincadeira você mais gosta?
- Esconde-esconde.
- Esconde-esconde? E qual é a sua comida preferida?
- Batata frita.
- A minha comida preferida é sanduíche de queijo com presunto, milk shake, sorvete, macarrão, coxinha, croquete...
- Diana!! Ele não ta perguntando pra você, você não vai no acampamento!
- Seis.
- E sua irmãzinha, vai pro acampamento com você?
- Não, ela é muito pequena.
- Quantos anos ela tem?
- Quatro.
- Hum... E que brincadeira você mais gosta?
- Esconde-esconde.
- Esconde-esconde? E qual é a sua comida preferida?
- Batata frita.
- A minha comida preferida é sanduíche de queijo com presunto, milk shake, sorvete, macarrão, coxinha, croquete...
- Diana!! Ele não ta perguntando pra você, você não vai no acampamento!
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Como saber que ele é o grande amor, final
Cristhian e Fabiana se conheceram, se encontraram, saíram, casaram. Tudo isso já foi dito. É tão interessante saber passo a passo de como foi o primeiro encontro oficial, o primeiro beijo, a primeira briga, o primeiro sexo, a primeira viagem, quanto é interessante ouvir as histórias de amigos, ou ver novela, ou, em muitos casos, pensar na própria vida. Não que não seja interessante. Só não trás grandes novidades.
Então vamos direto ao ponto. Quero dizer, o que uniu esse casal. O que fez de Cristhian ser, como diz muitos títulos de textos deste blog, o homem da vida de Fabiana.
Porque, afinal de contas, ele não fazia mesmo o tipo da menina. Mas o que ela havia idealizado sobre ele fazia. Era charmoso, era independente, trabalhava, conhecia gente, freqüentava espaços alternativos... Nada disso era real. Isto era: ele era um metido, acomodado e dependente financeiramente do pai. Não era de todo mal pessoa, mas que não tinha nada a ver com o que Fabiana esperava, ah, isso não tinha. Bem como Fabiana não tinha nada a ver com a última namorada de Cristhian, Samantha, a mulher de sua vida, que ele jamais esqueceria, e nem aceitaria o fato de ela estar casada com outro.
Mas Cristhian era do tipo que não queria fazer feio perto dos amigos. Por isso terminara com Samantha. Ela era feia. Tinha um nariz muito grande. Os amigos tiravam sarro dele. Não o invejavam. Já Fabiana... Ah, como o invejariam se namorasse Fabiana. Nem era preciso namorar. Apenas se o vissem perto dela já o invejariam. Inclusive, no primeiro encontro – isso ale a pena relatar – Cristhian já treinava maneiras de abraçá-la, de forma a deixar os amigos... Com os nervos à flor da pele, digamos.
E Fabiana... Fabiana queria ser atriz. Tinha esse sonho antigo, que nunca havia compartilhado com ninguém. Porque tinha vergonha, se achava boba. E também porque tinha medo de que começassem a insistir para que ela fosse fazer aulas de teatro. Ela odiava teatro. Queria apenas brilhar. Ser famosa. Dar autógrafos. Beijar atores lindos “tecnicamente”. Era o que ela queria.
Nunca havia pensado que fosse possível realizar seu sonho até conhecer Cristhian. Era perfeito. Ele ficava famoso, rico, ela se casava com ele, e estrelava seu filme. Protagonista. Podia ser par do Antonio Banderas, nada mal. Simples. Bem simples.
Então se uniu o útil ao útil, e o agradável ficou para fora do casamento. Seria por essa época, quando Fabiana começou a procurar por esse “agradável”, que Ângela receberia o perdão da filha.
Então vamos direto ao ponto. Quero dizer, o que uniu esse casal. O que fez de Cristhian ser, como diz muitos títulos de textos deste blog, o homem da vida de Fabiana.
Porque, afinal de contas, ele não fazia mesmo o tipo da menina. Mas o que ela havia idealizado sobre ele fazia. Era charmoso, era independente, trabalhava, conhecia gente, freqüentava espaços alternativos... Nada disso era real. Isto era: ele era um metido, acomodado e dependente financeiramente do pai. Não era de todo mal pessoa, mas que não tinha nada a ver com o que Fabiana esperava, ah, isso não tinha. Bem como Fabiana não tinha nada a ver com a última namorada de Cristhian, Samantha, a mulher de sua vida, que ele jamais esqueceria, e nem aceitaria o fato de ela estar casada com outro.
