sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Doce Fonte

Foi às 9 horas do horário de verão que o caminhão de açúcar tombou na marginal.

Todo o carregamento vazou, e o asfalto cinza foi coberto por minúsculas partículas de açúcar refinado.

Mais ou menos ao meio dia, quando o sol usa toda a sua energia como se não houvesse amanhã, a massa criada pelas 40 doces toneladas ganhou vida e começou a se multiplicar magicamente. De 15 em 15 minutos, mais cinco quilômetros de avenida eram encobertos.

Não tardou para que a polícia isolasse o local, que aumentava em progressão geométrica. Os carros que trafegavam tiveram que parar onde estavam. Felizmente, nem motoristas nem passageiros pareciam estressados ou nervosos. Alguns deixaram lá o carro e tomaram um ônibus para o trabalho e, outros, ficaram por ali mesmo vendo o que iria acontecer.

Não houve acidentes, com exceção dos dois primeiros carros que vinham logo depois do caminhão e mergulharam diretamente no açúcar. Os motoristas dos automóveis – que vinha sem passageiros – não tiveram ferimentos. E a amargura de terem perdido o carro definitivamente desapareceu milésimos de segundos após o acidente.

A situação foi controlada rapidamente. Por sorte, todas as autoridades que ali chegaram estavam de bom-humor. Dialogavam com calma e simpatia para saber quais seriam os procedimentos corretos em tal situação. Não se tratava de como remover o açúcar, mas sim de o que fazer com ele. Afinal, nem todos os grãos haviam entrado em contato com o asfalto sujo e, se eles eram capazes de se multiplicar, talvez todo o abastecimento açucareiro do país pudesse vir de lá.

Nunca mais ninguém teria que pagar por açúcar. Bastaria que cada um se dirigisse à estrada e pegasse o seu.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Que Fernando Pessoa fale por mim

Liberdade

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

no post today

trabalhei domingo. estou de folga.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

70ºC

- Esquentou, né?

- E como!

- Metade da minha família já morreu nessa brincadeira.

- Até que eles resistiram bem. Quanto? 50?

- 65.

- Pô, mas 65 graus é pra caramba! E só metade! Da minha, só restou eu.

- Só você?

- É, mas eles não resistiram nem os 45. Já me consolei.

- Eu ainda to meio abatido... Faz pouco tempo... Quero saber até quando eu vou resistir.

- Olha, tenho pra mim que quem chegou aos 70 graus fica vivo. Assim espero.

- Eu não espero não. No fim das contas acho que ta na hora da gente ir embora mesmo. O homem.

- Acho que o homem não vai embora, não. Tem criança nascendo até.

- Nascendo e morrendo.

- Não, tem criança viva e sem aparelho. Saiu hoje no jornal, você não leu? É a evolução, meu amigo. O homem agora resiste bem ao calor. E dizem por aí que daqui uns anos nem de água precisaremos.

- Acho que prefiro morrer.

- Eu não! Com esse tanto de gente que morreu, da até pra tentar começar de novo. Eu penso como se isso fosse um dilúvio, sabe?

- Sei. E nós somos exemplos de boas pessoas? Por que resistimos ao calor? Ah, sim, claro...

- Pelo menos tem emprego pra todo o mundo.

- Preferia estar desempregado e ter minha família comigo.

- Acho que você ainda está muito abalado.

- Sim, estou. E com cada vez mais calor.

- Calor? Sabe que até já sinto um pouco de frio?

- Faz sentido.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Contas que não batem

Na 8a série, minha professora de história disse que deveríamos estaudar, por dia, quatro horas de sua matéria. Era uma professora muito boa, mas que não entendia nada de matemática. Lembro que na mesma ocasião somei as matérias e, se estudassemos 4 horas de cada coisa, não restava tempo nem para ir para a escola.

O estranho é que mesmo hoje eu sinto que tudo precisa de um estudo de 4 horas por dia. E eu tenho cada vez mais "tudo" para estudar.

"A título de exemplo", minha professora da Letras quer que eu faça, sozinha, um TCC em um mês, só porque eu mal saí da tortura de escrever um em um ano, e em grupo!

Enfim, meus ombros estão tensos, minha cabeça está a mil e eu mal durmo a noite. E logo logo nada passa porque, como eu disse, o tempo todo aparece mais uma coisa a ser estudada.

Só espero que valha a pena!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Herói moderno

O que torna, em São Paulo, uma pessoa qualquer em um herói:

- Ser assassinado

- Ser baleado

-Ser seqüestrado

- Levar uma surra

- Sofrer um acidente

- Dizer “Não fiz mais do que a minha obrigação” ao devolver uma carteira perdida.

- Dizer “Não fiz mais do que a minha obrigação” ao socorrer a vítima de um acidente

Não importa. Pode-se ter bom o mau coração. Ser honesto, ser desonesto. Ser egoísta, ser altruísta. Basta sofrer ou demonstrar suposta humildade. Ou, como diz uma pichação de muro: O herói é p cara quem não teve tempo de fugir.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Vontade de salvar vida

Apesar do calor de 30ºC, a piscina do prédio estava vazia pela manhã daquele sábado.

Sara aproveitou que já havia adiantado todo o dever de casa da segunda-feira – duas páginas de exercícios de enormes equações –, e foi para a piscina. Não sem antes convidar seu irmão mais novo.

- Biel, vamos na piscina comigo! Vem, agora!

Colocou a sunga no irmão de 4 anos, pôs biquíni, pegou bola, bóia e toalha, e desceu.

Biel queria brincar com a bola. Sara colocou nele as bóias de braço, já que as pequeninas pernas ainda não alcançavam o chão. A menina preferia tomar um pouco de sol ouvindo música, mas, como ela é quem tinha arrastado o irmão para o térreo, concordou em brincar um pouco.

Quinze minutos passados, rendeu-se:

- Biel, chega de bola. A Sara vai tomar um pouco de sol. Você pode brincar com a bola aqui fora se quiser, ta bom?

Enquanto tirava as bóias dos braços de Biel, pensou que talvez seria melhor deixá-las, caso o menino caísse na água. Mas lhe ocorreu: “Se ele cair, eu corro para socorrê-lo. Aí vou ser uma menina de 10 anos que já salvou uma vida. Legal isso. Vou ter salvado a vida do meu próprio irmão...”

E foi ouvindo música, sonhando na sensação de salvar uma vida. De aparecer em um programa de televisão... Até que a bola caiu na água.

Biel se aproximou da piscina para resgatá-la. Sara ficou de espreita, só observando a cena. Biel não alcançava a bola, Sara não dizia nada. Biel caiu na água.

Em menos de um segundo, Sara mergulhou na água para resgatar o irmão, que se encontrava a um centímetro da margem. Trouxe-o para cima e falou, como mãe:

- Você tem que tomar mais cuidado! Se eu não tivesse por perto, você poderia ter morrido.

Biel ouviu, e voltou a brincar com a bola.

Não houve programa de televisão nem nenhum reconhecimento, a não ser o da própria menina, que para sempre se sentiu feliz e orgulhosa por ter salvado a vida do irmão.