Mas Cristhian era do tipo que não queria fazer feio perto dos amigos. Por isso terminara com Samantha. Ela era feia. Tinha um nariz muito grande. Os amigos tiravam sarro dele. Não o invejavam. Já Fabiana... Ah, como o invejariam se namorasse Fabiana. Nem era preciso namorar. Apenas se o vissem perto dela já o invejariam. Inclusive, no primeiro encontro – isso ale a pena relatar – Cristhian já treinava maneiras de abraçá-la, de forma a deixar os amigos... Com os nervos à flor da pele, digamos.
E Fabiana... Fabiana queria ser atriz. Tinha esse sonho antigo, que nunca havia compartilhado com ninguém. Porque tinha vergonha, se achava boba. E também porque tinha medo de que começassem a insistir para que ela fosse fazer aulas de teatro. Ela odiava teatro. Queria apenas brilhar. Ser famosa. Dar autógrafos. Beijar atores lindos “tecnicamente”. Era o que ela queria.
Nunca havia pensado que fosse possível realizar seu sonho até conhecer Cristhian. Era perfeito. Ele ficava famoso, rico, ela se casava com ele, e estrelava seu filme. Protagonista. Podia ser par do Antonio Banderas, nada mal. Simples. Bem simples.
Então se uniu o útil ao útil, e o agradável ficou para fora do casamento. Seria por essa época, quando Fabiana começou a procurar por esse “agradável”, que Ângela receberia o perdão da filha.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Xingamento acidental
Todo o mundo tirava sarro daquela menina. Ela faltava às aulas dia sim, dia não. Ela tinha espinhas. Ela era gorda. Ela era feia. E, indiscutivelmente, ela era burra:
- Silvana, você é uma anfíbia!!!
- Ah, é? Então você, você é... Você é um mamífero, Fábio.
Fábio também não era lá muito inteligente. O único aluno repetente da turma da sexta série. Mas era bonito, mais velho, engraçado, bagunceiro e não ia deixar passar em branco a gafe de Silvana. Todos os dias, estando a menina presente ou não, alguém gritava “Você é um mamífero, Fábio!”
Eu me dava bem com Silvana. Claro que dava boas risadas com as piadas que faziam dela. Eram más, mas muito engraçadas. De qualquer modo, se não éramos propriamente amigas, de confiar segredos, eu tinha dó dela e achava-a bastante simpática. Um dia ela até veio em casa pra gente brincar. Foi tão divertido que ela ficou para dormir. No dia seguinte perguntei:
- Quer uma meia emprestada?
E ela respondeu, nervosa:
- Não é porque todo o mundo tira sarro de mim porque eu não usei meia um dia que eu vou começar a me preocupar com isso.
Disse, sinceramente:
- Quê? Tiraram sarro de você porque você não tava de meia?
- É, mas eu não ligo pra isso.
- Eu nem sabia disso. Ofereci porque pensei que as suas estão sujas, porque você dormiu aqui...
E eu juro que não guardei rancor nenhum dessa bronca. Juro que não foi por causa disso que espalhei a piada que arruinaria de vez a 6a série de Silvana. Foi sem querer. Não fiz pra ser popular. Nem pensei que a piada feita em voz baixa para uma colega ao lado fosse se espalhar tão rapidamente. Apenas tive um pensamento, achei engraçado, e repeti para alguém. Juro. Se eu pudesse voltar no tempo, nunca teria dito, após o professor reclamar da ausência de Silvana:
- Sabe por que a Silvana falta muito? É porque de segunda ela tem escola, de terça ela tem balé, de quarta escola, de quinta balé...
Nem pensei balé para tirar sarro dela, a anfíbia dançarina, como ficou conhecida. Apenas surgiu como atividades que as outras crianças faziam a tarde, e não de manhã. Essa era a piada. Nem achava ela feia. Também não era bonita. Mas eu não era muito melhor. Também tiravam sarro de mim às vezes. Não foi de propósito, não foi. Eu juro. Não queria que ela tivesse mudado de escola. Ou que tivesse chorado. Ou que, para sempre, fosse a sapa espinhenta que, de terça e quinta, fazia balé.
- Silvana, você é uma anfíbia!!!
- Ah, é? Então você, você é... Você é um mamífero, Fábio.
Fábio também não era lá muito inteligente. O único aluno repetente da turma da sexta série. Mas era bonito, mais velho, engraçado, bagunceiro e não ia deixar passar em branco a gafe de Silvana. Todos os dias, estando a menina presente ou não, alguém gritava “Você é um mamífero, Fábio!”
Eu me dava bem com Silvana. Claro que dava boas risadas com as piadas que faziam dela. Eram más, mas muito engraçadas. De qualquer modo, se não éramos propriamente amigas, de confiar segredos, eu tinha dó dela e achava-a bastante simpática. Um dia ela até veio em casa pra gente brincar. Foi tão divertido que ela ficou para dormir. No dia seguinte perguntei:
- Quer uma meia emprestada?
E ela respondeu, nervosa:
- Não é porque todo o mundo tira sarro de mim porque eu não usei meia um dia que eu vou começar a me preocupar com isso.
Disse, sinceramente:
- Quê? Tiraram sarro de você porque você não tava de meia?
- É, mas eu não ligo pra isso.
- Eu nem sabia disso. Ofereci porque pensei que as suas estão sujas, porque você dormiu aqui...
E eu juro que não guardei rancor nenhum dessa bronca. Juro que não foi por causa disso que espalhei a piada que arruinaria de vez a 6a série de Silvana. Foi sem querer. Não fiz pra ser popular. Nem pensei que a piada feita em voz baixa para uma colega ao lado fosse se espalhar tão rapidamente. Apenas tive um pensamento, achei engraçado, e repeti para alguém. Juro. Se eu pudesse voltar no tempo, nunca teria dito, após o professor reclamar da ausência de Silvana:
- Sabe por que a Silvana falta muito? É porque de segunda ela tem escola, de terça ela tem balé, de quarta escola, de quinta balé...
Nem pensei balé para tirar sarro dela, a anfíbia dançarina, como ficou conhecida. Apenas surgiu como atividades que as outras crianças faziam a tarde, e não de manhã. Essa era a piada. Nem achava ela feia. Também não era bonita. Mas eu não era muito melhor. Também tiravam sarro de mim às vezes. Não foi de propósito, não foi. Eu juro. Não queria que ela tivesse mudado de escola. Ou que tivesse chorado. Ou que, para sempre, fosse a sapa espinhenta que, de terça e quinta, fazia balé.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
A chave do carro (Como saber que ele é o grande amor, parte 6)
Fabiana inspirou fundo, levantou para ir embora da biblioteca da FAU.
- Quer dizer que você vem até aqui, me vê, e vai embora sem falar comigo?
Era Cristhian, atrás dela. Ela ainda se lembrava da voz dele. Virou-se:
- Eu te conheço?
- Ah, agora vai fazer que não lembra de mim.
- Não lembro mesmo. Hum, se bem que acho que já vi você em algum lugar sim... Esse jeito esnobe de falar... Você não é o cineasta falido que apareceu no café...?
- Claro que sou ele. E você viu meu filme, se identificou, e veio me encontrar?
- Filme? Não entendi nada do seu filme das meias dançantes.
- Não esse. Fiz outro! Por que to falando isso, é claro que você ta se fazendo e boba.
“Shhhhhh” – escutaram.
- Bom, licença que eu vou embora. Tchau – e, sabiamente, lançou a Cristhian um olhar desdenhoso, com uma pitada de dó. Como se dissesse: “Melhor procurar um médico”.
- Ah, não, não é possível.
“SHHHHH”
Cristhian seguiu-a até a saída. Fabiana correu um pouco em direção a seu carro, depois ficou parada olhando para dentro da bolsa, como se procurasse suas chaves.
- O velho truque de procurar as chaves...
- Ah, não... Me deixa em paz, vai...
Cristhian baixou a guarda. Disse, delicadamente:
- É isso que você quer? Mesmo? Se é isso que você quer, então vou me convencer de que foi mera coincidência mesmo eu ter te encontrado por aqui.
- Não!
- Não?
- Você não me ajudou com as revistas. Pronto, falei.
- Claro que não! E perder a oportunidade de te ver agachada com essa saia?
- Agora eu vou embora.
E saiu em direção ao carro dessa vez para partir de verdade. “Ele é um babaca mesmo, a Má tinha razão”. Mas, agora sim, não encontrava a chave.
- O quê? Não sabia que além de ingênua você era hipócrita. Você usa uma saia que bate na coxa para quê, se não é pra mostrar as pernas. Hoje não ta tão quente assim não...
Fabiana continuou com a cabeça enfiada dentro da bolsa.
- Ok, desculpa... Olha, eu e você viemos aqui hoje pelo mesmo motivo. Eu gosto de você. Você gosta de mim. Já ta evidente não ta?
- Não. E achei que pudesse gostar de você. Agora tenho minhas dúvidas.
- Ótimo! Então é melhor acabar com as dúvidas. Vem, vamos tomar um café...
Fabiana ficou tentada a aceitar o convite. Mas no momento estava muito pouco a vontade com a micro saia.
- Agora eu não posso. Tenho compromisso.
- Amanhã, sábado?
- Pode ser. Tchau.
- E seu telefone?
- O que é que tem?
- Preciso te ligar.
- Não precisa, só se você quiser.
- É, eu sei.
- Grosso!
- Que foi?
- Nada. Vai, deixa eu te falar logo meu telefone, antes que eu mude de idéia.
- Quer dizer que você vem até aqui, me vê, e vai embora sem falar comigo?
Era Cristhian, atrás dela. Ela ainda se lembrava da voz dele. Virou-se:
- Eu te conheço?
- Ah, agora vai fazer que não lembra de mim.
- Não lembro mesmo. Hum, se bem que acho que já vi você em algum lugar sim... Esse jeito esnobe de falar... Você não é o cineasta falido que apareceu no café...?
- Claro que sou ele. E você viu meu filme, se identificou, e veio me encontrar?
- Filme? Não entendi nada do seu filme das meias dançantes.
- Não esse. Fiz outro! Por que to falando isso, é claro que você ta se fazendo e boba.
“Shhhhhh” – escutaram.
- Bom, licença que eu vou embora. Tchau – e, sabiamente, lançou a Cristhian um olhar desdenhoso, com uma pitada de dó. Como se dissesse: “Melhor procurar um médico”.
- Ah, não, não é possível.
“SHHHHH”
Cristhian seguiu-a até a saída. Fabiana correu um pouco em direção a seu carro, depois ficou parada olhando para dentro da bolsa, como se procurasse suas chaves.
- O velho truque de procurar as chaves...
- Ah, não... Me deixa em paz, vai...
Cristhian baixou a guarda. Disse, delicadamente:
- É isso que você quer? Mesmo? Se é isso que você quer, então vou me convencer de que foi mera coincidência mesmo eu ter te encontrado por aqui.
- Não!
- Não?
- Você não me ajudou com as revistas. Pronto, falei.
- Claro que não! E perder a oportunidade de te ver agachada com essa saia?
- Agora eu vou embora.
E saiu em direção ao carro dessa vez para partir de verdade. “Ele é um babaca mesmo, a Má tinha razão”. Mas, agora sim, não encontrava a chave.
- O quê? Não sabia que além de ingênua você era hipócrita. Você usa uma saia que bate na coxa para quê, se não é pra mostrar as pernas. Hoje não ta tão quente assim não...
Fabiana continuou com a cabeça enfiada dentro da bolsa.
- Ok, desculpa... Olha, eu e você viemos aqui hoje pelo mesmo motivo. Eu gosto de você. Você gosta de mim. Já ta evidente não ta?
- Não. E achei que pudesse gostar de você. Agora tenho minhas dúvidas.
- Ótimo! Então é melhor acabar com as dúvidas. Vem, vamos tomar um café...
Fabiana ficou tentada a aceitar o convite. Mas no momento estava muito pouco a vontade com a micro saia.
- Agora eu não posso. Tenho compromisso.
- Amanhã, sábado?
- Pode ser. Tchau.
- E seu telefone?
- O que é que tem?
- Preciso te ligar.
- Não precisa, só se você quiser.
- É, eu sei.
- Grosso!
- Que foi?
- Nada. Vai, deixa eu te falar logo meu telefone, antes que eu mude de idéia.